'Desde cedo, eu vos busco'

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O desejo é a força da espiritualidade. É a sede de Deus, e não das coisas.
Por Luiz Carlos de Oliveira
Rezamos o salmo no qual o fiel derrama seu coração mostrando sua sede de Deus. Integrado com a natureza, usa a imagem do animal sedento que se enlouquece pela busca d’água: “Como a corsa suspira pelas águas correntes, suspira igualmente minh’alma por vós, ó meu Deus. Minha alma tem sede de Deus e deseja o Deus vivo” (Sl 41,2-3).

Este salmo reflete o sofrimento de um sacerdote do templo que fora afastado para um lugar distante. Arde-lhe o desejo de estar diante de Deus no templo. A sede de Deus é a saciedade da alma sedenta. Quanto mais recebe essa água, mais sede terá para ter mais desejo ainda. É impossível crescer em Deus se não se vive deste desejo.

É por isso que as coisas criadas não saciam e não satisfazem. Essa sede de Deus e desejo de tê-Lo, cria em nós sempre maior vazio para ser mais preenchido e saciado. O povo no deserto, conforme lemos no livro do Êxodo 17,3-7, estava sem água e murmurava contra Deus.

Moisés bate no rochedo com o mesmo bastão com que abrira o mar. Dali jorra água.. S. Paulo comenta que a rocha é Cristo de onde sai a água viva (1Cor 10,4). A sede de Deus que temos é a mesma que Cristo tem de nos dar a água viva, como lemos no diálogo com a samaritana. Ali está Ele, sentado à beira do poço.

Vem a samaritana buscar água. É Jesus que lhe pede água: “Dá-me de beber!” A mulher diz: “Se conhecesses o dom de Deus e quem te diz: ‘dá-me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva...” Ela diz: “Senhor dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir mais aqui para tirá-la” (Jo 4,1-42). A sede que temos de Deus origina-se na incomensurável sede de amor que Ele tem por nós.

Saciai-nos de manhã

Jesus, depois de dar a fé à samaritana, sente-se saciado e repousado, tanto que dispensa a comida que os discípulos lhe trazem. Quando estamos saciados por Deus as demais buscas perdem seu domínio sobre nós.

É justamente o que diz Jesus ao Satanás na tentação que sofreu no deserto: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4).. É o que vemos nos santos e nas pessoas desapegadas de tudo e até de si mesmas. Precisam de tão pouca coisa.

Mesmo na espiritualidade podemos estar saciados com bens espirituais que não sustentam. Vemos nos antigos monges que lhes bastava repetir o nome de Jesus, ou Senhor, tende piedade! O esvaziamento dá veemência à sede de Deus.

O esvaziamento leva a abrir-se para dar mais espaço: S. Agostinho diz: Se queres, por exemplo, encher um recipiente e sabes ser muito o que tens a derramar, alargas a abertura. Se o alargares ficará com maior capacidade para receber. Deste mesmo modo Deus, com o adiar, amplia o desejo. Por desejar, alarga-se o espírito.

Direito de filho

Nesse tempo de Quaresma temos a oportunidade maior de nos dedicarmos a buscar a Deus dando espaço a sempre maior desejo.

É preciso dar-se tempo de ficar com o Pai. Não tenhamos medo de esvaziar nosso interior do desnecessário para que tenhamos o único e que permanece.


É o direito de filho, gastar tempo com o Pai que tem tempo para os filhos. S. Agostinho continua: “É esta a nossa vida: exercitemo-nos pelo desejo. O santo desejo nos exercita, na medida em que cortamos nosso desejo do amor do mundo.

Dilatemo-nos para Ele, e Ele, quando vier, encher-nos-á. Seremos semelhantes a Ele; porque O veremos como é”.   
A12, 09-04-2014.
*Luiz Carlos de Oliveira é padre.

0 comentários:

Postar um comentário

 
São Francisco da Penitência OFS Cabo Frio | by TNB ©2010