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Acreditar por experiência própria

Crer no Ressuscitado pode demorar anos. O importante é a nossa atitude interior.

Por José Antonio Pagola*
Não é fácil acreditar em Jesus ressuscitado. Em última instância é algo que só pode ser captado e compreendido desde a fé que o mesmo Jesus desperta em nós. Se não experimentamos nunca “por dentro” a paz e a alegria que Jesus infunde, é difícil que encontremos “por fora” provas da Sua ressurreição.
Algo assim nos diz Lucas ao descrever o encontro de Jesus ressuscitado com o grupo de discípulos. Entre eles há de tudo. Dois discípulos contam como O reconheceram ao jantar com Ele em Emaús. Pedro diz que lhe apareceu. A maioria ainda não teve nenhuma experiência. Não sabem o que pensar.
Então ”Jesus apresenta-se no meio deles e diz-lhes: ‘Paz convosco´’”. O primeiro para despertar a nossa fé em Jesus ressuscitado é poder intuir, também hoje, a Sua presença no meio de nós, e fazer circular nos nossos grupos, comunidades e paróquias a paz, a alegria e a segurança que dá o fato de sabê-Lo vivo, acompanhando-nos de perto nestes tempos nada fáceis para a fé.
O relato de Lucas é muito realista. A presença de Jesus não transforma de forma mágica os discípulos. Alguns se assustam e ”acreditam que estão vendo um fantasma”. No interior de outros “surgem dúvidas” de todo o tipo. Há quem ”não acredite, tal a alegria”. Outros continuam ”atônitos”.
Assim sucede também hoje. A fé em Cristo ressuscitado não nasce de forma automática e segura em nós. Vai-se despertando no nosso coração de forma frágil e humilde. Ao início, é quase só um desejo.
Habitualmente, cresce rodeada de dúvidas e interrogações: Será possível que seja verdade algo tão grande?
Segundo o relato, Jesus fica, come entre eles, e dedica-se a ”abrir-lhes o entendimento” para que possam compreender o que sucedeu. Quer que se convertam em ”testemunhas”, que podem falar desde a sua experiência, e predicar não de qualquer maneira, mas ”em Seu nome”.
Acreditar no Ressuscitado não é uma questão de um dia. É um processo que, às vezes, pode durar anos. O importante é a nossa atitude interior. Confiar sempre em Jesus. Disponibilizar-Lhe muito mais espaço em cada um de nós e nas nossas comunidades cristãs.
Instituto Humanitas Unisinos, 17-04-2015.

*José Antonio Pagola é teólogo. O texto é baseado na leitura do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 24, 35-48 que corresponde ao Terceiro Domingo da Páscao, Ciclo B, do Ano Litúrgico.
19/04/2015  |  domtotal.com
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'Nós cremos sem ter visto'

Novo Hamburgo, RS, 09 abr (SIR) - No próximo domingo, a Igreja celebrará o domingo da Divina Misericórdia, e é sobre este tema que Dom Zeno Hastenteufel, Bispo da Diocese gaúcha de Novo Hamburgo, reflete em seu artigo semanal. O Prelado explica que o domingo depois da páscoa era sempre conhecido como o "Domingo in albis", ou o domingo branco, já que neste dia os batizados da noite de páscoa, abandonavam a veste branca, que estavam usando desde a grande noite do batismo.
Ele recorda que em sua infância este era o domingo das primeiras comunhões e que com as roupas brancas das meninas, dos anjinhos e de tantos enfeites, parecia então explicado o motivo de se falar em "Weissen Sonntag". Mas, segundo o Bispo, desde o fim do século passado, a partir das revelações feitas da Irmã Faustina Kowalska, o nosso sempre lembrado Papa, São João Paulo II, começou a falar em "Domingo da Divina Misericórdia", no segundo domingo da páscoa, quando lemos o evangelho da grande manifestação do Ressuscitado ao apóstolo Tomé.
Outro ponto lembrado por Dom Zeno é que o mesmo Papa João Paulo II, no ano de 2005, veio a falecer exatamente no dia 2 de abril, sábado depois da páscoa, véspera do "Domingo da Divina Misericórdia", sendo então o primeiro dia do grande velório daquele que foi testemunha da divina misericórdia, até o último instante de sua vida.
"Aliás, o que vamos dizer da cena do evangelho. O Cristo ressuscitado agora se encontra com o Tomé, conhecido como incrédulo, apresentado como aquele que queria fazer a experiência de vê-lo, tocá-lo e sentir esta presença real. No momento de ser chamado pelo mestre, ele não tem mais dúvidas e fez aquela magnífica oração: 'Meu Senhor e meu Deus'", salienta.
Para o Prelado, está é a hora da misericórdia, e o Senhor ressuscitado, em vez de repreendê-lo pelo vexame da descrença, imediatamente o levanta e lhe dá o perdão, com palavras verdadeiramente confortadoras: "Acreditaste porque tu me viste; felizes os que creem sem terem visto".
"Esta é a palavra que se destina a todos nós. Nós cremos sem ter visto. Nós cremos, confiando na palavra e no testemunho de outros. Nós cremos porque acreditamos em todas estas experiências de Deus acontecidas, no tempo dos apóstolos, vividos nos vinte séculos de história da Igreja, mas também nós cremos, porque hoje ainda podemos fazer a experiência de Deus", completa.
Ainda de acordo com o Bispo, podemos ainda hoje nos encontrar com o Cristo vivo e ressuscitado, na Eucaristia, nos sacrários de nossas igrejas. Dom Zeno enfatiza que ele está aí, com a mesma misericórdia, encontrada por Tomé, experimentada por Paulo e vivenciada ao longo dos séculos, por milhares e milhões de autênticos filhos de Deus, testemunhas do ressuscitado e pessoas que muitas vezes deram testemunho de sua fé.
Por fim, o Prelado afirma também que a primeira leitura já nos apresenta a comunidade dos primeiros cristãos, com suas características e com todo o seu entusiasmo. "Por isso, a nossa diocese faz neste domingo o retiro dos Animadores Vocacionais, do Movimento Serra e de todas as equipes vocacionais da diocese. Queremos que eles se alimentem dos Atos dos Apóstolos", conclui.
SIR

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[ÌNTEGRA] Mensagem Urbi et Orbi do Papa Francisco

VATICANO, 05 Abr. 15 / 04:25 pm (ACI/EWTN Noticias).- O Papa Francisco presidiu esta manhã a Missa da Páscoa de Ressurreição  na Praça de São Pedro. O Pontífice não pronunciou homilia posto que depois leria sua Mensagem Pascal junto à tradicional bênção Urbi et Orbi (à cidade e ao mundo). Abaixo ACI Digital traz a íntegra da Mensagem do Santo Padre:
Queridos irmãos e irmãs,
Jesus Cristo ressuscitou!
 
O amor venceu o ódio, a vida venceu a morte, a luz afugentou as trevas! Por nosso amor, Jesus Cristo despojou-Se da sua glória divina; esvaziou-Se a Si próprio, assumiu a forma de servo e humilhou-Se até à morte, e morte de cruz. Por isso, Deus O exaltou e fê-Lo Senhor do universo. Jesus é Senhor!
 
Com a sua morte e ressurreição, Jesus indica a todos o caminho da vida e da felicidade: este caminho é a humildade, que inclui a humilhação. Esta é a estrada que leva à glória. Somente quem se humilha pode caminhar para as «coisas do alto», para Deus (cf. Col 3, 1-4). O orgulhoso olha «de cima para baixo», o humilde olha «de baixo para cima».
 
Na manhã de Páscoa, informados pelas mulheres, Pedro e João correram até ao sepulcro e encontraram-no aberto e vazio. Então aproximaram-se e «inclinaram-se» para entrar no sepulcro. Para entrar no mistério, é preciso «inclinar-se», abaixar-se. Somente quem se abaixa compreende a glorificação de Jesus e pode segui-Lo na sua estrada.
 
A proposta do mundo é impor-se a todo o custo, competir, fazer-se valer… Mas os cristãos, pela graça de Cristo morto e ressuscitado, são os rebentos duma outra humanidade, em que se procura viver ao serviço uns dos outros, ser não arrogantes mas disponíveis e respeitadores.
 
Isto não é fraqueza, mas verdadeira força! Quem traz dentro de si a força de Deus, o seu amor e a sua justiça, não precisa de usar violência, mas fala e age com a força da verdade, da beleza e do amor.
 
Do Senhor ressuscitado imploramos a graça de não cedermos ao orgulho que alimenta a violência e as guerras, mas termos a coragem humilde do perdão e da paz. A Jesus vitorioso pedimos que alivie os sofrimentos de tantos irmãos nossos perseguidos por causa do seu nome, bem como de todos aqueles que sofrem injustamente as consequências dos conflitos e das violências em curso.
Pedimos paz, antes de tudo, para a Síria e o Iraque, para que cesse o fragor das armas e se restabeleça a boa convivência entre os diferentes grupos que compõem estes amados países. Que a comunidade internacional não permaneça inerte perante a imensa tragédia humanitária no interior destes países e o drama dos numerosos refugiados.
 
Imploramos paz para todos os habitantes da Terra Santa. Possa crescer entre israelitas e palestinenses a cultura do encontro e se retome o processo de paz a fim de pôr termo a tantos anos de sofrimentos e divisões.
 
Suplicamos paz para a Líbia a fim de que cesse o absurdo derramamento de sangue em curso e toda a bárbara violência, e aqueles que têm a peito o destino do país se esforcem por favorecer a reconciliação e construir uma sociedade fraterna que respeite a dignidade da pessoa. E almejamos que, também no Iémen, prevaleça uma vontade comum de pacificação a bem de toda a população.
 
Ao mesmo tempo, confiamos esperançosos ao Senhor misericordioso o acordo alcançado nestes dias em Lausanne, a fim de que seja um passo definitivo para um mundo mais seguro e fraterno.
 
Do Senhor Ressuscitado imploramos o dom da paz para a Nigéria, o Sudão do Sul e as várias regiões do Sudão e da República Democrática do Congo. De todas as pessoas de boa vontade se eleve incessante oração por aqueles que perderam a vida – penso de modo particular aos jovens mortos na quinta-feira passada numa Universidade de Garissa, no Quênia -, por quantos foram raptados, por quem teve de abandonar a própria casa e os seus entes queridos.
 
A Ressurreição do Senhor leve luz à amada Ucrânia, sobretudo àqueles que sofreram as violências do conflito nos últimos meses. Possa o país reencontrar paz e esperança, graças ao empenho de todos as partes interessadas.
 
Paz e liberdade, pedimos para tantos homens e mulheres, sujeitos a formas novas e antigas de escravidão por parte de indivíduos e organizações criminosas. Paz e liberdade para as vítimas dos traficantes de droga, muitas vezes aliados com os poderes que deveriam defender a paz e a harmonia na família humana. E paz pedimos para este mundo sujeito aos traficantes de armas.
 
Aos marginalizados, aos encarcerados, aos pobres e aos migrantes que tantas vezes são rejeitados, maltratados e descartados; aos doentes e atribulados; às crianças, especialmente as vítimas de violência; a quantos estão hoje de luto; a todos os homens e mulheres de boa vontade chegue a voz consoladora do Senhor Jesus: «A paz esteja convosco!» (Lc 24, 36). «Não temais! Ressuscitei e estou convosco para sempre!» (cf. Missal Romano, Antífona de Entrada no dia de Páscoa).
 
Na saudação aos fiéis Francisco disse:
 
Queridos irmãos e irmãs, 
dirijo minhas felicitações de Feliz Páscoa a todos vocês presentes nesta praça provenientes de vários países, como também a todos aqueles que nos acompanham através dos meios de comunicação. Levem para suas casas e às pessoas que encontrarem o alegre anúncio de que o Senhor da vida ressuscitou, trazendo consigo amor, justiça, respeito e perdão! Obrigado pela sua presença, por sua oração e pelo entusiasmo de sua fé. Obrigado pelas flores que também este ano vieram da Holanda. Feliz Páscoa a todos! 
acidigital
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[Íntegra] Homilia do Papa na Vigília Pascal: Não se pode viver a Páscoa sem entrar no mistério

A HAIA, 04 Abr. 15 / 07:00 pm (ACI).- Refletindo sobre a atitude das discípulas do Senhor, que por serem as primeiras a buscá-lo após sua morte se tornam as primeiras testemunhas da Ressurreição, o Papa na Vigília Pascal convidou os cristãos a entrar sem medo no mistério do amor de Deus que se faz concreto na vitória de Jesus sobre a morte e o pecado na manhã da Ressurreição. Abaixo apresentamos na Íntegra a homilia do Santo Padre:
Esta é uma noite de vigília.
Não dorme o Senhor, vigia o Guardião do seu povo (cf. Sl 121/120, 4) para fazê-lo sair da escravidão e abrir-lhe a estrada da liberdade.
O Senhor vigia e, com a força do seu amor, faz passar o povo através do Mar Vermelho; e faz passar Jesus através do abismo da morte e da mansão dos mortos.
Foi uma noite de vigília para os discípulos e as discípulas de Jesus. Noite de desolação e de medo. Os homens permaneceram fechados no Cenáculo. As mulheres, ao contrário, ao alvorecer do dia depois do sábado foram ao sepulcro para ungir o corpo de Jesus. Tinham o coração cheio de angústia e perguntavam-se: «Como faremos para entrar? Quem nos fará rolar a pedra do sepulcro?».
Mas eis o primeiro sinal do Evento: a grande pedra já fora removida e o túmulo estava aberto! «Entrando no sepulcro, viram um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca»(Mc 16, 5). As mulheres foram as primeiras a ver este grande sinal: o túmulo vazio; e foram as primeiras a entrar nele. 
«Entrando no sepulcro». Faz-nos bem, nesta noite de vigília, deter-nos a reflectir sobre a experiência das discípulas de Jesus, que nos interpela a nós também. Realmente é para isto que estamos aqui: para entrar, entrar no Mistério que Deus realizou com a sua vigília de amor. Não se pode viver a Páscoa, sem entrar no mistério. Não é um facto intelectual, não é só conhecer, ler... É mais, é muito mais! 
«Entrar no mistério» significa capacidade de estupefacção, de contemplação; capacidade de escutar o silêncio e ouvir o sussurro de um fio de silêncio sonoro em que Deus nos fala (cf. 1 Re 19, 12).
Entrar no mistério requer de nós que não tenhamos medo da realidade: não nos fechemos em nós mesmos, não fujamos perante aquilo que não entendemos, não fechemos os olhos diante dos problemas, não os neguemos, não eliminemos as questões...
Entrar no mistério significa ir além da comodidade das próprias seguranças, além da preguiça e da indiferença que nos paralisam, e pôr-se à procura da verdade, da beleza e do amor, buscar um sentido não óbvio, uma resposta não banal para as questões que põem em crise a nossa fé, a nossa lealdade e nossa razão.
Para entrar no mistério, é preciso humildade, a humildade de rebaixar-se, de descer do pedestal do meu eu tão orgulhoso, da nossa presunção; a humildade de se reajustar, reconhecendo o que realmente somos: criaturas, com valores e defeitos, pecadores necessitados de perdão. Para entrar no mistério, é preciso este abaixamento que é impotência, esvaziamento das próprias idolatrias, adoração. Sem adorar, não se pode entrar no mistério.
Tudo isto nos ensinam as mulheres discípulas de Jesus. Elas estiveram de vigia naquela noite, juntamente com a Mãe. E Ela, a Virgem Mãe, ajudou-as a não perderem a fé nem a esperança. Deste modo, não ficaram prisioneiras do medo e da angústia, mas às primeiras luzes da aurora saíram, levando na mão os seus perfumes e com o coração perfumado de amor. Saíram e encontraram o sepulcro aberto. E entraram. Vigiaram, saíram e entraram no Mistério. Aprendamos com elas a vigiar com Deus e com Maria, nossa Mãe, para entrar no Mistério que nos faz passar da morte à vida.
acidigital
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A Páscoa de todos os homens

Por Dom Gil Antônio Moreira*
Acabamos de celebrar, na Semana Santa, os sublimes mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Abre-se agora tempo novo das alegrias pascais.
Celebrar não significa somente recordar, rememorar, mas sim vivenciar profundamente, pois, na verdade, o mistério da Páscoa acontece a cada vez que nos reunimos no memorial de Jesus que deu sua vida por nós, envolvendo-nos em sua Salvação, através da santa liturgia.
Celebrar bem este tempo é ser capaz de unir-se misticamente a Cristo em todos os seus passos a fim de, com ele, morrermos para os nossos pecados e, com ele, ressurgirmos para uma vida nova. Santo André de Creta, no século 8º, conclamava a sua comunidade, ao iniciar este tempo santo, com os seguintes termos: Vinde, subamos juntos ao monte das oliveiras e corramos ao encontro de Cristo que hoje volta de Betânia e se encaminha voluntariamente para aquela venerável e santa paixão, a fim de realizar o mistério de nossa Salvação”.
São Gregório Nazianzeno, bispo de século 4º, ensinava aos seus fiéis a forma mais prática de participar destes santos mistérios, dizendo: Imolemo-nos a Deus, ou melhor, ofereçamo-nos a Ele cada dia, com todas as nossas ações. Façamos o que nos sugerem as palavras: imitemos com nossos sofrimentos a Paixão de Cristo, honremos com nosso sangue o seu sangue, e subamos corajosamente à sua cruz.
Na busca de fazer o povo entender bem o que significa isto e na esperança de que os mistérios não sejam somente recordados como algo do passado, São Gregório, continua a exortar: Se és Simão Cirineu, toma a cruz e segue a Cristo. Se, qual o ladrão, estás crucificado com Cristo, como homem íntegro, reconhece a Deus...Preso à tua cruz, aprende a tirar proveito até da tua própria iniqüidade...entra com Jesus no Paraíso. Prossegue o santo bispo a indicar as pessoas de José de Arimatéia, de Nicodemos, de Maria e de outras figuras bíblicas como protótipos de união com Cristo, para que vivenciemos fortemente os santos mistérios desta Semana.
Esta união entre nós e Cristo, na verdade foi iniciativa do próprio Cristo, pois ele se colocou em nosso lugar para morrer por nós, pois não merecia morrer, uma vez que era inocente, homem e Deus verdadeiro. Sobre isto nos ensina São Pedro em sua Primeira Carta, capítulo 2: Sobre a cruz, carregou os nossos pecados em seu próprio corpo, a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça.
São Basílio Magno, em seu livro sobre o Espírito Santo, nos recorda: A vinda de Cristo na carne, os exemplos de sua vida apresentados pelo evangelho, a paixão, a cruz, o sepultamento e a ressurreição não tiveram outro fim senão salvar o homem, para que imitando a Cristo, ele recuperasse a primitiva adoção filial.
São Militão de Sardes, na sua homilia de Páscoa, no século 2º, dizia: Foi ele que tomou sobre si os sofrimentos de muitos: foi morto em Abel; amarrado de pés e mãos em Isaac;exilado de sua terra em Jacó; vendido em José; exposto em Moisés; sacrificado no cordeiro pascal; perseguido em Davi e ultrajado nos profetas.
Na Semana Maior, a liturgia nos auxilia a estarmos intimamente unidos a Cristo. No Domingo de Ramos nos faz entrar novamente em Jerusalém com ramos de oliveira e reconhecemos, mais que povo de sua época, a realeza de Cristo e cantamos Bendito seja em nome do Senhor o que vem, o rei de Israel! Hosana nas alturas!  Na segunda, terça e quarta-feiras santas caminhamos com o Senhor, passo a passo, nos momentos dolorosos de sua prisão, julgamento e condenação à morte.
Na quinta-feira santa, dia de altíssima significação, quando iniciamos o Tríduo Pascal, entramos com Cristo no cenáculo, para deixar que ele nos dê novamente a lição do serviço, como nos lembrou a Campanha da Fraternidade deste ano: “Eu vim para servir”. Tal lição se expressa plasticamente no lava-pés, depois do qual, com ele ceamos e dele recebemos o grande dom da Eucaristia, seu corpo e sangue que se tornam nosso místico alimento. Maravilhados o contemplemos na instituição do Sacerdócio, fruto de seu imenso amor para com a Igreja, forma de estar e de agir visivelmente entre nós.
Na sexta-feira, subimos com ele o calvário levando as nossas dores e as angústias de todos os sofredores, para experimentarmos, com Jesus, a morte de nossos pecados e de nossas misérias. No silêncio respeitoso, no jejum celebremos sua morte redentora, no sacrifico pascal.
No sábado santo, descemos com ele à mansão dos mortos, para termos condição de, com ele ressuscitarmos para uma vida nova. Guardando ainda o silêncio e recolhimento, deixamo-nos invadir pela expectativa da vitória e celebramos, à noite, a vigília pascal, mãe de todas as vigílias.
Domingo, o “Dia que o Senhor fez para nós”, celebramos, exultantes, a festa da Salvação conquistada por Cristo para todos nós, a Páscoa salvadora da ressurreição.   
Cristo ontem, Cristo hoje, Cristo sempre!
Feliz e Santa Páscoa, meu caro leitor, a festa da vida!
*Dom Gil Antônio Moreira é arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora.
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Encontrando o sepulcro vazio

Por Dom Paulo Mendes Peixoto*
A Festa da Páscoa, a mais importante no cenário cristão, é consequência de uma longa história de preparação e de fatos marcantes acontecidos na vida de Jesus Cristo. A expressão maior se deu na cruz. Ao morrer, Jesus é depositado num sepulcro vazio, cedido por um homem rico da região, chamado José de Arimateia. No dia seguinte, foram ao lugar e encontraram a pedra do sepulcro removida e o corpo do Senhor não estava ali.
Aí começa um novo cenário. Os guardas disseram que o corpo tinha sido roubado. A finalidade era de desviar a atenção dos discípulos, porque eles mesmos não sabiam o que tinha acontecido, porque o sepulcro estava vazio. Mas tudo se esclarece com a comprovação das diversas aparições de Jesus, agora ressuscitado, para as primeiras comunidades que tinham convivido com Ele.
A grandeza de Jesus Cristo chega ao nível de sua identificação com o ser humano, inclusive passando pela sepultura, experimentando o maior grau de rebaixamento da criatura humana. Nisso está a força da vida, o total esvaziamento de si mesmo, possibilitando o ingresso na vida eterna, que passa pelo caminho da morte. Em Cristo está a força total de libertação.
A passagem de Jesus pelo sepulcro representou, para os discípulos, um forte momento de frustração, de promessa não realizada e de aliança não cumprida. O projeto de libertação que o povo esperava caiu em decadência. Acontece que Deus não falha e acompanha a trajetória das pessoas e das comunidades. Jesus tinha ressuscitado.
Com isto, vivenciar a Páscoa significa retomar a alegria e a esperança dificultadas pelo sepulcro vazio. Nela está o centro da fé cristã, a superação de todo individualismo que massacra o ser humano e o coloca numa atitude de impotência para agir com total liberdade.
Todos os limites e impossibilidades que a pessoa tem são como armadilhas para dificultar sua plena realização. A ressurreição é um dom de Deus para conservar o ideal de libertação e possibilitar a pessoa de amar e ser feliz numa dimensão de vida eterna.
*Dom Paulo Mendes Peixoto é arcebispo de Uberaba.
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'A vida só tem sentido se for colocada a serviço', diz Dom Odilo

“O sentido da vida não está em buscar a si mesmo, mas ter o coração para entregar a vida como dom e serviço. Este é o ensinamento de Jesus na última ceia” afirmou o Cardeal Odilo Pedro Scherer, na Missa da Ceia do Senhor, celebrada na Catedral da Sé, na noite desta Quinta-feira Santa, 2.

A celebração abre o Tríduo Pascal, evento central da vida da Igreja, em que se faz memória da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Nesta missa se comemora a instituição da Eucaristia e do sacerdócio cristão.

Um dos momentos marcantes da celebração é o rito do lava-pés, que recorda o gesto de Jesus, que lavou os pés dos discípulos, mandando que o imitassem. Na Catedral, por iniciativa de Dom Odilo, inspirado pelo tema da Campanha da Fraternidade (CF) 2015, cujo tema é “Fraternidade: Igreja e Sociedade”, o Cardeal lavou os pés de representantes da sociedade, entre servidores públicos e profissionais e representantes da Igreja (gari, bombeiro, defensor público, político, médico, agente de pastoral, seminarista, diácono permanente, religiosa, missionário e funcionário da Catedral).

Na homilia, Dom Odilo destacou que Jesus, na ultima ceia, mudou o significado do rito da ceia judaica e recomendou que o fizessem não mais em memória da libertação do Egito, mas de um fato novo para toda a humanidade, a libertação do pecado e da morte por meio da vida doada de Jesus. “Também nós, se queremos ter parte com Jesus, devemos nos colocar a serviço uns dos outros. A Eucaristia é para nós a recordação da suprema atitude de serviço do Filho de Deus em favor da humanidade”, recordou o Cardeal, citando a frase de Jesus usada como lema da CF 2015, “Eu vim para servir”.

“A vida só tem sentido se for colocada a serviço [...]. Não sejamos tentados pelas propostas de vida egocêntricas, baseadas apenas na vantagem pessoal, incapazes de se abrir para as necessidades do próximo. A vida se enriquece na medida em que se doa”, acrescentou o Arcebispo.

No final da celebração, o Santíssimo Sacramento foi transladado, em procissão, para a capela onde aconteceu uma vigília de oração que continuará na manhã da Sexta-Feira da Paixão, quando se recorda a morte de Jesus na Cruz.  Por isso, após a missa, o altar foi desnudado, as flores foram tiradas da Catedral e serão colocada novamente na celebração da solene Vigília Pascal, na noite do Sábado.
SIR
04/04/2015  |  domtotal.com
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O que buscar na Semana Santa?

Por Dom Messias dos Reis Silveira*
Mais uma vez, estamos na Semana Santa. O que ela tem de santa? Nada de santa se a nossa vida não se aproximar da vida do Santo Filho de Deus, que morreu e ressuscitou possibilitando a todos saírem de seus túmulos existenciais. Nada de santa se a nossa vida não melhorar. Para algumas pessoas ela será só uma semana como as outras do cotidiano, sem um significado especial, ou será uma semana com feriado prolongado. Mas, quem desejar, perceberá o significado desta semana e procurará viver a mística que dela emana. Nela celebra-se o maior ato de amor de Deus pela humanidade e por tudo o mundo que Ele criou. A humanidade e a natureza a partir do fato central celebrado nesta semana ficou profundamente mergulhada no mistério da redenção. Segue-se uma história dos redimidos pelo amor grande de Deus.
Esta semana merece ser vivida em clima de muita oração, contemplação, esforço de conversão e convivência fraterna. A oração, como disse Paulo VI nos faz respirar na graça. Através dela a leveza de Deus suaviza a vida dos peregrinos. Com esta grande Semana chega-se, para nós, o tempo de rezar contemplando a redenção. Pelo esforço de conversão, o ser humano percebe-se que não está completo. Há um longo caminho a percorrer para todas as pessoas. Como disse Sartre “o ser humano é inacabado, é incompleto do seu nascimento até sua morte”. Pelo esforço de conversão é possível corrigir as deformações pessoais e aquelas que na nossa fragilidade provocamos nos outros e na natureza. Vivendo desta forma pode se dizer que está iniciado, desde já, o processo de convivência fraterna que culminará na eternidade. A vivência entre irmãos que se amam é repleta de ternura. Como é bom os irmãos viverem juntos, numa só fé, com muita esperança e cheios de amor! (Cf Sl 133).
Nesta semana maior da Igreja celebramos o mistério central da nossa fé. Do Domingo de Ramos” até Quinta-feira santa, completamos o grande retiro quaresmal iniciado na Quarta feira de Cinzas e vivido na perspectiva do crescimento cristão. Com a Missa da Ceia do senhor na Quinta-feira à tarde, incia-se o Tríduo pascal da morte e ressurreição do Senhor. O cume de todas as celebrações, desta grande semana, é a Vigília Pascal na noite do Sábado Santo. Esta Vigília se desdobra na alegria do Domingo da Ressurreição e nos cinqüenta dias do Tempo Pascal até o Pentecostes sagrado. Este tempo pascal é considerado como que um único e grande domingo. O ritmo pascal envolve a todos na dança alegre das pessoas que tem um rosto iluminado pela fé na ressurreição.
Vamos viver cheios de esperanças esta semana especial da Igreja com o desejo de revigorar a vida cristã. Vamos entrar na Páscoa com semblantes de ressuscitados. “No Domingo de Páscoa tem-se a oportunidade para o ser humano se deixar ser tocado pelo triunfo de vida sobre a morte. Cristo venceu a morte. Este é um bom dia para se semear uma flor” (Rubem Alves). Espalhe ondas de amor entre as pessoas de seu convívio e de sua fé e tenha uma feliz semeadura das sementes das flores que exalam o perfume da paz. “Somos da paz”
Após a Semana Santa será feliz quem procurar viver em ritmo pascal, ou seja viver uma constante libertação a partir de Jesus. Vivendo assim, o dom da paz vai crescer em nosso meio e se poderá dizer com esperança que “somos da paz”. A paz é um dom do Ressuscitado. Muitas vezes ele se manifestou desejando a paz. Feliz entrada no ritmo pascal.
CNBB, 30-03-2015.
*Dom Messias dos Reis Silveira é bispo de Uruaçu (GO).
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O que se celebra na Semana Santa?

Quem crê na ressurreição chega ao ponto mais alto da espiritualidade cristã.
Por Dom Pedro Brito Guimarães*
A Igreja Católica abriu liturgicamente, com o Domingo de Ramos e da Paixão, a Semana Santa. O último domingo (29), portanto, foi a porta de abertura e de entrada da Semana Santa. De forma muito breve, podemos afirmar que as ações litúrgicas da Igreja são, ao mesmo tempo, ações rememorativas (fazem memória litúrgica de um evento salvífico), demonstrativas (atualizam seus efeitos salvifícos) e prognósticas (abrem as portas do futuro escatológico). No Domingo de Ramos e da Paixão os dois mistérios centrais da vida de Jesus e, por conseguinte, da vida cristã, são rememorados, demonstrados e prognosticados. Na celebração da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, a Igreja faz, solenemente, o anúncio pascal da paixão morte e ressurreição de Jesus. Vejamos:
Primeiro, Paulo, na Carta aos Filipenses, descreve o esvaziamento de Jesus, ao assumir a condição de escravo, fazendo-se igual ao homem, obediente até a morte de cruz (Fl 2,6-8). Marcos completa a tragicidade desta paixão, ao afirmar que Jesus entra em Jerusalém pequeno, humilde e pobre, montado num jumento (Mc 11,1-7). E em seguida, anuncia a sua paixão com todos os detalhamentos que ela comporta (Mc 15,1-39).
Segundo, por causa disto, diz também Paulo que Deus o exaltou e lhe deu o nome que está acima de qualquer nome. E diante do nome de Jesus todo joelho se dobra no céu, na terra e nos inferno e toda língua proclama: Jesus Cristo é o Senhor para a glória de Deus Pai (Fl 2,9-11). Marcos completa esta informação dizendo que o povo, ao ver Jesus entrar triunfalmente em Jerusalém, estendeu seus mantos, espalhou seus ramos e gritou: Hosana (que literalmente significa: “dá-nos a salvação”)! Domingos de Ramos e da Paixão é, neste sentido, didático, catequético, litúrgico, pedagógico e propedêutico.
Ao longo dos outros dias da Semana Santa, sobretudo a partir da quinta-feira santa, nas outras celebrações adicionais, tais como a bênção dos santos óleos, o lava-pés, a adoração eucarística, a via-sacra e a encenação da paixão, o mistério da morte e ressurreição de Jesus, serão rememorados, demonstrados e prognosticados. Descaremos, aqui, de forma muito breve, somente as três Páscoas:
A Páscoa da Ceia: Na quinta-feira, celebramos a ceia do Senhor, a instituição do mandamento do amor fraterno e do sacerdócio ministerial. João, o evangelista, interpreta o sentimento mais profundo de Jesus, na última ceia, com as seguintes palavras: “tendo Jesus amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Durante a ceia, Jesus cingiu-se com uma toalha e lavou os pés dos discípulos. Em seguida, comeu a páscoa com eles. Nesta celebração, comumente chamada de “Páscoa da Ceia”, Jesus se dá no pão e no vinho. Seu corpo e seu sangue já não são mais seus. Já foram dados. Portanto, Jesus sai da ceia literalmente morto.
A Páscoa da Cruz: Na sexta-feira este sentimento de doação de Jesus chega ao seu ápice. Jesus não somente anuncia, introduz e simboliza, mas também realiza e expressa, de forma total e radical, esta sua sede de doação. É na celebração da adoração da cruz que a Igreja faz memória litúrgica da Páscoa da Cruz. Os evangelistas traduzem, com palavras muito fortes, o que aconteceu na hora da morte de Jesus, ao afirmar que houve uma celebração fúnebre, da qual participou inteiramente a criação: “uma escuridão cobriu a terra, o sol escondeu-se, o véu do templo rasgou-se em dois, a terra tremeu, os mortos ressuscitaram” (Lc 23,45; Mc 15,38; Mt 27,51-52). Importante também foi a profissão de fé do centurião romano: “verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). A morte na cruz, segundo o papa emérito Bento XVI, “é um acontecimento cósmico e litúrgico”. Depois disso, inicia-se o grande silêncio litúrgico.
A Páscoa da Ressurreição: Todos os sentimentos de luto, de vigília, vividos em profundo espírito de contrição, comoção, obediência, luto e oração, são quebrados pelos brados de alegria e de aleluia, cantados nesta da vigília pascal que, segundo Santo Agostinho, é a mãe de todas as vigílias. O clima litúrgico se transforma totalmente quando a comunidade cristã proclama, solenemente, a ressurreição de Jesus. Trata-se, pois, de uma solene celebração de vigília. Destacamos aqui a celebração da luz, da água, da renovação das promessas batismais, da Palavra, em abundância, na qual se faz memória da criação, da libertação do Egito e em crescendo, se passa por todas as fases salientes da história da salvação, até chegar à glória da ressurreição. Quem chega a crer na ressurreição, crê no mistério final e sublime da fé cristã e chega ao ponto mais alto da espiritualidade cristã.
É tudo isto que celebramos na Semana Santa. Depois desta solene noite santa, tudo passa a ser páscoa, ressurreição e vida nova, até que se complete cinquenta dias.
Então, boa Semana Santa para todos nós.
CNBB, 27-03-2015.
*Dom Pedro Brito Guimarães é arcebispo de Palmas (TO).
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Paixão do Senhor

Qual é o poder deste crucificado? A atração irresistível da Verdade.
Por Marcel Domergue*
A ninguém passam despercebidas as semelhanças que existem entre a profecia do Servo (1ª leitura) e os relatos da Paixão. Os evangelistas tinham com certeza Isaías em mente, ao redigirem o seu texto. Tem-se a impressão de que Jesus segue um modelo pré-fabricado. Os exegetas se perguntam quem seria este Servo sofredor, de Isaías 52-53. Seria Davi, perseguido por Saul? Seria Jeremias, o profeta perseguido? Ou o povo de Israel, hostilizado pelos pagãos? É forçoso responder: são estes e muitos outros mais, ou seja, todos os que foram, são e serão um dia levados a bradar “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Marcos 15,34).
Jesus assume as dores e angústias de todos os perseguidos da história, de todos os que sofreram, sofrem e sofrerão por não importa qual motivo. “Eis o homem”, diz Pilatos: eis todo o homem e os homens todos! No texto de Isaías, em vista do estado miserável a que foi reduzido o Servo sofredor, as testemunhas o tomam primeiramente por um pecador castigado por Deus, um “leproso” a ser evitado. Mas, bruscamente (Isaías 53,4), elas se voltam em outra direção: o que ali vemos, somos nós mesmos! Este homem é a revelação do nosso mal e da nossa desgraça, conhecida ou ignorada. Ele carrega o pecado do mundo e é forçoso que voltemos o nosso olhar para aquele a quem trespassamos. Nele se manifestam as dimensões todas da perversidade que trazemos sempre disfarçada, bem como “a largura, a altura e a profundidade do amor” de um Deus que, até este extremo, quis ser Emanuel, o “Deus-conosco”.
Falência da justiça
A Paixão é um processo. A Bíblia está cheia de alusões ao processo que Deus move contra os homens: é o tema do julgamento. Assistimos aqui, porém, ao processo que os homens movem contra Deus. Aliás, um duplo processo: o dos judeus (que O conhecem) e o dos pagãos (que não sabem onde se encontra a verdade). Os dois irmãos inimigos que, nas Escrituras, materializam o imemorial conflito entre o homem e o homem, participam agora da condenação à morte do Justo. Uma primeira conivência, um primeiro entendimento, perverso, na execução compartilhada deste ato supremo de injustiça.
Esta primeira cumplicidade irá se reverter depois, para se tornar uma aliança, no amor, entre judeus e não judeus. Isto se dá por obra do Espírito que Jesus “emite” no momento mesmo da sua morte (João 19,30: “paredoken to pneuma”). Mas, naquela espera, a justiça é ridicularizada pelos homens! Pois Jesus os segue neste caminho, renuncia também Ele à justiça: os culpados não serão punidos, mas salvos. Tudo é subvertido pela Paixão do Cristo. E nós ficamos definitivamente isentos do regime da justiça, em virtude da qual poderíamos ser condenados. A Paixão é a sentença de absolvição para todos os pecadores!
Da justiça ao amor
Não é possível inventariar tudo o que nos revela a Paixão segundo São João. Notemos que Jesus aparece, no seio mesmo da sua humilhação, como Mestre e Senhor. No Jardim das Oliveiras, os guardas caem por terra ante a revelação da sua identidade (18,6). Ele não julga diretamente o guarda que o esbofeteia, mas convida-o a julgar-se a si próprio (18,23). Mas, aos contrário, avalia a falta de Pilatos, comparando-a com a "daquele que o entregou" (19,11). Assim se exerce o julgamento no qual o veredicto será sempre de perdão: não se trata de ignorar a culpa, mas de absolvê-la! Desviar os olhos do que foi trespassado é passar ao largo do perdão. Jesus é Senhor e até mesmo Rei (18,23-38).
Ora, todo Rei exerce o poder. Qual é o poder deste crucificado? A atração irresistível da Verdade. Verdade que não vem acrescentar-se às “verdades”, ao que já existe no homem, mas que desvela o que faz no homem a sua humanidade e que, no entanto, se mantém oculto para nós: o amor, pois amor e verdade se esposam. Esta é a onipotência de um amor poderoso o bastante para renunciar ao poder e assim poder ir ao encontro amoroso da fraqueza. Retornamos então ao início do relato de São João: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (13,1).
Croire
*Marcel Domergue é sacerdote jesuíta. O texto é baseado nas leituras da Sexta-Feira Santa, em memória da Paixão do Senhor (03 de Abril de 2015). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco ara e José J. Lara.
03/04/2015  |  domtotal.com
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No sepulcro, a vitória da vida

Alguns pensavam que iam calar Jesus, condenando-o à morte. O efeito contrário foi surpreendente! Através das gerações, o Filho de Deus mostra a que veio com semelhança humana. Apesar dessa sua humanização, seu poder divino apresenta a força da superação da morte física. Não fomos criados para ficar dentro do sepulcro, mas não por nosso poder humano. Jesus é que potencializa nossa vida para ela ser imorredoura. A matéria é corruptível, mas o espírito não tem a limitação do tempo. Este é eterno. Jesus o afirma e realiza consigo mesmo.
A ressurreição do Senhor estarrece não só os soldados que guardavam o túmulo, mas também a todos que fazem a experiência de fé em sua pessoa. Quem vive só para a matéria não tem essa graça da certeza da vida perene. A fé na vitória do Mestre sobre a morte sustenta toda a conduta moral de quem O aceita. Paulo lembra que a Páscoa de Jesus é fundamento indispensável para quem crê. Ao contrário, estaria perdendo tempo em conservar a própria religiosidade e opção de vida com a contenção e sublimação dos instintos. Compreendemos porque certas pessoas não têm freio ético, apesar de, às vezes, até se mostrarem pessoas realizadoras de atos religiosos. Talvez o façam para ostentação social e até ganharem tentos políticos.
Quem saboreia a certeza da vitória de Jesus, luta para também alcançar a vitória da vida, buscando o caminho de sentido apresentado por Aquele que ressuscitou. Viver para as coisas do alto, ou seja, pelo ideal de tornarmos o convívio na sociedade de modo profundamente humano, vale a pena. Realizando o bem a quem necessita é o mesmo que fazê-lo a Cristo, conforme Ele mesmo disse. Então a vida se torna uma verdadeira promoção do bem. Até o slogan da Santa Casa de Montes Claros reforça esse encaminhamento: “Pratique o bem; o resto vem”!
Jesus é incansável na prática e no ensinamento do amor, como atitude de sair de si em vista de servir o semelhante. A Campanha da Fraternidade focaliza o serviço que a Igreja presta à sociedade, sendo luz e mostrando a vida como dom a ser protegido e promovido até às últimas conseqüências. Precisamos tirar das pessoas, famílias e sociedade todos os mecanismos de morte, erradicando do coração humano tudo o que é impulso para a agressão ao outros. Canalizamos os instintivos para a criação de condições em que cada um dá de si para servir o próximo. Vamos ter mais harmonia, compreensão, diálogo, justiça, solidariedade e paz.
A Páscoa de Jesus vem trazer-nos um grande impulso para sermos verdadeiramente humanos uns com os outros, dando o que o semelhante precisa para viver dignamente. Para isso, somos convidados a viver com Jesus ressuscitado, ou seja, seguir a pessoa dele a cada instante e aprender com Ele a sermos instrumentos de promoção de vida. Dessa forma, nossa vida se torna feliz. Ficamos livres das escravidões do egoísmo e da falta de luta por um ideal melhor de vida.
Tirar a pedra do sepulcro de Jesus foi obra do próprio Jesus ressuscitado. Tirar também a pedra do sepulcro da limitação humana é possível se aceitarmos que o próprio Jesus tome conta de nossa vida. O sentido da vida trazida por Ele nos faz viver também com Ele e sua vida nova. Tornamo-nos novas pessoas, com alegria e vontade de viver para fazer o bem!
CNBB, 31-03-2015.
*Dom José Alberto Moura é arcebispo de Montes Claros (MG).
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Jesus, nossa páscoa!

A ressurreição de Jesus tornou-se núcleo da fé; a partir dela se pode ler e viver todo mistério.

Por Dom Messias dos Reis Silveira*
Páscoa faz suscitar em nós sentimentos de alegria, de paz, de liberdade e de esperança. A festa da Páscoa é bastante antiga na História da Salvação. O povo de Deus foi liberto da escravidão no Egito atravessando o mar e passou a seguir o caminho que se abria à sua frente. Essa Páscoa Hebréia aconteceu em meio aos esforços humanos, iluminados pela fé na ação libertadora de Deus. Então, foi páscoa e o povo cantou a vitória. Todos os anos essa festa continua a ser celebrada pelos judeus. Para os cristãos ela tem um novo significado.
Jesus viveu a sua páscoa. Ele subiu à Jerusalém, ali foi preso, condenado, crucificado e morto. Sua morte foi como o entrar no perigo do mar, como outrora fizera o povo de Deus. Tudo parecia estar acabado, mas eis que ressurge vitorioso aquele que havia morrido. Ele vive, o seu tumulo está vazio. O Ressuscitado se manifesta aos apóstolos comunicando o dom da paz. Essa foi a Páscoa do Filho de Deus. Ele morreu e venceu a morte, ressuscitando.
Esse fato da ressurreição de Jesus tornou-se o núcleo da fé, pois a partir dele se pode ler e viver todo o mistério de Jesus e da Igreja que ele fundou.
Nós que vivemos há muitos anos depois da morte e ressurreição de Jesus também temos a nossa Páscoa. Durante a nossa vida devemos passar de tudo o que é morte e nós e na sociedade para termos a alegria de viver. São muitas as mortes que precisam ser vencidas enquanto se vive, mas não se vence sozinho. Cristo é vida. O encontro com Ele gera vida em nós. Ele nos ajuda na nossa travessia neste mundo.
Chegará o momento do término de nossa existência neste mundo. A morte humana é a Páscoa de um filho de Deus. Na morte entramos na vida eterna para viver a grande comunhão com Deus. Na nossa páscoa Cristo está presente, pois ele nos acompanha salvando-nos e introduzindo-nos no coração amoroso do Pai para vivermos eternamente felizes.
A nossa Páscoa se vivida na comunhão com Cristo tem um significado de plenitude e por isso não nos põe em desespero, mas nos alegra, enche-nos de paz, tem sabor de vitória e liberdade. Cristo viveu sua Páscoa e também nós vivenciaremos a nossa unidos a ele, pois todo mistério da vida se alicerça e se ilumina a partir dele no qual “nos movemos, existimos e somos” (Cf At 17,28).
CNBB
*Dom Messias dos Reis Silveira é bispo de Uruaçu (GO).
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Como dizer a Páscoa de outra maneira?

A Festa da Ascensão nos atrai para as alturas, mas nos reenvia ao cotidiano da nossa vida.
Por Raymond Gravel*
Páscoa e Ascensão: dois momentos do mesmo mistério; duas faces de uma mesma festa; duas maneiras de contar a Ressurreição. A Festa da Ascensão nos atrai para as alturas, mas nos reenvia ao cotidiano da nossa vida. Jesus foi para o céu, mas para inaugurar o tempo do Espírito Santo e nos enviar em missão para os nossos irmãos e nossas irmãs. Hoje é, portanto, a festa da Igreja, Corpo de Cristo, cuja cabeça está no céu e pés na terra. Que mensagens podemos tirar do livro dos Atos dos Apóstolos e do evangelho de Mateus sobre a festa de hoje?

A todos os Teófilos (amigos e amigas de Deus)

Lucas é o único que tem o relato da Ascensão. Na verdade tem dois: Lc 24,50-53 e At 1,1-11. Sabemos hoje que o relato de Marcos (Mc 16,9-20) é um acréscimo bem posterior à redação do evangelho, cujo autor inspirou-se nos outros evangelistas. Lucas, após escrever seu evangelho que mostra o acontecimento da Ressurreição como um todo, em suas duas dimensões: horizontal e vertical = Páscoa e Ascensão, no mesmo dia... no livro dos Atos dos Apóstolos, ao contrário, temos dois acontecimentos distintos, separados no tempo (40 dias), que podemos qualificar de tempo teológico de transformação e conversão, para enfatizar simplesmente que os discípulos de Jesus precisaram de tempo para tomar consciência de que Jesus, morto, não somente partiu (Ascensão), mas que também está vivo e presente de outra maneira (Páscoa) na sua Igreja. Além disso, na fé cristã a Ascensão sem dúvida precede a Páscoa, porque os primeiros cristãos constataram, em primeiro lugar, a partida de Jesus antes de se darem conta de que ele estava vivo e presente no meio deles. Por outro lado, como Lucas escreveu seus relatos após os acontecimentos, numa comunidade cristã já bem estabelecida, pôde inverter a sequência, a fim de ter uma lógica maior e uma melhor compreensão.

Além de inverter a sequência – Ascensão/Páscoa para Páscoa/Ascensão –, no livro dos Atos, Lucas chega inclusive a separá-los no tempo, para mostrar que o evento pascal diz respeito não somente ao Cristo ressuscitado, mas também aos seus discípulos, que são seu corpo e que, habitados pelo seu Espírito, o tornam presente e atuante no mundo: “Foi a eles que Jesus se mostrou vivo depois da sua paixão, com numerosas provas. Durante quarenta dias, apareceu-lhes falando do Reino de Deus” (At 1,3). Durante este tempo, os discípulos tomaram consciência da missão que Cristo lhes confiou: “Mas recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria, e até os confins da terra” (At 1,8).

Por outro lado, Lucas nos mostra que Páscoa e Ascensão são o mesmo acontecimento e nos falam de uma mesma realidade. No dia da Ascensão, assim como no da Páscoa, deve-se observar a importância do olhar: na Páscoa, no túmulo, as mulheres olharam para baixo: “Cheias de medo, elas olhavam para o chão. No entanto, os dois homens disseram: ‘Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que está vivo?’” (Lc 24,5). Aqui, no livro dos Atos, a Ascensão, 40 dias depois da Páscoa, o olhar dos discípulos está voltado para o alto: dois homens vestidos de branco dirão aos discípulos: “Homens da Galileia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu” (At 1,11).

O Cristo ressuscitado: o Emanuel, Deus conosco

No evangelho de Mateus não há relato da Ascensão, como temos em Lucas; há somente um relato da aparição aos apóstolos sobre uma montanha da Galileia, lugar por excelência do encontro com Deus, onde o Cristo ressuscitado transmite aos apóstolos uma tríplice missão: 1) Missão da proclamação (kerigma) às nações (v. 19a); 2) Missão de santificação pelo batismo (v. 19b); 3) Missão de formação para a vida cristã (v. 20a). O exegeta francês Jean Debruynne escreveu: “O Jesus ressuscitado dá aos cristãos três vocações: a inteligência, a ação e o coração; dito com outras palavras, a fé, a esperança e a caridade. Ao pedir para fazer discípulos, Jesus não está preocupado em inflar o número de cristãos, pois há mais a fazer do que se prender a estatísticas. A missão da Igreja não é colonizar o mundo. Quando Jesus diz: ‘Fazei discípulos meus todos os povos...’, ele nos convida a mudar a relação entre os homens. Não podemos escolher o país de nascimento. Mas podemos escolher ser discípulos. As relações com a nação são jurídicas e políticas. A relação do discípulo é uma relação com qualquer um. Jesus nos convida, portanto, a trabalhar para que as relações sociais se tornem relações entre pessoas”.

Por outro lado, o cristão continua frágil: ele duvida. “Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram” (Mt 28,17). O verbo “duvidar” não se encontra na Bíblia, exceto aqui e em Mt 14,31, quando Jesus repreende Pedro que começava a afundar quando caminhava sobre as águas. Não é que Pedro não tivesse fé, mas sua fé era tímida; falta-lhe audácia e coragem. Se o evangelista Mateus sublinha a dúvida dos cristãos é porque ele quer mostrar a humanidade da Igreja, com suas fragilidades, seus limites e sua finitude. A fé cristã nunca é uma certeza; é uma esperança. Bernanos dizia: “A fé cristã é, no dia, 23h55 de dúvida e cinco minutos de esperança”.

Mas é a esses homens – e poderíamos acrescentar hoje a essas mulheres e homens – que Cristo confia sua missão de humanizar o mundo, para que ele possa encontrar Deus. Santo Irineu dizia: “Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus”. E Jean Debruynne continua: “O cristão está a caminho. Não é qualquer um que chega; é alguém a caminho. O cristão está no canteiro de obras; é um homem de ação, portanto, um homem de esperança. ‘Fazei discípulos meus todos os povos...’. Nós não somos, em primeiro lugar, franceses, bretões ou aposentados; somos, em primeiro lugar, discípulos do Filho do Homem. ‘Batizai...’, ou seja, façam nascer. Façam-nos nascer não somente para o mundo, mas também para o seu coração, e a verdadeira batida do seu coração é o próprio Jesus. Trata-se de amar como nunca amamos. Batizai nas grandes águas da caridade. ‘Ensinai...’, ou seja, abram a inteligência da sua fé. O cristão não vai ao encontro de Deus com os olhos fechados. Ele não pode se contentar com o que aprendeu no catecismo. Nós não vivemos somente com aquilo que sabemos, mas também com aquilo que nos tornamos. O cristão não guarda os mandamentos em seu bolso ou apenas em sua memória, ele deve vivê-los...”.

Concluindo, o evangelho de Mateus termina como começou. Começa com José, que recebe a visita do Anjo do Senhor que lhe diz: “Vejam, a virgem conceberá, e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel: Deus está conosco” (Mt 1,23). E termina com Jesus, antes da sua partida, que afirma ser este Emanuel, esse Deus conosco: “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,20b). Felizmente, sua presença nunca é uma certeza; seria perigoso; haveria a tentação de impô-lo a todo o mundo. Sua presença é uma esperança. Mas que esperança! Há mais de 2.000 anos, mulheres e homens, apesar das suas dúvidas, testemunham o Ressuscitado, humanizando o mundo e animando-o à maneira de Cristo.

A todas e todos, uma boa festa da Ascensão, a segunda face da Páscoa!
Réflexions de Raymond Gravel
*Raymond Gravel é padre da Diocese de Joliette, Canadá. O texto é baseado nas leituras do Domingo da Ascensão do Senhor – Ciclo A do Ano Litúrgico (1º de junho de 2014). A tradução é de André Langer.
31/05/2014  |  domtotal.com
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Cristo: uma porta grande e aberta

Por Raymond Gravel*
Todos os anos, o quarto domingo da Páscoa é o domingo dedicado às vocações, inspirado no evangelho de João 10, o Bom Pastor, dividido em três partes; este ano, temos a primeira parte: Jo 10,1-10. Nesse trecho, o Jesus de João não se apresenta como o pastor das suas ovelhas; ele se apresenta como a porta do curral das ovelhas: uma porta grande e aberta para a livre circulação. Que mensagens podemos extrair deste evangelho de hoje?

1. A vocação decorre do batismo

Durante muito tempo, na Igreja, o termo vocação era reservado às vocações consagradas: padres e religiosos(as). Hoje, com a diminuição do número de padres e religiosos(as), o termo vocação ampliou-se e dirige-se a toda pessoa que, pelo seu batismo, se sente chamada a exercer um ministério, uma função, na Igreja, em sua comunidade humana e cristã. É verdadeiramente vocação, pois decorre do batismo. No Pentecostes, nos diz o livro dos Atos dos Apóstolos, na primeira leitura de hoje, Pedro e os Onze Apóstolos anunciam a Ressurreição de Jesus e convidam todos a viver ressuscitados. Ao dizer que Deus fez de Jesus crucificado o Cristo e Senhor, Pedro dirige-se não somente aos judeus, mas também aos gregos, uma vez que os cristãos de origem judaica invocam Jesus como Senhor, ao passo que os cristãos de origem grega o invocam como Cristo.

E o texto precisa que todos aqueles e aquelas que escutam este anúncio da Ressurreição ficaram aflitos com o discurso de Pedro: “Ao ouvirem essas coisas, ficaram compungidos no íntimo do coração e indagaram de Pedro e dos demais apóstolos: ‘Que devemos fazer, irmãos?’” (At 2,37). E a resposta não foi tornar-se padre ou religioso(a); a resposta foi: o batismo da água e do Espírito, a conversão e o compromisso. “Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2,38). É, portanto, pelo batismo que nos identificamos com o Cristo ressuscitado e é pelo dom do Espírito (a confirmação do batismo) que podemos nos comprometer a viver ressuscitados.

2. A quem se dirige esta parábola?

Recordemo-nos que, no quarto Domingo da Quaresma, tivemos o relato do cego de nascença (Jo 9), o texto que precisa a parábola de hoje. Neste relato, víamos muito bem a problemática que prevalecia no tempo de São João, quando os cristãos eram não somente perseguidos pelos romanos, mas também condenados pelos judeus e excluídos das suas sinagogas. Portanto, a parábola de hoje dirige-se em primeiro lugar aos fariseus, certamente, mas também aos chefes religiosos da Igreja primitiva que se achavam os únicos detentores da verdade sobre Deus e proprietários da fé do Povo de Deus. Esses chefes se consideravam como os únicos guias das ovelhas do Senhor. São João é muito duro com eles; ele os trata como ladrões e salteadores: “Em verdade, em verdade vos digo: quem não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador” (Jo 10,1). “O ladrão não vem senão para furtar, matar e destruir” (Jo 10,10a).

O verdadeiro pastor chama cada uma das suas ovelhas pelo seu nome (Jo 10,3). Assim, realiza-se a profecia de Isaías 43: “Chamei-te pelo teu nome, tu és meu”, e como canta tão bem o Salmo 22: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”. O mau pastor não conhece as suas ovelhas; é um desconhecido para elas. Elas têm medo dele, fogem dele, porque elas não reconhecem a voz dos desconhecidos (Jo 10,5). Na Igreja de hoje, os pastores devem dar provas de muito amor se quiserem testemunhar o Cristo da Páscoa, porque os cristãos se sabem amados por Deus. De sorte que, se os discursos da Igreja estão desconectados das pessoas, da sua vivência, da sua realidade, e se as nossas palavras condenam mais do que encorajam, dispersamos mais do que reunimos e as ovelhas não podem nos considerar como pastores.

3. Cristo é a porta

E é uma porta grande e aberta que favorece a circulação com toda a liberdade: “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim será salvo; tanto entrará como sairá e encontrará pastagem” (Jo 10,9). As ovelhas ou os pastores entram pela porta: “Mas quem entra pela porta é o pastor das ovelhas” (Jo 10,2). Mas, o que fazemos para reconhecer o verdadeiro pastor? Nós o reconhecemos na sua relação com as ovelhas. É uma relação de intimidade, de confiança recíproca, de amor e de liberdade: “A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz. Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz à pastagem” (Jo 10,3).

O bom pastor é, evidentemente, o Cristo, mas são também seus discípulos, aquelas e aqueles que trabalham para ele. Na Igreja de São João, eram Pedro, Tiago, João, Filipe, Paulo e todos os outros, mas também, sem dúvida, as mulheres: Maria Madalena e a outra Maria, Marta e tantas outras que testemunharam o Cristo vivo na vida das primeiras comunidades. Na Igreja de hoje, é o Papa Francisco que, no último ano, traz esse vento de frescor que nos diz algo do Ressuscitado. São também muitos bispos, padres, religiosos(as), cristãos e cristãs engajados em nome do seu batismo, que trabalham por um mundo melhor. Esses pastores não têm medo de abrir as portas para libertar as pessoas de uma religião esclerosada, uma religião de condenação e de exclusão. É por isso que esses pastores dão, muitas vezes, a sua vida para perseguir a missão do Cristo da Páscoa. Jesus dirá mais adiante: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (Jo 10,11). Ainda hoje, essas podem ser as consequências da missão...

No Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII abriu as portas e as janelas da Igreja para arejar, para permitir uma melhor circulação, para libertar os cristãos que estavam doentes numa Igreja dogmática e doutrinal. A partir de então, procura-se por todos os meios fechar as portas para poder controlar melhor. Elevou-se a barra e as exigências ficaram mais severas. O resultado: há cada vez menos pessoas que se referem à Igreja, porque os cristãos não reconhecem mais os pastores de que necessitam. É por isso que o evangelho de hoje deve nos interpelar, a nós que somos da Igreja. Felizmente, temos um papa que reúne mais em torno do Cristo do evangelho. Ele compreendeu que é preciso abrir a porta que é o Cristo, grande, para permitir que todas as ovelhas circulem livremente. Se quisermos ser fiéis a Cristo e à nossa missão cristã, devemos abrir a porta para o mundo a fim de que todos possam entrar na Igreja com toda a liberdade.

Mas, cuidado com os mercenários! Eles estão por aí ainda hoje. Eles podem estar vestidos como discípulos de Cristo, mas são ladrões e bandidos. Para discernir os pastores dos mercenários, a última frase do evangelho de hoje nos oferece uma pista interessante: “Eu vim para que as ovelhas tenham vida e para que a tenham em abundância” (Jo 10,10b). O que quer dizer que cada vez que escutamos uma palavra que liberta, que salva, que reconforta, que dá esperança e vida, devemos seguir a voz de quem a profere. Mas quando ouvimos uma voz que julga, condena e exclui, há fortes indícios de que estamos na presença de um mercenário, de um falso pastor, de um ladrão ou de um salteador. Esse último não está a serviço das ovelhas; ele se serve delas para se convencer da sua autoridade e do seu prestígio pessoal.

Na Igreja de hoje, assim como naquela de São João, devemos dar provas de compreensão, de abertura, de acolhida, de compaixão, de tolerância e de perdão, caso quisermos multiplicar a vida em abundância e semear a esperança. Se nós asfixiamos as pessoas, se nos recusamos a acolhê-las sem julgá-las, se nós as condenamos, não podemos pretender querer dar a vida em abundância àquelas e àqueles que nos são confiados. Todos e todas nós temos esta responsabilidade de dar a vida em abundância. É a mais bela das vocações e é a única maneira de ser fiel ao Cristo Bom Pastor e de sê-lo em seu nome...

Para terminar, eu gostaria simplesmente de citar o comentário do teólogo francês Gérard Bessière, que nos convida a respirar o sopro de Deus: “Uma porta aberta. Jesus se compara a uma porta... aberta! Somos impactados pela luz que vem de fora e pelo ar vivificante. Nós ouvimos sua voz. Não é a uma tropa que ele se dirige, mas a cada uma e cada um. Ele conhece todos os nomes. Nada de manipulação de massas! À sua voz, nos colocamos em marcha, nunca devemos parar de caminhar... Ele disse que era o caminho, e também que ele veio para que os homens tenham a vida, a vida em abundância. Houve, há e haverá pretensos pastores, líderes, gurus, ídolos que roubam a liberdade, destroem as pessoas e asfixiam a verdadeira vida. Jesus, com frequência, dirigiu-se contra a pretensão daqueles que querem fazer a lei para os outros e impor seu poder. Jesus abre os olhos dos homens, coloca-os em pé, dá-lhes a palavra, convida-os a tomar o caminho. O oxigênio que aí respiramos é, parece, o sopro do próprio Deus...”.
Réflexions de Raymond Gravel
*Raymond Gravel é padre da Diocese de Joliette, Canadá. O texto é baseado nas leituras do 4º Domingo da Páscoa – Ciclo A do Ano Litúrgico (11 de maio de 2014). A tradução é de André Langer.
10/05/2014  |  domtotal.com
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Superação da morte é o maior desafio humano

Por Dom José Alberto Moura*
Apesar de um aparente pessimismo de um mundo melhor, devido à realidade de tantos desmandos, injustiças, males e desacertos humanos, como o trafico e exploração de pessoas, políticos e políticas nem sempre acertadoras no benefício à coisa pública, felizmente o bem vence. Ele é potencializado e fundamentado naquele que, da cruz e sepultura, ressurgiu vitorioso. Com ele os pequenos ganham vez. Os pobres são promovidos. A vida tem sentido. A morte é superada. Os sofrimentos são instrumentos de regeneração. O Evangelho se torna fermento e luz. Todos podem enxergar o rumo novo trazido pelo caminho que leva à vida plena. Não à toa Paulo lembra que a liberdade surge com Aquele que nos torna livres: “É para a liberdade que Cristo vos libertou” (Gálatas 5,1).

A Páscoa de Jesus sustenta toda sua missão, razão de seu envio pelo Pai. Afinal, Ele nos prova estar acima até da morte. Fundador de religião nenhum é capaz de vencer a morte e dar condição de alguém extrapolar a condição de ser terreno para a vida com o Divino! A superação da morte é o maior desafio humano. Quanta coisa se faz na vida presente! Quanto dinheiro acumulado e, até mesmo diplomas, projeção pessoal, conforto material, projetos mirabolantes, construções intermináveis, mansões construídas, planos de vida para a terra, pensados na vida eterna aqui! Tudo, porém, é passageiro. A morte, a sepultura e a vida presente estão só presentes na dimensão desta história! Com a ressurreição do Mestre, tudo ganha sentido na terra, se for realizado no caminho Dele, o de amor, doação, justiça, oblatividade, misericórdia, perdão e colaboração com a superação de todo mecanismo de morte e exploração do semelhante, principalmente dos mais deixados de lado no convívio social!
Agora em diante, a morte não é a última palavra e sim a vida. Paulo diz: “Quando Cristo, vossa vida, parecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória” (Atos 10, 4). O mesmo apóstolo afirma que seremos semelhantes a Cristo também pela ressurreição (Cf. romanos 6,5). Desta maneira, nossa vida, quando vivida no seguimento ao Filho de Deus, torna-se plenamente realizadora, na certeza de termos o resultado do sacrifício feito para darmos nossa vida pelo bem do semelhante. É como adquirirmos a caução pelo investimento feito em bem de um tesouro para todo o sempre. Já nesta vida somos agraciados pelo bem estar de realizarmos com entusiasmo e alegria nosso trabalho, sabendo do bem que fazemos e do tesouro acumulado com esse resultado. É o mesmo que vivermos uma Páscoa diuturna, realizando a renúncia pelo bem realizado e tendo a certeza da vitória com o resultado conquistado. Nada é motivo de decepção na dinâmica do amor vivenciado, com o esforço da promoção do bem do próximo e da comunidade.
A Páscoa de Jesus nos seja a base para a realização de um projeto de vida novo, com a novidade da certeza da vitória com Ele! Somos estimulados a ajudar os outros a também viverem essa Páscoa para a alegria de todos!
A12, 19-04-2014.
*Dom José Alberto Moura é arcebispo de Montes Claros (MG).
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Páscoa: compromisso com a verdade

Mensagem do Coordenador Nacional  aos agentes da Pastoral Carcerária e aos detentos
São Paulo, 21 abr (SIR) – A Pastoral Carcerária Nacional divulgou este domingo sua mensagem por ocasião da Páscoa. Assinada pelo Coordenador Nacional, Padre Valdir João Silveira, a mensagem se dirige aos agentes da Pastoral Carcerária e aos detentos para, juntos, ”tirar as pedras sobre os túmulos que impedem a libertação, a ressurreição de nossas vidas, para com Cristo e em Cristo surgirmos com o Sol de um novo dia, a Páscoa”.

Eis a íntegra da mensagem:

A festa da Páscoa Cristã nos remete ao tempo de Moisés, há mais de 4 mil anos. Moisés foi escolhido por Deus para libertar o povo hebreu da escravidão no Egito, Para ajudá-lo nesta difícil tarefa: libertar e ajudar os judeus a retornarem à terra natal, Canaã. O fato se tornou um marco para o povo israelense e, a partir desse dia, passou a fazer parte de seu calendário religioso. A Pessach (passagem) celebra a libertação, uma cerimônia que enaltece o conceito da liberdade humana e o respeito entre os povos.

Segundo a bíblia, o próprio Jesus Cristo participou de várias celebrações pascais. Quando tinha 12 anos, foi levado pela primeira vez pelos seus pais, José e Maria, para comemorar a Páscoa, tendo participado sempre nos anos seguintes. A mais famosa participação relatada na bíblia foi a “Última Ceia”, quando Jesus participou da comunhão do corpo e do sangue, simbolizados pelo pão e pelo vinho.

Para os cristãos, a Páscoa é também passagem. Tem como figura central Jesus de Nazaré. Ela celebra a passagem de sua morte para a vida, de sua paixão para a ressurreição, do velho Adão para novo Adão, desse cansado mundo para o novo mundo em Deus, de um mundo injusto de sofrimento para uma sociedade fraterna e solidaria.

Celebrar a Páscoa é reafirmar a nossa fé na ressurreição de Cristo e na própria ressurreição e de todos os nossos projetos de justiça.

A Páscoa é a certeza de que a Vida vence a Morte. A Ressurreição de Jesus Cristo desmascara todos os mecanismos de violência e injustiça da ação humana e revela a face de um Deus que não se detém ante o pecado humano, mas usa de misericórdia, da restauração ao convidá-lo à conversão ao Evangelho da vida plena. A Páscoa nos diz que Cristo sofreu nossas dores, para que ninguém mais precisasse ser condenado, preso e sucumbir diante da tortura, da dor e do sofrimento.

A Páscoa nos convida a ser como Jesus e contribuir com Ele no propósito de salvar o mundo e promover a vida para todas as pessoas. A Páscoa nos alerta para o compromisso com a verdade, a justiça e a misericórdia. Contrariando muitas pessoas que se sentem incomodadas com a justiça do Evangelho, a Justiça que restaura relações com o irmão, com Deus e com a esperança. A Páscoa nos exorta a nos preparar para assumir os riscos do anúncio das Boas-Novas e das denúncias das injustiças, e tomar a nossa cruz, na confiança da presença de Deus sempre conosco. Por mais árdua que sejam as lutas diárias, há certeza de que venceremos com Cristo.

Minha irmã, meu irmão agente de Pastoral Carcerária, minha irmã e meu irmão preso: juntos, vamos tirar as pedras sobre os túmulos, que impedem a libertação, a ressurreição de nossas vidas, para com Cristo e em Cristo surgirmos com o Sol de um novo dia, a Páscoa.

Padre Valdir João Silveira
Coordenador Nacional da Pastoral Carcerária
SIR
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No caminho, nosso coração ardia

A ressurreição é a grande verdade que deve mexer com a nossa vida.
Por Geovane Saraiva*
Somos convidados, neste tempo da Páscoa, a reconhecer e seguir o Senhor ressuscitado, desejosos de um convívio fraterno e de partilha solidária. Ele quer ser presença e caminhar com a humanidade, para revelar o sentido misterioso de sua vida, morte e ressurreição, de modo especial, quer está ao lado dos que passam por situações exigentes e difíceis, dos que estão sem rumo e necessitados. Numa comparação com os discípulos de Emaús, muitas vezes ficamos desiludidos e perplexos, tristes e desanimados, como se a vida não tivesse mais sentido. Mas Cristo, um anônimo e estranho viajante tornou-se companheiro de caminhada. A presença de Jesus causou no coração deles algo diferente, tão forte, a ponto de provocar-lhes uma mudança radical de vida.

A ressurreição é a grande verdade que deve mexer com a nossa vida, assim como sucedeu com as comunidades, no início do cristianismo. É uma mística a invadir toda nossa existência, ao mesmo tempo em que se renova a nossa esperança, trazendo-nos um novo sentido, certos de que, pela graça do ressuscitado, experimentamos a certeza da plenitude em Deus, dom maior da vida humana. O Evangelho dos discípulos de Emaús tem a sua parte central na explicação das Escrituras e no anúncio da ressurreição, pelo próprio Jesus ressuscitado, tornando-se nosso irmão, amigo e companheiro de caminhada, ao revelar o projeto salvífico do nosso Deus e Pai.

Ele, ao ficar conosco, é aquele que comunica e partilha a vida. É aquele que constantemente está do nosso lado, nas alegrias, tristezas e desafios da vida, amando cada pessoa com amor eterno, na sua missão libertadora e redentora. Jesus desceu do céu e veio morar entre nós desejando revelar a vontade do Pai, estabelecendo-se no meio da humanidade. Ele não quer só conversar conosco, mas demonstrar toda a força de seu amor infinito, oferecendo-nos sua amizade e dando-nos sua vida pela nossa realização plena: a salvação.

Eles sentiram a necessidade de retornar para junto dos outros e contar a maravilhosa novidade: O Senhor está vivo! Nós o vimos! Ele nos falou das Escrituras e comeu o pão conosco. Nosso coração ardia pelo caminho (cf. Lc 24,13-35). O coração deles ardia, consumia-se em chamas e inflamava-se de amor, porque ele é eterno e nele está o sentido da vida, causando-lhes profundas motivações. Jesus ressuscitado, o qual os discípulos reconheceram ao partir o pão, quer ficar conosco, abrir nossos olhos e ficar no nosso meio e caminhar com o seu povo.

Emaús hoje é a nossa comunidade, é o nosso dia a dia. Embora, muitas vezes não reconheçamos Jesus nos caminhos da nossa vida e não acreditamos que ele está ao nosso lado, também não acreditamos que ele ressuscitou de verdade. Mas é indispensável um profundo desejo de encontrá-lo, num contexto de desânimo, semelhante ao percurso dos mesmos discípulos. Falar com o Senhor ressuscitado, ouvir falar do Senhor ressuscitado é maravilhoso! Ele quer ser consolo para nossas vidas, força nas nossas dificuldades, luz a iluminar nossos caminhos e, sobretudo, abrir nossos olhos e fazer arder nossos corações. Quando será que o nosso coração irá arder em profundidade com a sua presença?

Que a experiência da Páscoa arda em nossos corações, ao reconhecermos que, verdadeiramente o Senhor ressuscitou! O Papa Francisco disse neste Sábado Santo de 2014: “Cada um de nós também tem uma Galileia, o lugar da redescoberta do nosso batismo, a fonte viva, de onde encontramos a energia, a raiz da nossa fé e da nossa experiência cristã. Galileia significa retorno à Graça de Deus, que nos toca no início do caminho da nossa vida cristã: a experiência do encontro pessoal com Jesus, que nos chama a segui-lo e a participar da sua missão”. O caminho de Emaús, na nossa visão é o mesmo. Que seja ardente o desejo do encontro com o Senhor ressuscitado, não nos cansando de dizer: Fica conosco, Senhor!
* Geovane Saraiva é padre da Arquidiocese de Fortaleza, escritor, membro da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza, da Academia de Letras dos Municípios do Estado Ceará (ALMECE) e Vice-Presidente da Previdência Sacerdotal - Pároco de Santo Afonso. É autor dos livros “O peregrino da Paz”, “Nascido Para as Coisas Maiores”, “A Ternura de um Pastor”, “A Esperança Tem Nome”, "Dom Helder: sonhos e utopias" e "25 Anos sobre Águas Sagradas”.
24/04/2014  |  domtotal.com
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