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Quem poderá conhecer os desígnios de Deus?

Esta é a grande questão que se põem homens e mulheres que creem
Por Marcel Domergue*
No evangelho deste domingo, Jesus se volta para os que o seguem, buscando desiludi-los.
Referências bíblicas
1ª leitura: “Quem pode imaginar o desígnio do Senhor?” (Sabedoria 9,13-18)
Salmo: 89(90) - R/ Vós fostes, ó Senhor, um refúgio para nós.
2ª leitura: “Recebe-o, não mais como um escravo, mas como um irmão querido” (Filêmon 9-10.12-17)
Evangelho: “Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14,25-33)

Grandes multidões
O que estariam buscando todas estas pessoas que seguiam o Cristo, no caminho para Jerusalém? Muitos imaginavam que, sendo capaz de realizar tantas curas e prodígios, iria tomar o poder. O episódio dos Ramos vai exatamente neste sentido. Assim como a reflexão dos dois discípulos com quem Jesus foi se encontrar, no caminho de Emaús: «Nós esperávamos que fosse ele quem redimiria Israel».
No evangelho de hoje, Jesus se volta para os que o seguem, buscando desiludi-los. Revela-lhes não estarem indo para «restaurar a Realeza em Israel» (Atos 1,6), mas para perderem tudo o que constitui as nossas vidas neste mundo, tendo em vista uma passagem, uma travessia ainda inimaginável. Um Reino, sim, mas que não é deste mundo!
Podemos nos perguntar o que esperam as multidões de cristãos que constituem a Igreja hoje, sendo que os seus responsáveis, aliás, nem sequer renunciaram ainda ao exercício de um «poder temporal». Isto explica, sem dúvida, porque as «grandes multidões» da atualidade, desiludidas pela evolução da história e constatando que Deus deixa a sua gestão totalmente aos nossos cuidados, renunciam a seguir o Cristo. E ele, no entanto, nos traça um caminho, um caminho único, que nossas histórias individuais e nossa história coletiva reproduzem.
Trata-se de nossa travessia para a Vida invulnerável de Deus. Neste caminho, devemos abandonar, uma a uma, todas as nossas bagagens. Até mesmo o que nos parece mais necessário, nos é tirado. Jesus sabe que está indo para este despojamento sem reservas, para deixar lugar livre e disponível para a vida nova. Segui-lo nos mete medo? É normal: Até mesmo Jesus, no Getsêmani, conheceu este pavor e teve de superá-lo.
O caminho da cruz
A tradução litúrgica nos diz que devemos «preferir» Jesus a tudo mais, inclusive os seres que nos são mais próximos. O texto grego fala em «odiar», o que se explica pelo fato de que as línguas semíticas, subjacentes, não conhecem o comparativo. «Preferir» é um destes, convindo melhor ao sentido das palavras de Cristo.
Com efeito, em Marcos 7,9-13, ouvimos Jesus colocar o amor ao pai e à mãe acima do caráter sagrado de uma oferenda, com a qual poderíamos vir a ajudá-los. Em Marcos 10,3-12 e Mateus 19,3-12, Jesus sublinha o caráter absoluto da união do homem e da mulher, para além das tradições e dos costumes, acima da própria Lei. Mas, então, o que significa esta «preferência» de que fala o nosso texto? Não esqueçamos que Jesus está a caminho para Jerusalém, onde deverá perder tudo, inclusive a sua própria vida.
Quer saibamos ou não, quer aceitemos ou não, estamos todos aí. As pessoas com mais idade me compreenderão bem: ao longo do tempo, vamos perdendo, uma a uma, todas as realidades que fundam a nossa vida: as nossas forças, a nossa saúde, a perfeição das nossas faculdades, o cônjuge, as nossas crianças que vão embora, viver a sua vida. Totalmente desnudados é que chegaremos ao termo que nos privará da nossa «própria vida».
Assim sendo, esta é a questão: vamos pôr toda a nossa confiança em Cristo, para além da relação um tanto idolátrica que mantemos com o que povoa a nossa existência? Superando toda a metáfora, temos de segui-lo até Jerusalém, em sua passagem pela Cruz, para nos encontrarmos com ele em sua Ressurreição. Não fechemos os olhos: é para aí que, de qualquer modo, estamos indo. Busquemos segui-lo com esta alegria que só pode vir da fé.
O que verdadeiramente desejamos?
O evangelho continua, citando o exemplo do homem que quer construir uma torre ou partir para a guerra. Trata-se da qualidade do nosso desejo. Mais exatamente, da qualidade do que desejamos de modo espontâneo. Construir uma nova torre de Babel? Medirmo-nos com quem é mais forte do que nós? Aqui, é a nossa vontade de poder que é posta em questão.
Encontramos assim a lógica das linhas precedentes: o que desejamos de fato? Escolher seguir o Cristo em seu caminho não é fácil. Já compreendemos que não foi por si mesmo que ele escolheu passar por isso. O sofrimento não vem de Deus; Deus não o quer. O que Ele quer é encontrar conosco em tudo o que a vida nos dá a suportar. São os homens que erguem as cruzes. Por pior que seja a situação que tenhamos de sofrer, Deus vem nos habitar, para nos fazer sair daí.
A obra de Deus é a ressurreição desta vida que Ele nos deu e que perdemos. Para a vida é que estamos indo. Eis aí o que temos de escolher, mesmo se no caminho devamos perder todo o resto. O nosso problema é que queremos tudo. E, nestas condições, seguir o Cristo, ser seu discípulo, é impossível, tal como sublinha a última frase do nosso evangelho. No entanto, se temos muita dificuldade em nos reunir ao Cristo em sua travessia do sofrimento dos homens, se não ousamos nem mesmo vislumbrá-la, não nos desesperemos.
Voltemos aos discípulos de Emaús: temos aí estes homens que fogem de Jerusalém, onde tudo se passa. Muitas vezes, somos semelhantes a eles, cheios de ilusões a respeito do que o Cristo veio cumprir. O próprio Cristo, no entanto, veio encontrá-los em seu mau caminho, trazendo-lhes a alegria da verdade.

Sítio Croire
*Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês.
04/09/2016 | domtotal.com
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O Reino de Deus e as árvores

                         Árvores trazem a ideia de segurança, de que algo é inabalável e inatingível. 

                                       Deveríamos aprender com as árvores a beleza da vida.

Fabrício Veliq*
Gosto de pensar em árvores. Elas possuem suas raízes geralmente grandes, seus troncos ora grossos, ora não tão grossos assim e suas folhas verdes nas estações corretas.

Gosto de pensar que toda árvore serve para alguma coisa. Seja para dar sombra, seja para embelezar paisagens, seja para servir de ninhos aos pássaros.
Árvores geralmente são admiradas pelas flores ou frutos que produzem. Sinceramente prefiro observar as flores aos frutos, mas de toda forma, há sempre alguém admirando uma árvore em algum lugar.
Árvores trazem a ideia de segurança, de que algo é inabalável e inatingível, de que podemos repousar sobre ela e ela continuará para sempre a nos proteger do calor do sol, que sempre terá uma beleza para se ver e um fruto para comer dela.
O que gosto de pensar é que árvores assim, que trazem todas essas conotações, são as árvores que possuem as raízes profundas. Raízes que foram se estendendo para além da terra no decorrer do tempo.
Leva-se tempo para que árvores se tornem fortes e inabaláveis nas diversas tempestades e ventanias que se abate sobre elas e, não é sem perdas que essas se tornam fortes.
E assim somos nós também.
Deveríamos aprender com as árvores a beleza da vida, a consciência de que é com raízes profundas que se alcançam alturas inimagináveis e que crescimento interior leva tempo e exige a disposição de penetrar nos solos da alma e sondar-se a cada dia.
Árvores não desejam ser grandes, simplesmente crescem e se desenvolvem, tanto para baixo, quanto para cima.
Na maioria das vezes não percebemos seu crescimento para baixo, somente o crescimento para cima. E acho que isso é uma grande lição para nós.
As pessoas ao nosso redor, dificilmente perceberão o crescimento de nossas raízes, só perceberão o aparecimento de nossas flores e frutos. Mas nós devemos saber como nossas raízes tem crescido e para onde ela tem crescido e isso fará diferença nas flores e frutos que serão vistos.
Devemos estender nossas raízes para os lugares e para as pessoas que nos farão crescer e desenvolver a fim de que possamos dar frutos e flores que alimentem vidas e encante almas ao se aproximarem de nós.
Jesus certa vez comparou o reino de Deus a um grão de mostarda que mesmo sendo a menor das sementes, ao crescer se torna uma grande árvore e dá repouso às aves que fazem nela os seus ninhos. Disso podemos também tirar um grande ensinamento: de que aquilo que, muitas vezes parece imperceptível e que, muitas vezes, consideramos como insignificante, esconde em si um potencial de grande transformação e alento para diversas pessoas.
O reino de Deus, que aos olhos de muitos é visto como mera projeção de um mundo que queremos ou como tentativa de fuga da realidade que vivemos no dia a dia, na fala de Jesus, se mostra somente como devir.
No instante que vemos o grão de mostarda, somente pela fé é que conseguiremos ver a grande árvore que sairá dali. Da mesma forma, é somente pela fé que vemos, nas pequenas sementes do Reino que já se mostra, o Reino vindouro de Deus, onde Ele reinará sobre todas as coisas.
Assim, pensar em árvores e pensar no Reino de Deus nos traz outro grande ensinamento: de que a fé, aliada à esperança, nos faz, apesar de todas as dificuldades e de todas as mazelas que vemos no mundo, lutar contra as injustiças e contra o descaso contra os oprimidos, sofrer com eles em simpatia e empatia por percebermos que não é esse o Reino que há de vir.
Ao fazermos isso, lutando por justiça, por igualdade e contra toda opressão, mostramos os diversos grãos de mostarda que, aos nossos olhos, um dia se transformarão em grande árvore dando alento a todo aquele que a buscar.
* Fabrício Veliq é mestre e doutorando em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG.Atualmente ministra cursos de teologia no curso de Teologia para Leigos do Colégio Santo Antônio, ligado à ordem Franciscana. É protestante e ama falar sobre teologia em suas diversas conversas por aí.
31/08/2016 | domtotal.com


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Experiência de fé

             
A fé consegue fermentar a esperança, e faz com que a pessoa realize a prática da caridade.
Dentro da pedagogia litúrgica da Igreja, no terceiro domingo de agosto, celebra-se a vocação à vida religiosa. Pertencer a uma congregação religiosa não deixa de ser uma experiência de fé, tendo como ícone, a Mãe de Deus, Maria, a primeira a experimentar a fé, servindo a Jesus Cristo. A assunção de Maria reflete as consequências de quem coloca a vida como serviço desinteressado pelo irmão.
“Feliz aquele que teme o Senhor!” (Eclo 34,17). Não só Maria, a Mãe de Jesus, mas muitos vivenciaram a fé em Deus de forma incondicional. Essa prática continua hoje, mesmo que seja com formas das mais diversas possíveis. O importante é a consciência da entrega, da responsabilidade e da doação. Chegamos até a existência dos mártires da época moderna, os que não abrem mão da verdade.
A fé consegue fermentar a esperança, e faz com que a vida da pessoa realize a prática da caridade. O bem feito ao outro sai do nível da filantropia e entra na dimensão sobrenatural. É a caridade feita com fé e com esperança. São três virtudes fundamentais, porque elas elevam o ser humano a uma dignidade capaz de ultrapassar os níveis do tempo e dos condicionamentos finitos.
A grandeza e a objetividade da fé só são realmente perceptivas na generosidade do coração humano. Em outros termos, a fé é dom amoroso de Deus. Ela está presente na sensibilidade da vida, que vem da própria natureza das coisas, ou da possibilidade de divinização da criação humana e da capacidade que a pessoa tem de fazer um encontro pessoal com Jesus Cristo.
As grandes obras de Deus, que manifestam a essência da fé, se realizam na vida das pessoas mais simples. O orgulho e a vaidade sufocam sua simplicidade, porque Deus é simples a ponto de nem ter visibilidade. Aí está o mistério da fé, fazendo com que muitas pessoas não admitam a existência de Deus. Na verdade, não conseguem vê-Lo presente na beleza da criação.
Triunfo e humildade não combinam, a não ser quando nos esvaziamos de toda glória pessoal e colocamos tudo nas mãos de Deus. Fazer isso significa deixar Deus ser grande em nossa vida e experimentar a fé na prática. Realidade impossível de acontecer na arrogância injusta do poder, onde o deus-dinheiro é adorado e tomado como único caminho de felicidade humana.

CNBB 15-08-2016
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A ligação do atual pontificado com a espiritualidade franciscana

Cidade do Vaticano, 14 ago (sirnoticias@hotmail.com) –  Quer a recente visita do Papa Francisco à Porciúncula, como a sua oração silenciosa na cela de São Maximiliano Kolbe em Auschwitz - durante a visita à Polônia por ocasião da JMJ - confirmam ulteriormente a ligação do atual pontificado com a espiritualidade franciscana.
Esta é a impressão manifestada ao L’Osservatore Romano pelo Ministro Geral dos Frades Menores Conventuais, Padre Marco Tasca, que acompanhou Francisco em ambos os eventos.
“Exatamente. Na primeira “Regra” – explicou - o Pobre de Assis escreveu, no Capítulo 16, como os frades devem ir em missão. E introduziu um conceito simples: devem testemunhar que vocês se querem bem. In suma, também aqui, no centro, há a vida. Agora, oito séculos depois, também Francisco insiste nisto: o testemunho da beleza do viver como irmãos, a beleza da comunhão”.
“Eu vejo uma grande conexão entre a espiritualidade franciscana e o método missionário da Evangeliigaudium que o Papa Francisco está levando em frente”, acrescenta o frei Tasca.
“Um segundo aspecto, por outro lado, evoca o Ano Santo da Misericórdia. O Pobre de Assis pediu a Indulgência da Porciúncula, porque tinha um programa: “Quero mandar todos para o Paraíso”. “Parece-me que este seja o mesmo sonho do Papa: que todos possam encontrar o Evangelho de Deus bom e misericordioso, do Deus acolhedor e que vem ao encontro dos homens”.
Em relação à visita à Basílica Santa Maria dos Anjos, em 4 de agosto, “o Papa se fez peregrino entre os peregrinos para rezar na Porciúncula  – explicou o Ministro Geral dos Frades Menores. Esta realidade que há 800 anos concede graças, misericórdia e paz. Um gesto, o seu, de grande significado. Por meio do qual o Papa diz que rezar na Porciúncula é um caminho a ser percorrido para chegar à paz, à reconciliação, à misericórdia”.

SIR
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Igreja tem necessidade de missionários apaixonados, não de burocratas

Cidade do Vaticano, 14 ago (sirnoticias@hotmail.com) – Neste XX Domingo do Tempo Comum o Papa encontrou-se com milhares de fieis de todo o mundo na Praça São Pedro, para a tradicional Oração mariana do Ângelus. Francisco dedicou sua alocução ao fogo do Espírito Santo, inspirado na passagem de Lucas “Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso”.
“O Evangelho deste domingo faz parte dos ensinamentos de Jesus dirigidos aos discípulos durante a sua subida à Jerusalém, onde lhe espera a morte de cruz. Para indicar o objetivo de sua missão, Ele se serve de três imagens: o fogo, o batismo e a divisão. Hoje quero falar da primeira imagem, a do fogo.
Jesus a expressa com estas palavras: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso”. O fogo do qual Jesus fala é o fogo do Espírito Santo, presença viva e atuante em nós desde o dia do Batismo. Ele é uma força criadora que purifica e renova, queima toda humana miséria, todo egoísmo, todo pecado, nos transforma a partir de dentro, nos regenera e nos torna capazes de amar. Jesus deseja que o Espírito Santo irrompa como fogo no nosso coração, porque somente partindo do coração que o incêndio do amor divino poderá propagar-se e fazer progredir o Reino de Deus. Se nos abrirmos completamente à ação do Espírito Santo, Ele nos dará a audácia e o fervor para anunciar a todos Jesus e a sua consoladora mensagem de misericórdia e de salvação, navegando em mar aberto.
No cumprimento de sua missão no mundo, a Igreja tem necessidade de ajuda do Espírito Santo para não deixar-se frear pelo medo e pelo cálculo, para não habituar-se a caminhar dentro de fronteiras seguras. A coragem apostólica que o Espírito Santo acende em nós como um fogo nos ajuda a superar os muros e as barreiras, nos faz criativos e nos impele a colocarmo-nos em movimento para caminhar também por caminhos inexplorados ou desconfortáveis, oferecendo esperança a quantos encontramos. Somos chamados a nos tornar sempre mais comunidade de pessoas guiadas e transformadas pelo Espírito Santo, repletas de compreensão, de coração dilatado e de rosto alegre. Mais do que nunca, existe a necessidade de sacerdotes, de consagrados e de fieis leigos, com o olhar atento do apostolado, para mover-se e parar diante das dificuldades e das pobrezas materiais e espirituais, caracterizando assim o caminho da evangelização e da missão com o ritmo curador da proximidade.
Neste momento, penso com admiração, sobretudo, aos numerosos sacerdotes e religiosos que, em todo o mundo, se dedicam ao anúncio do Evangelho com grande amor e fidelidade, não raro a custo da própria vida. O exemplar testemunho deles nos recorda que a Igreja não tem necessidade de burocratas e de diligentes funcionários, mas de missionários apaixonados, imbuídos pelo ardor de levar a todos a consoladora palavra de Jesus e a sua graça regeneradora.
Peçamos a Virgem Maria para rezar conosco e por nós ao Pai celeste, para que derrame sobre todos os fieis o Espírito Santo, fogo divino que aquece os corações e nos ajude a ser solidários com as alegrias e os sofrimentos dos nossos irmãos. Nos sustente no nosso caminho o exemplo de São Maximiliano Kolbe, mártir da caridade, cuja festa recorre hoje: que ele nos ensine a viver o fogo do amor por Deus e pelo próximo”.

SIR

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Fogo sobre a terra

Por Dom Caetano Ferrari*
Jesus diz no Evangelho da Missa de hoje - Lc 12,49-53 - “Eu vim para lançar fogo sobre a terra e como gostaria que já estivesse aceso!”. É simbólico esse fogo. Mas não significa o fogo do inferno, do castigo. Simboliza o fogo do Espírito Santo, o fogo do amor a Deus e da misericórdia divina pelos feridos do mundo. Mas esse não é tampouco o fogo de uma paixão prazerosa, agradável, idílica. Significa o fogo do sofrimento resultante de uma prova dolorosa. Por esse sofrimento Jesus ficou conhecido como o Homem das dores. O contexto que explica essa fala de Jesus é o da sua viagem rumo à cidade santa, palco da sua paixão e morte. Lá, diz Ele: “Devo receber um batismo e como estou ansioso até que isso se cumpra!”. A ansiedade é um misto de angústia e de pressa para que tudo isso se realize logo, a fim de que seja cumprida a vontade do Pai e realizada a libertação e salvação da humanidade pecadora.
Jesus alerta, porém, que o tempo da salvação não será tempo de paz e tranquilidade. Ele pergunta: “Vós pensais que Eu vim trazer a paz sobre a terra?” E responde: “Pelo contrário, Eu vos digo, vim trazer a divisão”. Ele explicita que a divisão começará na própria família: Os pais contra os filhos, os filhos contra o pai ou a mãe, os filhos entre si, a sogra contra a nora e o genro contra o sogro. Depois perpassará as comunidades e as sociedades, tudo por causa do seu nome e de seu Evangelho. Assim sendo, Jesus se afirma como sinal de contradição no mundo. Aliás, para recordar que desde criança Ele foi visto como sinal de contradição lembremos que o velho Simeão, quando da apresentação de Jesus ao Templo por Maria e José, profetizou, dizendo: “Eis que este menino foi colocado para a queda e para o soerguimento de muitos em Israel, e como um sinal de contradição” (Lc 2,34). Inclusive os discípulos estão postos nesse nosso mundo como sinais de contradição.  Conforme Jesus disse que os discípulos não estão acima do Mestre, que eles também se preparem porque serão incompreendidos por muitos e deverão enfrentar os conflitos da vida cristã. Porquanto, seguir Jesus e seu Evangelho é pôr-se na contramão dos valores do mundo. Assim como diante de Jesus as pessoas e as sociedades se dividem em pró ou contra, elas se dividirão igualmente diante dos cristãos. Não obstante a rejeição e a cruz, importa que os cristãos perseverem até o fim, seguindo firmemente o Senhor. E seguindo-O bem de perto para que as chamas do fogo do Espírito Santo que saem de seu coração incendeiem os seus corações e os sustentem no bom combate pelo reino. 
Hoje é dia dos pais para ser celebrado com festa e com sentimentos de gratidão e carinho para com todos os pais, sem que nos esqueçamos das mães que tiveram o seu dia em maio. O foco de hoje é a paternidade, mas a festa leva-nos a ter presente a maternidade e, por consequência, a família. Na família há o pai e a mãe, as crianças, os jovens, os avós. A vida humana nasce de um homem e uma mulher que se amam e se unem gerando os filhos, criando-os, educando-os e encaminhando-os para que constituam depois a sua própria família. Sobre a base da família humana, conforme o plano do Criador, assim caminha a humanidade, construindo o reino rumo à vida eterna, plena e feliz. Por isso, nós cristãos, defendemos e promovemos a família. Ela é antes de tudo um projeto de Deus, não uma construção humana. Lembremo-nos como Deus criou do nada Adão e Eva e os fez de tal forma estruturados biológica, psicológica e espiritualmente e ordenados vocacionalmente para se tornarem os progenitores da humanidade; deles, portanto, descendem todos os povos. Numa outra oportunidade, Jesus recordou aos fariseus, que para pô-Lo à prova lhe perguntaram se é lícito repudiar a própria mulher, que desde o princípio, segundo o desígnio do Criador, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne: “De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu o homem não deve separar” (Mt 19, 4-6). Com base no ensinamento divino sobre a família, a Igreja elaborou uma sólida doutrina sobre o matrimônio cristão e revestiu a união conjugal com a dignidade de sacramento nupcial, mediante o qual os cônjuges recebem a graça especial que os abençoa e fortalece e os acompanha por toda a vida. É um dos dez mandamentos “Honrar o pai e a mãe”. São João Paulo II, refletindo sobre o sonho da civilização do amor e o dever de construí-la, afirmou que “O futuro da humanidade passa pela família”. Ora, não há nem haverá civilização do amor sem a família humana.    
Nesta data tem início a Semana Nacional da Família, uma promoção da Igreja no Brasil impulsionada pela CNBB. Na nossa Diocese, começa também a Semana Diocesana da Família. O Setor Família da Diocese, movimentando especialmente a Pastoral Familiar, a Pastoral Vocacional, o Setor Juventude, o ECC, as Equipes de Nossa Senhora e demais movimentos em prol da família, engaja-se com nossas Paróquias e Comunidades para apoiar e promover ações, sobretudo de oração, reflexão e serviço de caridade às famílias em geral e em particular às famílias “feridas” carentes de misericórdia. O lema desta Semana Diocesana da Família é: “A misericórdia na família é dom e missão”. A oração de base é: “Restaura nossa casa, Senhor!”. No próximo domingo, haverá pelas ruas da cidade a grande Caminhada da Família, um evento tradicional em Bauru que comemora também o segundo ano do Dia Municipal da Família. Venha com a sua família participar.
Ó Deus, nosso Pai, abençoai os que são pais e as nossas famílias. Concedei a todos nós um coração de filhos para que possamos viver e rezar com fé a oração que Jesus nos ensinou: “Pai nosso...” 

CNBB 11-08-2016
*Dom Caetano Ferrari: Diocese de Bauru.

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800 anos do Perdão de Assis

Por Cardeal Orani João Tempesta*
Iniciamos o mês vocacional – Agosto – com o eco da grande JMJ da misericórdia de Cracóvia e com a comemoração do oitavo centenário do perdão de Assis, a assim chamada indulgência da Porciúncula que contará com a visita do Papa Francisco nesta semana. 
Uma feliz providência: um centenário de concessão da misericórdia no ano do jubileu extraordinário da misericórdia com dois homens que levam o nome de Francisco. Com textos consultados na rede mundial de computadores e de domínio público reflitamos sobre este importante momento.
Francisco nasceu em Assis, na Úmbria (Itália) em 1182. Jovem orgulhoso, vaidoso e rico, que se tornou o mais italiano dos santos e o mais santo dos italianos. Com 24 anos, renunciou a toda riqueza para desposar a “Senhora Pobreza”. Levará consigo para sempre essa missão evangelizadora e entusiasmada de servir a Cristo nos irmãos, em especial nos mais pobres.
Aconteceu que Francisco foi para a guerra como cavaleiro, mas doente ouviu e obedeceu a voz do Patrão que lhe dizia: “Francisco, a quem é melhor servir, ao amo ou ao criado?”. Ele respondeu que ao amo. “Porque, então, transformas o amo em criado?”, replicou a voz. No início de sua conversão viveu como eremita e na solidão, quando recebeu a ordem do Senhor na igrejinha de São Damião: “Vai restaurar minha igreja, que está em ruínas”. Partindo em missão de paz e bem, seguiu com perfeita alegria o Cristo pobre, casto e obediente. 
Nessa época campo de Assis havia também uma antiga ermida abandonada dedicada a de Nossa Senhora no local chamado Porciúncula (de pequena porção). Este foi um dos lugares prediletos de Francisco e dos seus companheiros. Sim, companheiros, pois na Primavera do ano de 1200 já não estava só; tinham-se unido a ele alguns jovens que pediam também esmola, trabalhavam no campo, pregavam, visitavam e consolavam os doentes. A partir daí, Francisco dedica-se a viagens missionárias: Roma, Chipre, Egito, Síria… Peregrinando até aos Lugares Santos dentro da expansão da Ordem. O trabalho na terra santa dos freis franciscanos até hoje é um belo sinal de dedicação às terras e locais por onde Jesus passou. 
Em 1223, foi a Roma e obteve a aprovação mais solene da Regra, como ato culminante da sua vida. Na última etapa de sua vida, recebeu no Monte Alverne os estigmas de Cristo, em 1224. Já enfraquecido por tanta penitência e cego por chorar pelo “amor que não é amado”, São Francisco de Assis, na igreja de São Damião, encontra-se rodeado pelos seus filhos espirituais e assim, recita ao mundo o cântico das criaturas. São Francisco de Assis, retira-se então para a Porciúncula, onde morre deitado nas humildes cinzas a 3 de outubro de 1226. Passados dois anos incompletos, a 16 de julho de 1228, o Pobrezinho de Assis era canonizado por Gregório IX.
A hodierna e majestosa Basílica de Santa Maria dos Anjos abriga no seu interior a pequena Capela da Porciúncula, local onde Francisco confirmou a sua vocação numa noite do ano 1216. O nome de Santa Maria dos Anjos provém da tradição de que, naquela pequena Capela, que foi construída por quatro peregrinos que retornavam da Terra Santa, era venerado um fragmento do túmulo da Virgem Maria, e que sempre se ouvia no local o canto dos anjos. Foi também nesta pequena Capela, que recebeu o nome de Porciúncula, isto é, pequena porção, que São Francisco recebeu a indulgência do “Perdão de Assis”. Conta-se a história desse momento místico da vida de São Francisco: estava certa noite em sua cela, rezando pela conversão dos pecadores, quando um anjo convidou a dirigir-se à Capela da Porciúncula. Lá chegando, encontrou-a toda iluminada e no meio de um coro de anjos estava a Virgem Maria ao lado de seu Divino Jesus.
Jesus, dirigindo-se a Francisco, disse-lhe: “Em recompensa ao teu zelo pela conversão dos pecadores, pede-me o que quiseres”. Francisco pediu-lhe então a indulgência Plenária para todos aqueles que tendo confessado e comungado, visitassem aquela pequena igrejinha. São Francisco, meio que assustado com seu atrevimento, suplicou a intercessão da Virgem Maria. O pedido teria que ser aprovado pelo Papa, Francisco com a face no chão. Adorou o seu Senhor. No dia seguinte, Francisco foi ao encontro do Santo Padre; este, porém, lhe concedeu a graça apenas um dia no ano, ou seja a cada 02 de Agosto. Nesta data, denominada “Perdão de Assis”, é enorme a afluência de fiéis à Basílica da Porciúncula e a Igreja celebra a Festa de Nossa Senhora dos Anjos.
Esta festa é uma das mais importantes, ainda hoje, da família franciscana, pois foi estendida, mais tarde, pelo Papa Sisto IV, a todas as igrejas do orbe.  Então, somos todos beneficiados pelo “Perdão de Assis” ou “Dia do Perdão”, para tanto, devemos fazer uma boa confissão, participar da Eucaristia, e, entrando na igreja franciscana, rezar pelo Santo Padre, o Papa. Louvemos ao Senhor que fez nascer São Francisco, que revolucionou, com sua ordem, a Igreja, sem precisar abandoná-la ou fundar outra. No mês das vocações, vamos lembrar o despojamento, a coragem, a simplicidade, o amor e a pobreza do Santo de Assis.
Encerramos este artigo rezando a oração de Nossa Senhora dos Anjos: “Augusta Rinha dos céus e soberana Senhora dos Anjos, Que recebeste de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça de Satanás, Nós vos pedimos humildemente: Enviai as legiões celestes para que, sob Vossas ordens persigam os demônios; Combatam-nos em toda a parte, reprimam a sua audácia e os precipitem no abismo. Quem é como Deus? Santos, anjos e arcanjos protegei-nos, defendei-nos! Ó boa e terna Mãe, vós sereis sempre O nosso amor e a nossa esperança! Ó divina mãe, enviai os vossos anjos, Para que nos defendam e afastem de nós O cruel inimigo! Assim seja!” (Papa Leão XIII).

CNBB 02-08-2016.
*Cardeal Orani João Tempesta: Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ).
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Jesus abriu a inteligência dos discípulos

O Evangelho de Lucas nos ajuda a perceber a importância do gesto de abrir o Livro
Por Felipe Magalhães Francisco*
Para as tradições judaica e cristã, o gesto de abrir o Livro das Sagradas Escrituras é carregado de simbolismo. Remete-nos à própria Revelação de Deus. Tanto as liturgias judaicas quanto as cristãs insistem nesse gesto. Para a compreensão cristã, essa Revelação é percebida de uma maneira mais profunda, pois relaciona a Palavra de Deus ao próprio Filho, encarnado em meio à humanidade. Se Deus se revela, é porque quer que nos apropriemos, existencialmente, dessa Revelação, a fim de que estreitemos nossa relação com ele. Afinal, a sabedoria popular insiste na ideia de que só amamos aquilo que conhecemos.
O Evangelho de Lucas nos ajuda a perceber a importância do gesto de abrir o Livro. Na narrativa lucana, o início da missão de Jesus se dá numa sinagoga de Nazaré, na Galileia. Entregam-lhe o Livro; ele abre e proclama o texto de Isaías; depois, fecha o Livro e faz a hermenêutica (cf. Lc 4,14-21). Jesus assume o conteúdo do texto de Isaías como programa de seu ministério: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu, para anunciar a Boa-Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano aceito da parte do Senhor” (vv. 18-19). Esses sinais do Reino são possíveis porque, em Jesus, o hoje do cumprimento se realiza (cf. v. 21).
Os discípulos e discípulas de Jesus precisaram estar sempre muito atentos a essa dinâmica do hoje salvífico. E foi só depois da Ressurreição que a compreensão desses discípulos e discípulas se deu de maneira profunda. A maturidade da fé se alcança com a experiência da Ressurreição de Jesus que diz respeito a todos os seus seguidores e seguidoras. É justamente por isso que, depois de ressuscitado, Jesus precisa explicar as Escrituras a seus discípulos e discípulas (cf. Lc 24,27.45),abrindo-lhes a inteligência. Nós, dois mil anos depois, continuamos não estando prontos: é preciso continuar na escola do discipulado, aprendendo com o Mestre Jesus, a nos sensibilizarmos com sua mensagem e com o Reino do Pai.
O que acontece, no entanto, é que estamos perdendo a capacidade de nos abrirmos a um processo de educação, com o qual aprendemos com o próprio Jesus. Vivemos em um tempo de absolutos e isso nos impede de perceber que a maturação da fé se dá num processo de aprofundamento da experiência com o Deus de Jesus e com os irmãos e irmãs. Nesse tempo de absolutos, percebemos a volta de uma atitude apologética, com nova roupagem, por parte dos cristãos e cristãs: a defesa da fé, a todo custo, como imposição de uma verdade sequer elaborada pelos defensores. Na era da internet, então, o diálogo não encontra lugar. Toma-se partido, defende-se sua verdade, apenas a partir dos títulos das publicações: não se leem os textos, para saber o que o outro tem a dizer. A condenação ao inferno é sumária.
É preciso, urgentemente, romper com essa dinâmica. Se não voltarmos às práticas de Jesus, na consciência de que a fé precisa ser educada, num processo contínuo e de constante volta ao Evangelho, as religiões cristãs tendem a ficar sempre no lugar da defesa, fechadas em si mesmas. A postura rígida da permanente defesa da fé, por parte tanto dos clérigos quanto dos fiéis, é sintomática, pois revela uma fé infantilizada, pautada no medo de qualquer possibilidade de levantar questões que abalem as estruturas dogmáticas. É próprio da fé o questionar-se. Uma fé que não encontra crises, não encontra sentido para o concreto da vida, em atenção aos sinais dos tempos e a atuação de Deus na história. Jesus bem sabia disso e, na liberdade, fazia constante opção de fé em seu Pai. Crescendo na fé, pois crescia em estatura, sabedoria e graça (cf. Lc 2,52), Jesus pôde sempre ajudar aos seus discípulos e discípulas, a amadurecerem na inteligência da fé. Nós, hoje, devemos sempre nos lembrar disso, voltando a Jesus, para que nossa inteligência se abra e nossa verdadeira missão, de anunciar um Reino de vida, liberdade e justiça, aconteça.
*Felipe Magalhães Francisco é mestre em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Coordena a Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Coordena, ainda, a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). Escreve às segundas-feiras.
18/07/2016 | domtotal.com
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