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FRANCISCO E CLARA OLHAVAM NA MESMA DIREÇÃO
sexta-feira, 6 de junho de 2014
ROMA – Publicamos o comentário que o padre Raniero Cantalamessa OFM Cap – pregador da Casa Pontifícia
– preparou sobre Francisco e Clara, a propósito da emissão, na televisão
pública italiana, de uma minissérie sobre os dois grandes santos de Assis.
É comum falar da amizade entre Clara e Francisco em
termos de amor humano. Em seu conhecido ensaio sobre apaixonar-se e amar,
Francisco Alberoni escreve que “a relação entre Santa Clara e São Francisco tem
todas as características de um enamoramento transferido (ou sublimado) à
divindade”. “Francisco e Clara”, de Fabrizio Costa, a série televisiva
transmitida pela Rai Uno, melhor talvez que “Irmão Sol e Irmã Lua”, de
Zeffirelli, soube evitar esta alusão ao romântico, sem tirar nada da beleza também
humana de um encontro assim.
O
entendimento extraordinariamente profundo entre Francisco e Clara que
caracteriza a epopéia franciscana não vem “da carne e do sangue”. Não é, por
exemplo, igualmente célebre, como aquele entre Heloísa e Abelardo. Se assim
tivesse sido, teria deixado talvez uma marca na literatura, mas não na história
da santidade. Com uma conhecida expressão de Goethe, poderíamos chamar a de
Francisco e Clara uma “afinidade eletiva”, com a condição de entender “eletiva”
não só no sentido de pessoas que se elegeram reciprocamente, mas no sentido de
pessoas que realizaram a mesma eleição.
Antoine de Saint-Exupéry escreveu que “Amar não quer dizer
olhar um ao outro, mas olhar juntos na mesma direção“. Clara e Francisco na verdade não passaram a vida olhando um ao outro,estando
bem juntos.
Trocaram pouquíssimas palavras, quase só as referidas nas
fontes. Havia uma estupenda discrição entre eles, tanta que o santo, às vezes,
era amavelmente reprovado por seus irmãos por ser demasiado duro com Clara.
Só ao final da vida vemos atenuar este rigor nas relações e
Francisco buscar cada vez com maior freqüência consolo e confirmação junto a
sua “Plantinha”. É em São Damião onde se refugia próximo à morte, devorado por
enfermidades, e está perto dela quando entoa o canto de Irmão Sol e Irmã Lua,
com aquele elogio de “Irmã Água, útil e humilde e preciosa e casta”, que parece
ter escrito pensando em Clara.
Em lugar de olhar um ao outro, Clara e Francisco olharam na
mesma direção. E se sabe qual foi para eles esta “direção”. Clara e Francisco
eram como olhos que olham sempre na mesma direção. Dois olhares que contemplam
o objeto de ângulos diversos dão profundidade, relevância ao objeto, permitem
“envolvê-lo” com o olhar. Assim foi para Clara e Francisco. Contemplaram o
mesmo Deus, o mesmo Senhor Jesus, o mesmo Crucificado, a mesma Eucaristia, mas
de “ângulos” diferentes, com dons e sensibilidade próprios: os masculinos e os
femininos. Juntos perceberam mais do que teriam podido fazer dois Franciscos e
duas Claras.
Se existe uma lacuna na série sobre Francisco e Clara é
talvez a insuficiente relevância prestada à oração, e com ela à
dimensão sobrenatural de suas vidas. Uma lacuna provavelmente inevitável quando
a vida dos santos se leva à tela. A oração é silêncio, quietude, solidão,
enquanto que a palavra “cinema” vem do grego kinema, que significa movimento! A
exceção é o filme “O grande silêncio” sobre a vida dos cartuchos, mas não
resistiria na pequena tela.
Tanto mais é de elogiar, na série televisiva, a eleição de
apresentar Francisco e Clara como duas vidas paralelas, que se entrecruzam e se
desenvolvem em sincronia, com igual espaço dado a um e outro. É a primeira vez
que ocorre desta forma. Isso responde à sensibilidade atual orientada a
evidenciar a importância da presença feminina na história, mas em nosso caso
corresponde à realidade e não é algo forçado.
A cena que mais me impactou ao ver a pré-estréia de
“Francisco e Clara” é a inicial, emblemática, uma espécie de chave de leitura
de toda a história. Francisco caminha em um prado, Clara o segue introduzindo
seus pés, quase brincando, nas pegadas que Francisco deixa, e, diante da
pergunta dele: “Estás seguindo minhas pegadas?”, responde luminosa: “Não,
outras muito mais profundas”.
Fonte: www.zenit.org
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