1 2 3 4
Mostrando postagens com marcador egoísmo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador egoísmo. Mostrar todas as postagens

Lições do caminho

"Onde há inveja e rivalidade, aí estão as desordens e toda espécie de obras más."
Por Dom Alberto Taveira Corrêa*
A escola com a qual Jesus formou seus discípulos acontece ao longo do caminho, aproveitando os encontros com as pessoas e as eventuais falhas e perguntas de seus escolhidos (Mc 9, 30-37). O ambiente é da Galileia, vizinhança do paganismo, lugar provocante e desafiador para todos. Os discípulos tinham sido chamados, em sua maior parte, dentre a população das pequenas aldeias da região, vários deles pescadores curtidos pelo vento, o sol e o trabalho, portadores de muitas esperanças, cultivadas por séculos por todo o povo de Deus. Eram alunos de uma escola, destinados a amadurecerem como discípulos e apóstolos.
O Mestre não quer propaganda, mas convivência respeitosa dos processos vividos pelo seu grupo de aprendizes de apostolado. Era tempo de cuidado especial com aqueles que escolhera. A eles, mais uma vez anuncia Jesus a dura realidade da paixão, morte e ressurreição. Era grande a dificuldade que para entender esta etapa da formação, pois o projeto que traziam na mente era diferente, pela situação de opressão e sofrimento vivida por todo o povo da época. Era, como dizemos hoje, um grande "sufoco" que aguardava uma saída, e eles eram homens do povo, embebidos da mentalidade corrente, que os levava a aguardar um libertador poderoso.
Sinal de que as pretensões incluíam um projeto de poder foi a discussão a respeito de quem era maior. Sabemos que os detalhes incluem um pedido de Tiago e João, acompanhados de uma mãe solícita, mas trazem consigo também o ciúme e a inveja do resto do grupo. Jesus lhes revela os critérios de seu Reino, com palavras diretas: "Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos, aquele que serve a todos" (Mc 9, 35). Era a inversão de tudo o que humanamente desejavam. De lá para cá, os discípulos de Jesus encontrarão sempre a oportunidade para mudar a mentalidade, o que se chama conversão!
"Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles e, abraçando-a, disse: 'Quem acolhe em meu nome uma destas crianças, a mim acolhe. E quem me acolhe, acolhe, não a mim, mas Àquele que me enviou'" (Mc 9, 36-37). O Senhor aponta um novo e revolucionário critério, que inclui crianças, pobres, cegos, coxos e aleijados, surdos e mudos, pecadores, marginalizados em geral, como encontramos em outras etapas da formação dos discípulos.
Não é difícil encontrar as muitas lições a serem colhidas para a escola da vida a ser percorrida em nossos dias. Quando não se vive a Palavra de Deus, quando os critérios são pautados pelo egoísmo, ou a sociedade constrói casas e estradas baseadas na exploração dos mais pobres, com a vergonhosa situação de desigualdade existente em nosso tempo, o resultado não poderia ser outro além do que estamos assistindo. Se muitos dizem que o dinheiro sumiu, é hora de perguntar sobre o seu destino! Se todos mergulharam no engano do consumo proposto nos anos recentes, agora alguém (nós!) deve pagar a conta. Infelizmente não se veem sinais de humildade e reconhecimento das falhas da parte dos responsáveis pela situação de nosso país.
A Liturgia da Igreja nos ofereceu, no último final de semana, palavras muito fortes, vindas da boca e da experiência de um dos apóstolos do Senhor, São Tiago (3, 16-4,3) que parecem escritas para nossos dias: "Onde há inveja e rivalidade, aí estão as desordens e toda espécie de obras más. A sabedoria, porém, que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, modesta, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem fingimento. O fruto da justiça é semeado na paz, para aqueles que promovem a paz. De onde vêm as guerras? De onde vêm as brigas entre vós? Não vêm, precisamente, das paixões que estão em conflito dentro de vós? Cobiçais, mas não conseguis ter. Matais, fomentais inveja, mas não conseguis êxito. Brigais e fazeis guerra, mas não conseguis possuir. E a razão por que não possuís está em que não pedis. Pedis, sim, mas não recebeis, porque pedis mal. Pois o que pedis, só quereis esbanjá-lo nos vossos prazeres".
As crises de toda ordem pelas quais passa nosso mundo foram plantadas pela liberdade humana, com as escolhas feitas no correr do tempo. Quando se planta egoísmo, os frutos não podem ser diferentes dos que estamos colhendo. Quando a sociedade se divide e apenas busca os culpados pelos problemas sempre do outro lado da rua, e não dentro da própria casa, as consequências vão sempre aparecer. Se nos assustam as cenas de centenas de milhares de refugiados que se movimentam hoje pela Europa, com países que precisam urgentemente acolher os mais sofredores, sabemos que os meios de comunicação mostram a cada momento um bem estar que atrai gente de toda parte. Não dá para expor ao mundo inteiro e continuar dizendo que só uns poucos continuam privilegiados. Vai continuar a invasão de povos chegados de outras regiões do mundo, trazendo seus hábitos, sua cultura, suas práticas religiosas! Os resultados vão aparecer nos próximos anos.
Pode soar ingênuo, da parte de nós cristãos, pensar ou dizer que a acirrada competição, em todos os níveis, tem gerado o quadro social de desigualdade terrível em nosso país, mas basta olhar ao redor, para identificar que as lições do caminho, oferecidas por Jesus, foram desprezadas ou esquecidas, em nome de um progresso, cujo nome é consumo, correria, prazer desenfreado, vícios de todos os tipos, liberação das drogas, corrupção deslavada, governantes irresponsáveis, que não assumem os erros cometidos. Pelo visto, a escola foi outra! E não haverá mudanças, senão naquele que é caminho, verdade e vida!
Os cristãos são chamados a acreditar na força de uma minoria feita fermento, sal e luz, e começar de novo, a cada dia! É necessário voltar à Escola de Jesus, aprender o beabá do Evangelho, começar a amar o próximo, escolher o serviço humilde, partilhar os bens, abrir-se à vida da Igreja, voltar à Comunidade Paroquial, retomar a oração diária. Receitas simples? São as lições do caminho, cheias de surpresas positivas!
CNBB 18-09-2015.
*Dom Alberto Taveira Corrêa é arcebispo da Arquidiocese de Belém – PA.
Ler Mais

Os primeiros serão os últimos

Quem acolhe os pequeninos, os mais desvalidos, ao próprio Deus é que acolhe.
Por Marcel Domergue*
Referências bíblicas:
1ª leitura: "Vamos condená-lo a morte vergonhosa..." (Sabedoria 2,12.17-20)
Salmo: Sl 53(54) - R/ É o Senhor quem sustenta a minha vida!
2ª leitura: "O fruto da justiça é semeado na paz, para aqueles que promovem a paz" (Tiago 3,16- 4,3)
Evangelho: "Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos" (Marcos 9,30-37)
A tentação do primeiro lugar
Jesus havia acabado de anunciar que iria ser entregue nas mãos dos homens e que seria morto, crucificado como um malfeitor, como um homem de quem é preciso livrar-se para o bem de todos. O evangelista acrescenta que “os discípulos não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar”. Ora, se temiam interrogá-lo, como de hábito não deixavam de fazer, era sem dúvida porque tinham medo da resposta. Em todo caso, encontravam-se de tal modo nos antípodas do que Jesus acabara de lhes dizer que discutiam sobre quem dentre eles seria o maior. Nem se tratava de saber quem era o melhor, o que seria já bastante pretensioso, mas quem era o primeiro; não é a mesma coisa! Uma manifestação típica da ambição. Mesmo os que, hoje como ontem, deixaram tudo para seguir o Cristo podem ser possuídos por este "demônio". Considerar-se superior, deixar para trás os outros, ocupar o primeiro lugar, num certo domínio ou em todas as coisas. Isto provém no fundo da necessidade de afirmação do próprio valor, do medo de seu próprio vazio, do temor de não estar à altura. A fé é, portanto, o que está em causa: a fé na vida, que é uma forma obscura da fé em Deus. A ambição, pois é disto exatamente que se trata, introduz com facilidade a violência em toda competição. Não esqueçamos que Gênesis 3 apresenta o pecado do homem como a ambição de se fazer "como Deus"; que o primeiro homicídio, o de Abel por Caim, é atribuído à inveja; e que Marcos 15,10 diz que Pilatos compreende ser por inveja que os chefes dos sacerdotes querem a morte de Jesus.
O desejo fundamental
A segunda leitura expressa em termos vigorosos a perversão da ambição. Tiago viu muito bem que os nossos conflitos travados à luz do dia nascem de um conflito que é interior a cada um de nós, entre o nosso desejo de acolher e a nossa vontade de arrebatar. Notemos que nossa ambição por ocupar o primeiro lugar nos deixa a sós conosco mesmo: os outros se tornam de fato simples instrumentos a serem usados para a nossa grandeza. Fechados no círculo do culto ao nosso ego, não sabemos mais que só podemos ser nós mesmos de verdade através da nossa aliança com os outros. Aliança em sentido forte, que nos faz sair das nossas prisões interiores para fazer-nos aceder à semelhança com Deus, que, sendo Um, é Pai, Filho e Espírito, e que se revela a nós como quem se dá, para nos fazer viver. E estamos assim de volta ao anúncio da Paixão, na qual Jesus vai se entregar às nossas cobiças (a "inveja" de Mateus e de Marcos). Ali, ele será "o último de todos" e se fará "servidor de todos", como diz a leitura. Para aí é que nos deve conduzir o nosso desejo profundo, a nossa "ambição", o projeto da nossa existência. Porque não temos outro caminho para nos construirmos à imagem de Deus, ou seja, para existirmos. "O caminho, a verdade e a vida" estão aí, e a este preço. Será que imaginamos poder permanecer em vida fazendo-nos diferentes do Filho, separando-nos da "imagem do Deus invisível"?
Como uma criança
Aqui estamos nós, convidados a voltar sempre ao nosso início, ao estado de não poder nada, exceto acolher o que está por vir, o nosso futuro imprevisível. A voltar, portanto, a um tempo de abertura absoluta. Mas a ambição, na verdade, pode vir a contaminar o nosso desejo: o joio pode crescer misturado à boa semente. Não podemos confundir infância e inocência. O fato é que a criança é o ser humano em sua abertura; ela é, em sua incompletude, o acolhimento ao que vem. Tem a vida toda pela frente. E, para isso, é preciso contar com um fundo de esperança, com a confiança no futuro, mesmo que esta confiança permaneça escondida abaixo da consciência. É esta a fonte da alegria de viver das crianças. A confiança na vida que está por vir passa pela fé, pela abertura confiante em relação às pessoas que estão ao redor da criança, os pais em primeiro lugar, é claro. A criança é antes de tudo filha ou filho de uma mulher e um homem que foram o caminho da ação criadora de Deus. Mas aqui, segundo Marcos, Jesus não está falando da necessidade de que voltemos à abertura e à confiança da nossa infância. Aqui ele nos convida a que, em seu nome, recebamos o mais pobre, o mais desvalido, aquele que nada tem e que, por isso, só pode contar com os outros. Acolher estas pessoas é acolhê-lo, a ele mesmo, e, enfim, acolher o próprio Deus. Deus -e isto nos foi revelado, manifestado no que Cristo viveu - entregou-se em nossas mãos. Tendo nós em vista foi que Deus se fez a si mesmo criança nossa. Entregou-se totalmente à nossa dependência e temos o poder de aceitá-lo ou de recusá-lo.
Sítio Croire 18-09-2015.
*Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês.
20/09/2015  |  domtotal.com
Ler Mais

Papa Francisco em Cuba: Servir os demais e não servir-se dos demais

HAVANA, 20 Set. 15 / 05:50 pm (ACI).- O Papa Francisco presidiu sua primeira Missa em Cuba ante centenas de milhares de pessoas reunidas na Praça da Revolução (Plaza de la Revolución) de Havana. Em sua homilia refletiu sobre o sentido do serviço cristão e recordou que não ninguém serve uma ideia e sim pessoas e só aquele que serve pode chegar a “ser grande”.
Na presença de diversos chefes de estado e acompanhado de uma grande quantidade de bispos cubanos, Estados Unidos e de outros países, o Santo Padre meditou sobre a passagem do Evangelho no qual os discípulos discutem sobre quem é o mais importante.
“Não podemos escapar desta pergunta, está gravada no coração. Recordo mais de uma vez em reuniões familiares pais que perguntam aos filhos: De quem você gosta mais, do papai ou da mamãe? É como perguntar: Quem é mais importante para você (...). A história da humanidade esteve marcada pelo modo de como se responde a esta pergunta”, disse o Papa.
O Pontífice chegou à Praça da Revolução meia hora antes do início da Missa para saudar e compartilhar alguns momentos com os assistentes. Durante a Eucaristia, deu a Primeira Comunhão a cinco meninos cubanos.
Para que o dia a dia “tenha certo sabor a eternidade”, prosseguiu o Papa, é importante ter em conta o que diz o Senhor: “«Quem quer ser o primeiro, o mais importante, que seja o último de todos e o servidor de todos». Quem quer ser grande, que sirva outros, não se sirva dos outros”.
“Longe de qualquer tipo de elitismo, Jesus não propõe um horizonte para poucos privilegiados, capazes de chegar ao «conhecimento desejado» ou a altos níveis de espiritualidade. O horizonte de Jesus é sempre uma proposta para a vida diária, mesmo aqui na «nossa ilha»; uma proposta que faz com que o dia a dia tenha sempre o sabor da eternidade”.
“Quem é o mais importante? Jesus é simples na sua resposta: «Se alguém quiser ser o primeiro, há de ser o último de todos e o servo de todos» (Mc 9, 35). Quem quiser ser grande, sirva os outros e não se sirva dos outros”, ensinou o Papa.
“Aqui temos o grande paradoxo de Jesus. Os discípulos discutiam sobre quem deveria ocupar o lugar mais importante, quem seria selecionado como o privilegiado, quem seria isento da lei comum, da norma geral, para se pôr em evidência com um desejo de superioridade sobre os demais. Quem subiria mais rapidamente, ocupando os cargos que dariam certas vantagens. Jesus transtorna a sua lógica, dizendo-lhes simplesmente que a vida autêntica se vive no compromisso concreto com o próximo”, afirmou o Pontífice aos milhares de presentes na capital cubana.
O Papa Francisco explicou que servir significa “cuidar dos frágeis das nossas famílias, da nossa sociedade, do nosso povo. São os rostos sofredores, indefesos e angustiados que Jesus nos propõe olhar e convida concretamente a amar. Amor que se concretiza em ações e decisões. Amor que se manifesta nas diferentes tarefas que somos chamados, como cidadãos, a realizar. As pessoas de carne e osso, com a sua vida, a sua história e especialmente com a sua fragilidade, são aquelas que Jesus nos convida a defender, assistir, servir. Porque ser cristão comporta servir a dignidade dos irmãos, lutar pela dignidade dos irmãos e viver para a dignificação dos irmãos. Por isso, à vista concreta dos mais frágeis, o cristão é sempre convidado a pôr de lado as suas exigências, expectativas, desejos de onipotência”.
Não servir-se “de outros”
Francisco advertiu logo sobre um tipo de serviço que não é o do Jesus: “Há um «serviço» que serve; mas devemos guardar-nos do outro serviço, da tentação do «serviço» que «se» serve. Há uma forma de exercer o serviço cujo interesse é beneficiar os «meus», em nome do «nosso». Este serviço deixa sempre os «teus» de fora, gerando uma dinâmica de exclusão”.
Seguindo o Santo Padreo, “todos estamos chamados, por vocação cristã, ao serviço que serve e a ajudar-nos mutuamente a não cair nas tentações do «serviço que que se serve». Todos somos convidados, encorajados por Jesus a cuidar uns dos outros por amor. E isto sem olhar em redor, para ver o que o vizinho faz ou deixou de fazer. Jesus diz: «Se alguém quiser ser o primeiro, há-de ser o último de todos e o servo de todos» (Mc 9, 35). Não diz: Se o teu vizinho quiser ser o primeiro, que sirva. Devemos evitar os juízos temerários e animar-nos a crer no olhar transformador a que Jesus nos convida”.
“Este cuidar por amor não se reduz a uma atitude de servilismo; simplesmente põe, no centro do caso, o irmão: o serviço fixa sempre o rosto do irmão, toca a sua carne, sente a sua proximidade e, em alguns casos, até «padece» com ela e procura a sua promoção. Por isso, o serviço nunca é ideológico, dado que não servimos a ideias, mas a pessoas”, pontuou.
Falando sobre os cubanos, Francisco destacou: “é um povo que ama a festa, a amizade, as coisas belas. É um povo que caminha, que canta e louva. É um povo que, apesar das feridas que tem como qualquer povo, sabe abrir os braços, caminhar com esperança, porque se sente chamado para a grandeza. Hoje convido-vos a cuidar desta vocação, a cuidar destes dons que Deus vos deu, mas sobretudo quero convidar-vos a cuidar e servir, de modo especial, a fragilidade dos vossos irmãos.
“Não os transcureis por causa de projetos que podem parecer sedutores, mas desinteressam-se do rosto de quem está ao teu lado. Nós conhecemos, somos testemunhas da «força imparável» da ressurreição, que «produz por toda a parte, gerando rebentos de um mundo novo» (EG, 276.278)”.
“Não nos esqueçamos da Boa Notícia de hoje: a importância dum povo, duma nação, a importância duma pessoa sempre se baseia no modo como serve a fragilidade dos seus irmãos. Nisto, encontramos um dos frutos da verdadeira humanidade”.
acidigital
Ler Mais

O cuidado com a Terra

                                   “Feliz de quem atravessa a vida tendo mil razões para viver”.
Por Dom Murilo S.R. Krieger*
“Dominai a terra!” (Gn 1,28). Com essa ordem do Senhor, dada ao homem e à mulher, começava uma nova etapa na história do universo. Essa etapa deveria ser marcada pela paz, ter como característica o trabalho e ser envolvida por um relacionamento que, séculos mais tarde, Jesus explicitaria em suas pregações.
Conhecemos a resposta que a humanidade deu ao Criador: autossuficiência e desobediência. Esse comportamento está bem sintetizado no episódio da Torre de Babel. Ao plano de Deus, os seres humanos responderam com um outro, marcado pela ambição: “Vamos construir para nós uma cidade e uma torre que chegue até o céu. Assim ficaremos famosos” (Gn 11,4).
Curioso, o ser humano! Convidado a colaborar na construção do mundo, respondeu com uma manifestação marcada pelo orgulho e pela vaidade. Deus, contudo, não deixou de amar seus filhos e continuou confiando neles, respeitando a liberdade que Ele próprio lhes dera. Tanto continuamos livres que, ainda hoje, temos o poder de construir novas “torres de Babel”.
Olhemos nossas cidades. Elas, que deveriam ser um espaço de fraternidade, um campo para colocarmos em prática sentimentos marcados pela solidariedade e uma grande casa para a família dos filhos de Deus, transformaram-se em centros de ganância, de lucro e de egoísmo. É essa a crítica que o Papa Francisco faz em sua encíclica "Laudato si", "sobre o cuidado da casa comum": nossa irmã terra "clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou".
Coloquemo-nos no lugar de um estrangeiro que nos visitasse. Desejoso de conhecer as cidades das quais tanto nos orgulhamos, sairia por suas ruas e praças, entraria em prédios e favelas, relacionar-se-ia com pessoas estudadas e analfabetas, com ricos e pobres. No fim, o que constataria? Talvez comprovasse que palavras como amizade, solidariedade e fraternidade fazem parte de nosso vocabulário, mas nem sempre estão presentes em nossa realidade.
Essa realidade impõe um grande desafio para todos: ser "pastores". A palavra "pastor" lembra o trabalho daquele que congrega as ovelhas, as une, aproxima-se delas, cuida das que estão feridas e preocupa-se com as que se perdem. O pastor não aceita ficar indiferente diante do sofrimento e das incertezas vividos por pessoas que sofrem de solidão, estão desiludidas, desempregadas, sem casa ou sem emprego – e, pior, sem esperança.
A solução para nossos problemas não é fácil. Não existe uma varinha mágica que faça a sociedade superar, de um momento para outro, erros praticados durante décadas ou, mesmo, séculos. Sem a colaboração de toda a sociedade (destaco o papel das organizações não governamentais) e uma firme decisão dos que nos governam (a começar pela de serem eficientes e honestos), nossos problemas só se multiplicarão. Há todo um sistema de vida que precisa ser revisto; há todo um modelo de sociedade que necessita ser reformulado.
Para não construirmos uma nova Torre de Babel, só há uma solução: falarmos a mesma língua – a do amor. Seremos capazes, então, de olhar para nossos problemas e julgá-los com o olhar do Criador, que deu o mundo para todos os seus filhos e não apenas para um pequeno grupo. O próximo passo consistirá em multiplicarmos iniciativas para ajudar os que socialmente nada são e nada têm, uma vez que, sozinhos, eles não conseguirão sair da situação em que se encontram. Depois, procuraremos "unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral" (Papa Francisco).
São metas ambiciosas, é verdade. Mas, como lembrava Dom Helder Câmara, “Feliz de quem atravessa a vida tendo mil razões para viver”.
CNBB 27-08-2015.
*Dom Murilo S.R. Krieger é arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil.
Ler Mais

A sinistra poesia do balé da morte

                          Imagem lembra as estrelas que se vêem na bandeira da União Européia.
Nesses mares revoltos nossa hipocrisia atingiu as águas mais profundas.
Por Ricardo Soares*
Em um planeta todos os dias bombardeado por milhões de imagens que vem de todos os lados fica difícil comentar as mais impactantes, ou mesmo refletir sobre elas, dada a velocidade com que nascem e morrem nos dias seguintes. Apesar disso, quero aqui puxar pela memória do leitor e comentar a imagem que mais me impressionou, sobre a mais recente onda de mortes de imigrantes nas águas do Mediterrâneo.
Não estou falando das imagens das muitas crianças mortas que chegaram afogadas à praia. com suas expressões entre a serenidade e a estupefação. Não estou falando dos restos de barcos toscos, de comida, de objetos que flutuam revelando serem inúteis partes desimportantes de vidas dadas como desimportantes. A imagem que mais me entristeceu e chocou na semana passada foi uma tomada de cima. onde uma dúzia de afogados formavam um círculo perfeito, boiando sobre as águas escuras do mar que os matou. Ao centro desse circulo dois ou três objetos como pontinhos de uma foto-pintura absolutamente surreal, que não seria imaginada nem na gótica mente de um Bosch contemporâneo. A sinistra poesia de um balé da morte.
O horror dessa foto paradoxalmente revela uma beleza macabra de composição, que atenua a nossa percepção do quanto aquilo é desumano, absurdo, impensável num mundo civilizado. E mais surreal ainda que esse amontoado de cadáveres em círculo de imigrantes afogados lembre tristemente as estrelas que se vêem na bandeira da União Européia.
Escrever sobre uma imagem amplamente difundida talvez seja inócuo ou dispensável. Muita gente viu. Mas não consigo pensar e nem escrever hoje sobre outra coisa diante da indiferença mundial diante dessa imagem de raro impacto poético. Imagem que representa uma indiferença abissal que temos diante desses milhares à deriva pelos mares do mundo, levados como peixe podre até as praias dos países tubarões, que, na verdade, fabricaram a secular tragédia do colonialismo, origem, ovo da serpente de toda essa tragédia que se dá na costa européia. São humanos como todos nós esses que perecem. Mas ao vê-los assim de cima, mortos à deriva, não se parecem com nada que seja humano. O desumano ao qual são submetidos os transforma em máscaras de horror, para as quais o cinismo do mundo “civilizado” não quer nem olhar. Nesses mares revoltos nossa hipocrisia atingiu as águas mais profundas.
*Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Autor de 7 livros foi cronista dos jornais “O Estado de S.Paulo”, “Jornal da Tarde”, “Diário do Grande Abc” e da revista “Rolling Stone”.
31/08/2015  |  domtotal.com
Ler Mais

Um grande sinal

Por Dom Paulo Mendes Peixoto*
O mundo tem suas marcas, seus sinais, como sinais dos tempos, que precisam ser bem entendidos e interpretados. No Apocalipse fala de um “grande sinal” que apareceu no céu. Sinal sem identidade, chamado apenas de “mulher”. Ela é adornada pelos astros e como figura central de toda criação. Aparece também a figura de um “dragão”, adornado pelo poder humano, simbolizando as forças da terra (Ap 11.12).
O momento brasileiro parece apontar, através de fatos e sinais, para grandes dificuldades na economia, na política, nas questões sociais e religiosas. Os escândalos públicos evidenciam uma insatisfação na população, sinal de que as coisas não vão bem. Há uma insegurança em relação à política e aos políticos, política que se transforma em politicagem e cabido de emprego para os carreiristas.
Falta um sinal concreto que seja capaz de levantar a autoestima do brasileiro. Estamos vivendo uma crise de lideranças comprometidas com o povo, e confiáveis. Será que essas pessoas não nasceram, ou se existem, foram contaminadas pelo clima de secularização antiética e amoral em relação à condição e administração da coisa pública?
O sinal de Deus vem sendo muito esquecido, a não ser nos momentos de extrema necessidade. O mal domina o coração e a mente de muita gente. O que pensa a juventude de hoje? Que idealismo de futuro domina seu pensamento? Agosto, para os católicos, é mês vocacional, convite aos jovens para refletir sua realização de vida, passando por compromisso sério consigo mesmos.
Não podemos nos conformar com esperanças vãs, porque nossa fé não é inútil. Deus é segurança e firmeza para quem O procura com sinceridade. Ele é o grande sinal de vida plena e feliz. Fé transformada em gestos concretos de amor e de caridade para com o próximo mais necessitado.
Na Igreja temos os religiosos e as religiosas, como sinais na sociedade, pessoas que se apresentam comprometidas com uma causa voltada para a construção de um mundo melhor. Deixaram tudo para terem tudo. Chamamos a isso de vocação, de escolha de vida de doação à causa do Reino de Deus.
CNBB 11-08-2015.
*Dom Paulo Mendes Peixoto é arcebispo de Uberaba (MG).
Ler Mais

Maná

Por Dom José Alberto Moura*
Enquanto muitos vivem na opulência, outros na miséria. O ser humano sempre tende a buscar o necessário para viver dignamente. Uns conseguem honesta ou desonestamente. Outros não têm oportunidade para isso, apesar da suficiente comida e meios de sobrevivência que os fazem ter o bem estar suficiente na vida.
Os antigos judeus, na caminhada do deserto rumo à terra prometida, clamavam por alimento. Deus fez chover o maná para alimentá-los em todo percurso, que durou quarenta anos (Cf. Êxodo 16,215).
No tempo da caminhada humana na terra, para muitos é como caminhar no deserto. Falta tudo. É preciso acontecer milagre para sobreviverem e conseguirem ser tratados como pessoas humanas. O desafio é grande. Existem alimentos para todos, bem como o fruto do desenvolvimento econômico, cultural, científico e tecnológico. Como distribuir isso para todos terem acesso ao que lhes cabe de direito por viverem no planeta que Deus criou para cada um? É verdade que Deus faz prodígios em benefício da humanidade, criada à sua imagem e semelhança. Isso significa: Ele criou e cuida de tudo. O ser humano recebeu a incumbência de cuidar deste planeta, com amor e solidariedade. O Criador faz a própria parte, mas não faz o que nos compete, por valorizar-nos. Se fizermos o dever de casa seremos recompensados já na terra e um dia na eternidade. Ao contrário, não teremos parte com Ele. Muitos levam uma vida “folgada” e já recebem aqui sua recompensa. No dia do julgamento veremos o efeito disso!
Deus faz milagres, mas nos dá a incumbência de também o fazemos. Isso acontece com abertura de amor e solidariedade em relação ao semelhante. Na disponibilidade para servirmos a comunidade com os dons recebidos, fazemos de nosso convívio um ambiente de harmonia, compaixão, misericórdia, promoção dos deixados de lado, inclusão social, usando a política para o real serviço ao bem comum, com superação da desonestidade e da trapaça. Teremos mais justiça e mútuo apoio. Afinal estamos no mesmo barco da vida. É preciso torná-lo bom e seguro para todos. O maná da sustentabilidade da vida digna vai acontecendo. Todos terão vida adequada à sua realização humana.
Jesus promete o verdadeiro pão, que dá vida plena. Institui até a Eucaristia. Dá tudo de si para termos a realidade da vida presente como caução da vida futura: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim numa mais terá sede” (João 6,35). Ele não se cansa de admoestar-nos para segui-Lo, fazendo o que Ele fez e nos ensina e praticá-lo. Por isso, se também dermos de nós em bem do próximo nos enchemos da vitalidade do amor dele e teremos uma convivência de mútua doação. Acontece o milagre da multiplicação do maná que alimenta a todos de dignidade e altivez humana!
O apóstolo Paulo admoesta-nos para modificarmos nossa conduta, vivendo como pessoas novas, superando a maldade e convertendo-nos para sermos pessoas que vivem conforme a imagem de Deus, em justiça e santidade (Cf. Efésios 4,22-24). Dessa forma, somos capazes de transformar nosso relacionamento social para sermos pessoas do bem, que produzem meios de sustentabilidade ética e humana para a comunidade. Produz-se, então, o que alimenta a vida de fraternidade.
CNBB 30-07-2015.
*Dom José Alberto Moura é arcebispo de Montes Claros (MG).
Ler Mais

Em encíclica, Francisco põe desafio a ricos

                     Ao contrário dos antecessores, papa fala e escreve a partir da experiência.
Uma medida da importância e do potencial de influência que possui a encíclica do papa Francisco sobre o meio ambiente, Laudato Si’, é a amplitude das reações contrárias a ela que vieram à tona nos Estados Unidos bem como a rapidez com que tais respostas negativas ocorreram, algumas tendo sido feitas antes mesmo de seu lançamento. Esta encíclica, mais do que qualquer outra nas últimas décadas, atinge o cerne da forma como nós, nos países desenvolvidos, vivemos às custas do – e nos relacionamos com o – resto do planeta.
As reações clássicas de políticos como Jeb Bush (“as opções dele na política e na economia não derivam dos ensinamentos do papa”) e Rick Santorum (“o papa deve evitar temas como o ambiente”) foram atrevidas deste o início nos meios noticiosos adiantados. Mas as observações deles, assim como outras nos noticiários de hoje, irão desaparecer tão rapidamente quanto o orvalho no deserto.
O desafio a longo prazo virá de pessoas com interesses imediatos no embate: os institutos dos ricos e grupos de reflexão (“think tanks”), alguns deles abertamente católicos ou cristãos (pensemos nos grupos Acton, Napa, Ethics and Public Policy, entre outros), e os interesses especiais obstinadamente dedicados a manter o cristianismo vinculado aos interesses econômicos e políticos internacionais dos EUA. Vai ser interessante acompanhar como os estudiosos nas faculdades católicas de negócios, nutridas pelo dinheiro dos irmãos Koch, lidarão com a crítica papal das culturas voltadas ao consumo e das sociedades do descarte.
Pode haver muitas maneiras nas quais os Estados Unidos, historicamente e no presente, constituem um país excepcional, mas nem todas essas maneiras são motivo de orgulho. Francisco está pedindo para sermos maduros o suficiente a ponto de olharmos, sem piscar, para o lado escuro da cultura: para o lado explorador que desde o início, por exemplo, via o hemisfério sul como o nosso “quintal”, com tudo o que esta frase implica em termos de propriedade e direito de fazer o que quisermos.
Alguns já tentaram diminuir o efeito do ensinamento de Francisco em questões econômicas e ambientais, recordando as suas origens argentinas, implicando de certa forma que ele possivelmente não compreenderia os mundos complexos da economia dos EUA e do comércio internacional.
A verdade é que, ao contrário de seus antecessores, que fizeram estas mesmas críticas ao capitalismo desenfreado e à crescente disparidade entre ricos e pobres no mundo, Francisco fala e escreve a partir da experiência. A sua mais recente formação – e ela, aparentemente, teve um grande impacto – veio na forma de anos vividos entre os mais pobres da Terra, aqueles deixados do lado de fora pela economia global e por uma política brutal.
Laudato Si’ confronta a ética do Primeiro Mundo em seus pressupostos fundamentais sobre o direito aos recursos e à mão de obra barata com a crença fundacional de que os lucros continuam a ser o principal e, às vezes, o único critério para o sucesso. Laudato Si’ desafia o estado atual da nossa política americana e a ascensão do individualismo extremo que subjaz algumas das forças políticas mais ativas da esquerda e da direita. A frase “bem comum”, amplamente ausente do discurso político deste país nas últimas décadas, aparece 31 vezes na tradução inglesa do texto.
Assim como Rerum Novarum, na chegada do século XX, marcou o início de uma nova era do ensino social católico, Laudato Si’ busca, para o século XXI, nada menos do que uma grande mudança na ordem social, e convida a comunidade católica a assumir a liderança. Esta encíclica é um convite à justiça que chega, inquietante como é, na soleira da porta dos ricos do Norte global. Não há como evitá-la. Laudato Si’ chegou para ficar.
National Catholic Reporter, 08-07-2015. 14/07/2015  |  domtotal.com
Ler Mais

O mundo da Copa

Por Dom Demétrio Valentini*
Enquanto a bola continua rolando, a cabeça vai fervendo. Sobretudo conferindo a diversidade de países representados nesta competição esportiva. A copa do mundo faz pensar no mundo da copa.

Não há dúvidas que o evento é muito significativo. Mas ele não se furta a questionamentos, que certamente terão o seu espaço maior depois que a copa terminar.

Emergem, sobretudo, questões que interpelam o país que sedia a copa do mundo. Elas requerem tempo para serem bem assimiladas. Para o Brasil, a copa vai continuar, seja qual for seu resultado esportivo.

Um evento com estas dimensões tem, em primeiro lugar, uma dimensão universal. Não por nada, ele se identifica em relação com o mundo. É uma “copa do mundo”.

Neste sentido, uma primeira constatação se refere à representatividade dos países que se classificaram para esta competição. Pois não devemos esquecer que este momento final é precedido das eliminatórias, que levam este nome pesado e negativo. Poderiam ser chamadas de “classificatórias”.

Pois bem, neste sentido, a copa do mundo ainda não é bem de todo o mundo. Muitos países acabaram sendo eliminados no período preparatório.

Ressalvado este fato, nota-se que ainda existe um desequilíbrio estrutural de representatividade, que deveria ser corrigido.  Salta aos olhos, por exemplo, a desproporção entre a Europa, que conta com treze participantes, e a Ásia, que conta só com três:  Japão, Coréia do Sul e Irã!

Mas o olhar geográfico ainda é superficial.  O verdadeiro desafio que a copa do mundo apresenta, não é explicitado pela competição. Por trás dos vistosos uniformes, se escondem pesadas realidades. Ficam ocultas, confinadas dentro de cada país. Deveriam ser postas à mesa, para serem assumidas solidariamente, como parte de um mesmo mundo que interessa a todos.
O esporte aponta ainda com muita timidez para estas situações. Elas contam, sobretudo, com uma cumplicidade difusa de governantes e de governados. O mundo ainda anão é assumido solidariamente por todos.

As estatísticas garantem que existem perto de um bilhão de famintos, que poderiam ser alimentados com as sobras descartadas nas mesas dos que gozam de fartura. Em alguns países, sobretudo da África, a fome dizima milhões de pessoas, sobretudo crianças. Não há crise de alimentos. Há falta de solidariedade. Os estoques existentes seriam suficientes para garantir alimentação para toda a humanidade.

Mas existe uma outra realidade intrigante, que não é colocada às claras. Em entrevista ao jornalista espanhol Henrique Cymerman, o Papa Francisco levantou uma questão muito séria, e que não está sendo devidamente enfrentada.

Trata-se de assassinatos por motivos religiosos, praticados por fundamentalistas de diversas facções, existentes em alguns países da África e da Ásia. O Papa chamou a atenção para as estatísticas, que trazem uma comparação histórica muito provocativa. O número de cristãos mortos em nosso tempo por extremistas muçulmanos já supera o número de “mártires” dos primeiros séculos, sob a perseguição do império romano!

É certamente salutar vivermos momentos de congraçamento esportivo, que veste ao menos as aparências da fraternidade universal. Mas é urgente que esta fraternidade se torne efetiva, pela superação da violência, pela erradicação do ódio, e pela supressão das injustiças.

Então o esporte se tornará uma escola de convivência fraterna entre povos e nações. E a Copa será mesmo de todo o mundo!
CNBB, 20-06-2014.
*Dom Demétrio Valentini é bispo de Jales (SP).
Ler Mais

Vergonha de ser humano

Se a dinâmica econômica continuar sufocando a Terra, civilização caminhará para o suicídio.
Por José Eustáquio Diniz Alves

A ONU estabeleceu o dia 05 de junho como data comemorativa do MEIO AMBIENTE. Entre os objetivos das comemorações estão: “a) Mostrar o lado humano das questões ambientais; b) Capacitar as pessoas a se tornarem agentes ativos do desenvolvimento sustentável; c) Promover a compreensão de que é fundamental que comunidades e indivíduos mudem atitudes em relação ao uso dos recursos e das questões ambientais; d) Advogar parcerias para garantir que todas as nações e povos desfrutem um futuro mais seguro e mais próspero”. O Dia Mundial do Meio Ambiente foi estabelecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1972, marcando a abertura da Conferência de Estocolmo sobre Ambiente Humano.

Mas nos últimos 42 anos, enquanto os indicadores humanos melhoraram (a despeito das desigualdades sociais), a situação ambiental na Terra piorou e pode estar caminhando para um colapso, caso não haja uma mudança de rumo. O homo sapiens surgiu a cerca de 200 mil anos na África e se espalhou por todos os cantos do Planeta. Na medida em que o número de indivíduos da espécie crescia e as atividades antrópicas aumentavam o grau de dominação e exploração da natureza, a biodiversidade e as áreas selvagens do mundo caminhavam em sentido contrário, perdendo espaço e direitos enquanto as civilizações humanas foram se tornando onipresentes em um meio ambiente degradado.

As áreas de florestas foram as primeiras a sofrerem com a demanda humana por madeira, lenha e espaço para a agricultura e a pecuária. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o ritmo do desmatamento, devido ao uso de áreas florestais para fins agrícolas, foi de 14,5 milhões de hectares por ano entre 1990 e 2005. Entre 2005 e 2010 o ritmo de destruição foi um pouco menor, sendo que o planeta perdeu, em média, 4,9 milhões de hectares de floresta por ano no período. Mas isto significou 10 hectares de desmatamento por minuto.

A destruição dos habitats tem provocado a extinção de algo entre 10 a 30 mil espécies por ano. Centenas de rinocerontes são abatidos covardemente todos os anos para fomentar o comércio apenas do chifre, cujo preço no mercado negro vale mais que o ouro, chegando a 50.000 euros por quilo. Os criminosos cortam os chifres dos animais e vendem como remédio para diversos tipos de doença ou como porções afrodisíacas na China e no Sudeste Asiático. Milhares de elefantes são mortos cruelmente todos os anos para que alguns poucos humanos possam lucrar com o comércio de marfim e outros tantos humanos possam lucrar com a compra e venda de joias e objetos de decoração fabricados a partir das presas e do sacrifício de um dos animais mais fantásticos do Planeta. Os Tigres, os Leões, as Onças, os Gorilas e tanto outros animais que vivem na Terra muito antes do homo sapiens estão ameaçados de extinção.

Para alimentar uma população crescente de seres humanos mais de 60 bilhões de animais terrestres são mortos todos os anos e a escravidão animal é responsável pelo confinamento de 19 bilhões de galinhas, 1,4 bilhão de bovinos, 1 bilhão de porcos, 1 bilhão de ovelhas e um número considerável de cabritos, búfalos, coelhos, capivaras, javalis, avestruzes, gansos, perus, patos, etc., segundo dados da FAO. O sofrimento imposto às outras espécies é imenso. Além disto, o boi e a vaca, por exemplo, são animais ruminantes cujo processo digestivo provoca uma fermentação que faz o animal liberar muito gás metano. O metano é o segundo gás que mais contribui para o efeito estufa, sendo 21 vezes mais poluente do que o gás carbônico (CO2). Cada animal bovino adulto libera cerca de 56 quilos de metano por ano. Portanto, os 1,4 bilhão de bois e vacas do mundo liberam algo em torno de 78 milhões de toneladas de metano por ano, o que é uma contribuição significativa para o aquecimento global.

Enquanto a pecuária amplia o domínio sobre a vida animal, a agricultura também desmata e revolve as terras, ampliando o uso de fertilizantes e agrotóxicos. Especies invasoras substituem a vegetação original. O CO2, o nitrogênio, o fósforo, o potássio e o zinco, além de diversos produtos químicos, são importantes elementos utilizados para aumentar a produtividade agrícola, mas criam uma rede de poluição que provoca a degradação do solo, a perda de qualidade do ar e da água e a extinção de espécies. O uso dos agrotóxicos neonicotinóides tem provocado a morte das abelhas e o fenômeno caracterizado como Síndrome do Colapso das Colmeias. Tudo isto vai reverter em perda de segurança alimentar. O mau uso do solo provoca erosão, salinização e desertificação, enquanto áreas férteis e produtivas diminuem, cedendo espaço para os aterros sanitários receberem o crescente volume de lixo e resíduos sólidos.

Os rios foram desviados, represados, assoreados e degradados. A poluição dos rios reduz a disponibilidade de água doce, diminui o oxigênio e provoca a mortandade de peixes. Cachoeiras e belezas naturais, como Sete Quedas, em Guaíra no Paraná, foram inundadas por represas hidrelétricas. Lagos, como o mar da Aral estão diminuindo ou secando para atender aos interesses da irrigação. Dois bilhões e meio de pessoas vivem sem saneamento básico e jogam seus esgotos diretamente em rios ou lagoas. A contaminação química e os agrotóxicos matam indiscriminadamente a vida terrestre e aquática. Diversos rios e lagos do globo estão sendo destruídos, contaminados ou desviados para diversos usos. O rio Colorado nos Estados Unidos não chega mais ao mar porque suas águas são consumidas antes. Os rios da China estão sendo represados e poluídos, gerando um conflito hidropolítico com a Índia, Paquistão, Bangladesh e Vietnã.

Aquíferos fósseis estão desaparecendo e os aquíferos renováveis não estão conseguindo manter os níveis de reposição dos estoques, reduzindo a capacidade de carga. Segundo reportagem do jornal indiano Economic Times (ET), há cerca de 50 anos, no norte da Gujurat, os agricultores obtinham água dos poços escavados numa profundidade de 30 a 40 pés. Agora os poços tubulares estão indo até 1.300 pés. Mesmo assim, está difícil a extração de água, pois não há recarga suficiente dos aquíferos. Metade do abastecimento de água da Índia em áreas rurais (onde vivem 70% da população do país) está contaminada por bactérias tóxicas. Portanto, a maior parte da Índia rural está sob estresse hídrico, afetando as vidas humanas e não humanas. A cidade de São Paulo, que “não podia parar”, agora tem que reduzir as atividades e o consumo de água.

A maioria da sujeira dos solos e dos rios corre para o mar. Assim, os oceanos do mundo estão se tornando mais ácidos em consequência da poluição dos rios e da absorção de 26% do dióxido de carbono emitido na atmosfera, afetando tanto as cadeias alimentares marinhas quanto a resiliência dos recifes de corais. Se a acidificação dos oceanos continuar, é provável que haja alterações nas cadeias alimentares bem como impactos diretos e indiretos sobre diversas espécies. A sobrepesca fez com que 85% de todos os estoques de peixes fossem atualmente classificados como sobre-explorados, esgotados, em recuperação ou totalmente explorados, uma situação substancialmente pior do que há duas décadas.

O aumento das emissões de gases de efeito estufa está provocando o aquecimento global, tendo como consequência o derretimento das geleiras e das camadas de gelo, provocando escassez de água potável e o aumento do nível dos oceanos. Os últimos dados mostram que a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera ficou durante todo o mês de abril de 2014 acima das 400 partes por milhão (ppm), algo que não acontecia há pelo menos 800 mil anos. A constatação foi anunciada pelo Instituto Scripps de Oceanografia, da Universidade de San Diego, que monitora a estação de Mauna Loa, no Havaí. Segundo as medições, a concentração média de CO2 em abril foi de 401,33 ppm. E a curva continua sua trajetória ascendente rumo a um ponto de não retorno.

Como consequência, a elevação do nível do mar ameaça a existência de países como Tuvalu e pode alagar áreas densamente povoadas. Dois estudos da NASA, de maio de 2014, mostram que a contração das geleiras na Antártida ocidental se tornou irreversível. A humanidade ultrapassou um patamar crítico. Somente a geleira Pine Island, no oeste da Antártida, é responsável por 20% do total de gelo da parte ocidental do continente e já iniciou um processo irreversível de colapso.

A elevação do nível do mar já prejudica os deltas dos principais rios do mundo. Artigo de James Syvitski e co-autores, “Naufrágio dos deltas devido às atividades humanas” (Sinking deltas due to human activities), publicado na Revista Nature Geoscience, em 2009, mostra como o delta de vários rios importantes do mundo estão afundando devido às atividades antrópicas, com perdas de áreas férteis. Diversos animais e plantas, assim como inúmeros ecossistemas vão sofrer com o aquecimento global, as mudanças climáticas e suas consequências. Evidentemente muitas espécies vão se adaptar à nova realidade climática, mas diversas outras vão desaparecer em decorrência da expansão humana e dos resultados negativos das atividades antrópicas.

A humanidade ocupa cada vez mais espaço no Planeta e tem investido de maneira predatória contra todas as formas de vida ecossistêmicas da Terra. O ser humano está reincidindo, de maneira recorrente, nos crimes do especismo e do ecocídio. Se a dinâmica demográfica e econômica continuar sufocando a dinâmica biológica e ecológica a civilização caminhará para o abismo e o suicídio. Porém, antes de o antropoceno provocar uma extinção em massa da vida na Terra é preciso uma ação radical no sentido conter a ganância egoística e garantir a saúde do meio ambiente. Senão teremos vergonha de sermos seres humanos.
EcoDebate, 04-06-2014.
*é doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE.
05/06/2014  |  domtotal.com
Ler Mais

O dever cristão de proteção à Terra

Por Dom Roberto Francisco Ferreria Paz*
No dia 5 de junho, celebramos o Dia Mundial do Meio Ambiente, pois nesta data aconteceu a primeira Conferencia das Nações Unidas em Estocolmo na Suécia em 1972. Nesse evento, participaram 113 países e 250 organizações não governamentais além dos organismos da ONU. Foi o primeiro pronunciamento alertando a humanidade dobre a degradação da natureza e os riscos para a sobrevivência no planeta.
A declaração final assumiu uma agenda de compromissos para reverter esse processo ecocida,que leva a destruição da vida e a desintegração da criação. Ao comemorarmos novamente esta efeméride estamos cheios de preocupações e perplexos diante do descaso no tratamento da água como bem público e na ameaça da transposição do Rio Paraíba que vai trazer impactos muitos negativos aos municípios do Rio de Janeiro,em especial aos que se localizam no seu estuário.
As principais cidades do mundo e do Brasil já enfrentam problemas sérios no abastecimento e fornecimentos da água,que se tornará nos próximos anos a razão principal dos conflitos e das guerras. Um diagnóstico da NASA confirmou o processo de desgelo da calota polar e ou aumento pelo menos de 5 metros das águas oceânicas para os próximos 20 anos.
Como vemos, ainda não tomamos consciência devida que a Terra é nossa casa comum, e que cuidar dela e preservar as redes da vida e os eco sistemas que salvaguardam a biodiversidade, constitui uma política essencial para evitar o desaparecimento da nossa espécie.
Cabe as religiões e em particular ao cristianismo levar a sério nossa vocação e missão de sermos jardineiros e cuidadores da criação, amigos e aliados da Terra como Noé para celebrar com a humanidade e todas as criaturas um pacto pela vida,resgatando não já as espécies numa arca, mas tornando a Terra uma grande Arca de Salvação, onde a vida não seja mais considerada uma mercadoria ou uma peça de reposição, mas seja respeitada e venerada como sagrada. Deus seja louvado!
CNBB, 02-06-2014.
*Dom Roberto Francisco Ferreria Paz é bispo de Campos (RJ).
Ler Mais

As raízes da Igreja pobre segundo o Papa Francisco

Por Christian Albini
Publicado no meio do Concílio Vaticano II, esse livro nunca perdeu a sua importância e hoje volta a ser, no rastro das palavras do papa, de extrema atualidade.
O Papa Francisco nos lembrou que o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico, nos remete ao "estilo de Deus", aquele Deus que não se revelou com os meios do poder e da riqueza, mas com os da fraqueza e da pobreza.
Yves Congar, dominicano francês que participou como teólogo do Concílio Vaticano II, nesse texto, se interroga sobre como a própria Igreja pode aplicar a si mesma aquelas exigências evangélicas que se tem a tendência de reservar aos cristãos individuais.
Todos os símbolos de prestígio – bens materiais ou posições de poder – que a Igreja desenvolveu nos séculos passados hoje não são mais compreendidos, mas continuam conservando o "valor geral de um sinal que expressa outra coisa em relação ao serviço evangélico ao qual são dedicados, aqueles que portam tantas insígnias e títulos de outro mundo! É preciso realmente se interrogar, à luz do Evangelho, sobre as consequências de todos esses sinais de prestígio".
Em um mundo profundamente marcado pela crise (não só econômica), eles não correm o risco de ser um contratestemunho?
As relações de superioridade e de subordinação que existem na Igreja, de fato, podem ser transformadas se vividas dentro de uma relação evangélica fundamental, em uma amorosa obediência de Cristo, "vivida por cada um com todos e por todos, com base na posição que o Senhor lhe deu no corpo".
O autor conclui assim o seu prefácio: "Por mais incompletos, por mais imperfeitos que sejam os estudos aqui reunidos, esperamos que, neste momento em que a Igreja inteira se olha no espelho do Evangelho e se interroga sobre a sua adequação às exigências do mundo, eles contribuam com aquela intenção de verdade evangélica de que o Concílio Vaticano II fez a sua razão profunda".
Depois de 50 anos, onde estamos?
O livro de Congar e o retorno da Igreja à pobreza evangélica serão debatidos pelo prior Enzo Bianchi (Comunidades Eclesiais de Base) e pelo professor Alberto Melloni (Fundação para as Ciências Religiosas, Bolonha), no Salão Internacional do Livro de Turim, no próximo sábado, 10 de maio, às 18h30min, na Sala Bianca.
Escrevia Enzo Bianchi a propósito desse livro na revista Jesus de julho de 2013:
Na época do Concílio, entre os cristãos, estavam vivas uma atenção e uma exigência: uma atenção aos pobres e uma exigência de pobreza na Igreja. Desde sempre, a Igreja sentiu que, na mensagem do Evangelho, os pobres ocupam um lugar privilegiado, que são os primeiros clientes de direito da boa notícia, que na atitude com relação a eles, necessitados e últimos, se decide a participação no reino de Deus ou a via mortífera que não conhece a verdadeira vida.
Mas naquela época se compreendia de modo mais aprofundado que a Igreja devia ser pobre. "Por uma Igreja serva e pobre" era o título de um livro de Yves Congar, um dos grandes inspiradores do Concílio, e a recepção dessa mensagem foi tal que até foi constituído um grupo de bispos comprometidos com uma pobreza pessoal e com um estilo pobre da pastoral a eles confiada.
Era a época da emergência dos pobres no Sul do mundo, a época da descoberta das jovens Igrejas saídas do colonialismo e às quais devia ser dada uma atenção não apenas missionária, mas também às suas condições de vida e ao seu possível desenvolvimento. Uma Igreja pobre e composta por cristãos pobres, à imagem de "Jesus", que "sendo rico se fez pobre" (2Cor 8, 9), para ser solidária em tudo conosco, seres humanos necessitados de salvação e de libertação.
Quantas vezes, então, ouvimos ressoar o texto das bem-aventuranças nas comunidades cristãs, quantas vezes eram citados os Padres da Igreja – Basílio de Cesareia, João Crisóstomo, Ambrósio de Milão, Gregório Magno – pelas suas palavras sobre os pobres, sobre a necessidade de compartilhar os bens e os recursos!
Havia um acalorado debate sobre a questão da pobreza e dos pobres em inúmeras comunidades. E não podemos esquecer que alguns pastores deram às suas comunidades cristãs textos de alta qualidade teológica, textos proféticos que receberam a atenção e a aprovação de Paulo VI, ele também muito sensível à questão da pobreza no mundo. Em Roma, o abade de São Paulo Fora dos Muros, Giovanni Battista Franzoni, com La terra è Dio; em Turim, o cardeal Michele Pellegrino, com Camminare insieme; só para citar dois textos que, para os cristãos na Itália, foram inspiradores de muitas escolhas pessoais e comunitárias.
Assim, na Igreja, elaborou-se a doutrina da "opção preferencial pelos pobres", em que a opção era um dever moral, e isso pareceu se tornar, na Igreja universal, um princípio fundamental da doutrina social da Igreja.
Sperare per Tutti, 05-05-2014
10/05/2014  |  domtotal.com
Ler Mais

A perspectiva da Bíblia sobre tráfico humano

Por Luiz Iakovacz*
Em cada Campanha da Fraternidade, a Igreja Católica propõe a seus fiéis temas sociais, iluminando-os com a Palavra de Deus e, assim, fortalecendo nossa fé. O Tráfico Humano é um assunto delicado, mas oportuno.

Em 1999, na cidade de Palermo (Itália), lideranças mundiais se reuniram para debater esta questão. No final, os participantes publicaram um manifesto que ficou conhecido como “Protocolo de Palermo”. Seu conteúdo foi assumido pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2000, e está em vigor, desde 2003. Ao definir o Tráfico Humano, o texto afirma que é crime recrutar e transportar pessoas para explorá-las sexualmente, ou mantê-las em trabalho análogo ao de escravidão, ou, ainda, extrair órgãos humanos e comercializá-los. Para que estes fatos não cheguem ao conhecimento do público, as vítimas vivem em alojamentos vigiados e sob constantes ameaças.

Com isso, exploraram-se pessoas para o enriquecimento ilícito de alguns. A ONU calcula que, anualmente, circula cerca de 32 bilhões de dólares, ou, aproximadamente, R$ 70 bilhões de reais. Esta “indústria” fica atrás, apenas, do comércio das drogas e de armas.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 2,5 milhões de pessoas são traficadas, a cada ano. Recentemente, o instituto “Pesquisa sobre Tráfico Humano de Mulheres, Crianças e Adolescentes” detectou, só aqui no Brasil, 241 rotas, sendo 131 internacionais, 78 interestaduais e 32 intermunicipais.

O tráfico é um crime organizado e silencioso que envolve um conjunto de cúmplices: os que exploram, os transportadores, os prestadores de assistência jurídica, os “paraísos fiscais” para lavagem do dinheiro, médicos e clínicas para extração de órgãos. Neste contexto, é quase impossível não pensar na participação, também, do Poder Público e outras entidades.

Quais são as causas?!

De um lado, temos o capitalismo selvagem com sua insaciável sede de lucro; de outro, uma multidão que vive em situação de vulnerabilidade, lutando para sobreviver. Diante disso, as vítimas se tornam presas fáceis dos aliciadores. Como pescadores que sabem onde e como apanhar o peixe, atraem pessoas com promessas de bom emprego, altos salários, portas abertas para o sucesso, documentação assegurada para viajar e outras benesses.

Mesmo desconfiadas, as pessoas se arriscam. Depois de algum tempo, longe de sua terra e família, sentem que caíram nas malhas do tráfico, “são exploradas e vivem sob ameaças e sem liberdade de sair dessa situação”, diz o Protocolo de Palermo.

Se implantarmos, com nossa luta, Políticas Públicas que oportunizem trabalho digno e salário justo, sem dúvida, o tráfico, também, diminuiria.

Muitos ficam indignados ante essa realidade; outros, desabafam, como fez o Papa Francisco: “O Tráfico Humano é uma atividade ignóbil, uma vergonha para nossa sociedade que se diz civilizada”; porém, todos somos convocados a abraçar esta causa.

Em primeiro lugar, precisamos estar cientes que, no espaço de tempo em que ela foi escrita (durante mais de mil anos), a escravidão era uma prática normal em todos os países e culturas. Porém, o povo de Israel estabelece normas para a libertação e ressarcimento do escravo: “Quando alguém for vendido como escravo, ele te servirá durante seis anos; no sétimo ano, dar-lhe-ás a liberdade, mas não de mãos vazias; ao contrário, carregue os ombros dele com o produto do teu rebanho e de tuas colheitas; dê-lhe, também, a benção” (Dt 15,12-15).

Essa mesma atitude, a encontramos em Jesus. Ele conviveu e solidarizou-se com os marginalizados e sofredores: “Vendo as multidões, Jesus moveu-se de compaixão porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36).

Por outro lado, não se intimidou diante das autoridades, tanto políticas como religiosas, e se indignou com aqueles que ignoram o sofrimento alheio, mesmo que, com isso, fosse ameaçado de morte: “... passando sobre eles um olhar indignado e, entristecido com a dureza de seus corações, disse ao homem de mão seca: ´estende a tua mão´; ele a estendeu e ficou curado. Ao saírem da sinagoga, os fariseus, junto com alguns do partido de Herodes, fizeram um plano para matar Jesus” (Mc 3,5-6).

Hoje, apoiados na Bíblia, precisamos ter uma postura clara contra o Tráfico Humano. Sabemos que seu objetivo é a exploração humana para enriquecer um pequeno grupo.

É uma verdadeira obsessão, fruto de uma política neoliberal-capitalista. Sobre isso, a Bíblia nos alerta, dizendo que “ganância é uma idolatria” (cf. Cl 3,5; Ef 5,5), e é, também, a “raiz de todos os males” (1Tm 6,10).
Por fim, é de fundamental importância, conscientizarmo-nos de que o tráfico pode estar ao nosso redor, só que não é fácil percebê-lo porque é “invisível” à maioria das pessoas. Por sua vez, as vítimas e seus familiares, também, não se manifestam porque, quase sempre, vivem sob constantes ameaças.

Por isso, cabe a cada um de nós que, ao tomarmos conhecimento de qualquer fato, tenhamos a coragem de denunciar: disque 100 – Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República; disque 180 – Central de Atendimento à Mulher, ou outros; a ligação é gratuita e sigilosa. Não podemos nos omitir, pois somos “um por todos e todos por um”.
A12, 12-04-2014.
*Luiz Iakovacz é frei.
Ler Mais

O mundo que Francisco persegue

Por Geovane Saraiva*
"Dar o pão a quem tem fome é um ato de justiça, mas é preciso saciar a fome de dignidade”. Estas palavras fazem-nos compreender o mundo perseguido pelo papa Francisco e para qual direção estamos caminhando, muitas vezes, na nossa insensibilidade e indiferença, aos clamores da criatura humana, com carência de toda natureza, tudo por causa do dinheiro, transformado em ídolo absoluto. Indo nós, na direção contrária de Jesus de Nazaré, enviado com a inenarrável missão de realizar o projeto do Pai, quando denunciou veementemente o culto ao dinheiro, chamando atenção para a importância da solidariedade como algo inexprimível aos olhos da fé, apoiando-se na Boa Nova da Salvação: "Vos não podeis servir a Deus e ao Dinheiro" (MT 6, 24).

O Sucessor de Pedro tem consciência clara da força dominadora dos bens materiais, sobre a criatura humana e sobre a sociedade como um todo, negando aquilo que existe de mais sagrado, segundo a vontade do Criador e Pai, o ser humano, como absoluto, dento do mistério insondável de Deus. Daí a sua profecia nesta afirmação: "Estamos nos tornando incapazes de nos compadecer dos clamores dos outros, já não choramos ante o drama dos demais". E acrescenta, como consequência, "enquanto os ganhos de uns poucos crescem exponencialmente, os da maioria ficam cada vez mais afastados do bem-estar dessa minoria feliz". E mais: "Não pode ser que não seja notícia um ancião que morre de frio na rua e que o seja a queda de dois pontos na bolsa. Isso é exclusão. Não se pode tolerar que se atire fora comida quando há gente que passa fome. Isso é iniquidade".

No desejo obstinado de lutar por um mundo, no qual se veja sinais claros de solidariedade, Francisco tem nas suas prioridades, a dor e a angústia dos refugiados, retomando o tema no dia 29 de janeiro de 2014, quando recebeu elogios do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR); aproveitando a circunstância para encorajar cerca de vinte e cinco mil pessoas presentes ao encontro, no sentido de se empenharem diante das necessidades dos refugiados e imigrantes, estabelecendo práticas e princípios em relação aos que solicitam assistência e asilo, bem como as vítimas do tráfico humano e do trabalho escravo.

Peço licença ao Padre Manfredo Oliveira, um dos pensadores da Igreja Católica, respeitado no Brasil e no mundo, que no seu rigor intelectual, nas suas palavras sábias e acertadas, as quais muito nos ajudam a pensar no mundo que Francisco persegue, na seguinte afirmação: "A adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma nova versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano". Apesar de se constatar avanços e sinais evidentes de progressos, nos diversos campos da realidade da vida humana, no bem-estar, saúde e educação, sem esquecer o setor da comunicação.

O mundo perseguido pelo papa Francisco, com inflexível determinação, é o mesmo proclamado pelo Apóstolo Paulo, no qual anuncia que, "a criação está gemendo como em dores de parto" (Rm 8, 22). Ainda de acordo com o filósofo Manfredo Oliveira, entre diversas cifras citadas, o mundo se encontra assim: “Há hoje na Europa 500.000 pessoas infectadas pela AIDS. Através das novas terapias desenvolvidas a mortalidade está em queda livre: a grande maioria destas pessoas viverá à custa destes tratamentos. Na África, porém, são 22 milhões de pessoas infectadas. Aqui não existem praticamente medicamentos assim que a esmagadora maioria destas pessoas morrerá”. Suponhamos que se queira dar à toda a população do mundo uma alimentação razoável (2.700 calorias diárias), água potável e acesso aos recursos da saúde básica. Isto equivalerá aproximadamente ao que os habitantes dos Estados Unidos e da Europa gastam anualmente com perfumes (cf. artigo, fgsaraiva.blogspot.com.br).

Temos consciência de que não é fácil dizer não ao ídolo do dinheiro. O nosso mundo é profundamente marcado por esta loucura, em cujo objetivo é divinizar, sempre e cada vez mais o mercado. As palavras do bispo de Roma como ajudam a compreender a realidade do mundo atual, na seguinte assertiva: "A cultura do bem-estar anestesia as pessoas, a ponto de perder a calma se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas essas vidas mutiladas pela falta de possibilidades nos parecem um espetáculo que de nenhuma forma nos altera”. Ademais, pense num mundo todo envolvido pela ambição do ter, prazer e poder! Não esquecendo-nos que nesta direção, embarcam no mesmo caminho a corrupção, de um modo generalizado. Eis, pois, os enormes desafios.

A exemplo dos profetas do todos os tempos, suplicamos a Deus Nosso Senhor, neste tempo da Quaresma, o qual favorece a conversão interior, que através da voz da Igreja, convidado-nos a uma mudança de mentalidade; para tal, propõe a CF 2014 e neste ano com o tema: Fraternidade e Tráfico Humano. Que Deus nos dê a graça da docilidade, associados ao Papa Francisco, na sua inflexível luta por mundo solidário e mais justo, verdadeiramente de irmãos, longe do comércio de seres humanos, tendo diante dos olhos, na mente e no coração o lema da CF: "É para a liberdade que o Cristo nos libertou" (Gl 5, 1). Assim seja!
* Geovane Saraiva é padre da Arquidiocese de Fortaleza, escritor, membro da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza, da Academia de Letras dos Municípios do Estado Ceará (ALMECE) e Vice-Presidente da Previdência Sacerdotal - Pároco de Santo Afonso. É autor dos livros “O peregrino da Paz”, “Nascido Para as Coisas Maiores”, “A Ternura de um Pastor”, “A Esperança Tem Nome”, "Dom Helder: sonhos e utopias" e "25 Anos sobre Águas Sagradas”.
06/03/2014  |  domtotal.com
Ler Mais
Em mensagem, Francisco estimula juventude a não transformar em 'ídolos' o sucesso e os bens materiais.
Cidade do Vaticano - O papa Francisco pediu que os jovens do mundo todo não cedam à cultura do consumismo, em uma mensagem publicada nessa quinta-feira (6) para a Jornada Mundial da Juventude 2014, cujo tema é "Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu".

"O Senhor convida a um estilo de vida evangélico marcado pela sobriedade, e não pela cultura do consumismo", disse Francisco, pedindo para os jovens serem "livres de coisas materiais". Essa é a primeira mensagem que o Papa Francisco dirige aos jovens, inserindo-se na tradição iniciada pelo papa João Paulo II e que Bento XVI continuou.

"Trata-se de procurar a essencialidade, de aprender a se desprender das coisas supérfluas e inúteis que sufocam. Devemos nos distanciar do desejo de ´ter´, do dinheiro idolatrado e, depois, desperdiçado. Coloquemos Jesus em primeiro lugar. Ele pode nos libertar das idolatrias das quais somos escravos", disse o pontífice em sua mensagem.

Francisco sugeriu ainda que os jovens coloquem "a solidariedade no centro da cultura humana", em oposição ao consumismo. "Diante de velhas e novas formas de pobreza - o desemprego, a emigração, entre outras - temos o dever de sermos vigilantes e responsáveis, vencendo a tentação da indiferença", afirmou.

"De um certo modo, os pobres são como professores para nós. Eles nos ensinam que uma pessoa não vale pelo quanto ela tem em sua conta bancária", criticou. "Um pobre, uma pessoa privada de bens materiais, conserva sempre sua dignidade".

Após a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, em julho de 2013, o papa retoma o seu diálogo com os jovens do mundo e apresenta os temas das três próximas edições do evento, para iniciar o itinerário de preparação espiritual que conduzirá à celebração internacional em Cracóvia, na Polônia, em 2016.
SIR
Ler Mais

Papa critica mega salários e bônus altos em mensagem de paz

Por Philip Pullella
O papa Francisco criticou nesta quinta-feira os mega salários e grandes bônus, dizendo na primeira mensagem de paz de seu pontificado que são sintomas de uma economia baseada na ganância e desigualdade.
Em mensagem para o Dia Mundial da Paz da Igreja Católica, celebrado pela Igreja em todo o mundo em 1º de janeiro, o papa também pediu uma maior divisão de riquezas entre as pessoas e as nações para reduzir as diferenças entre ricos e pobres.
"As graves crises financeiras e econômicas da atualidade... levaram o homem a buscar a satisfação, felicidade e segurança no consumo e nos ganhos fora de qualquer proporção com os princípios de uma economia sólida", disse o pontífice.
"A sucessão de crises econômicas deve levar também a repensarmos os nossos modelos de desenvolvimento econômico e a uma mudança no estilo de vida", acrescentou.
Francisco, que foi nomeado na quarta-feira pela revista Time a Personalidade do Ano, pediu à própria Igreja que seja mais justa, frugal e menos pomposa, e que esteja mais perto dos pobres e sofredores.
A mensagem será enviada aos líderes dos países, organizações internacionais, como a ONU, e ONGs.
Intitulada "Fraternidade, a Fundação e Caminho para a Paz", a mensagem também atacou a injustiça, o tráfico de seres humanos, o crime organizado e o tráfico de armas, todos apontados como obstáculos para a paz.
O estilo do novo papa é caracterizado pela humildade. Ele abriu mão do espaço apartamento papal no Palácio Apostólico do Vaticano a decidiu viver em uma pequena suíte em uma casa de hóspedes do Vaticano. Francisco também prefere andar num Ford Focus em vez da tradicional Mercedes utilizada pelos papas.
Um defensor dos oprimidos, ele visitou a ilha de Lampedusa, no sul da Itália, em julho, para prestar homenagem a centenas de imigrantes que morreram cruzando o mar do norte da África para a Europa.
Reuters
Ler Mais

'A agressão não pode ser um ato de fé', diz Francisco

Por Andrés Beltramo Álvarez
A Argentina tem não apenas um papa, o primeiro da sua história, mas vive também um momento de turbulência religiosa. O que foi demonstrado na semana passada, quando um grupo de jovens interrompeu uma liturgia inter-religiosa celebrada na catedral de Buenos Aires. O episódio se converteu em um escândalo nacional e Francisco interviu, de maneira reservada, mas com uma frase simbólica: “a agressão não pode ser um ato de fé".

Na tarde de 12 de novembro, estava previsto um ato para comemorar o 75º aniversário da Noite dos Cristais Quebrados, o ataque contra casas e templos judeus que deu início ao Holocausto. A cerimônia foi encabeçada pelo arcebispo da capital argentina, Mario Poli.

No ano passado, este lugar foi ocupado por Jorge Mario Bergoglio. A tradição de recordar aquele momento histórico começou há 15 anos. Nas primeiras ocasiões, o encontro foi feito em diferentes templos católicos e logo se transferiu para a catedral. Mas, em 2013, as coisas foram diferentes.

Pouco antes de começar a celebração, um grupo com cerca de 40 pessoas, a maioria adolescentes, adentrou o templo e se pôs a rezar o rosário em voz alta. Alguns rapazes distribuíram panfletos nos quais se podia ler: “Fora adoradores de deuses falsos do templo santo”. Enquanto um homem, com uma boina vermelha, pegou o microfone para pedir que se terminasse com o ato. Tudo perante o olhar estupefato de vários líderes religiosos presentes.

Rapidamente a situação piorou. Os queixosos não deixavam de rezam, enquanto vários dos presentes começavam a se retirar. A tensão era evidente. À distância, o núncio apostólico na Argentina, Emil Paul Tscerrig, observava a cena desconcertado.

Os autores da ação não se identificaram. Não disseram nada àqueles que gritavam para que fossem embora e também não responderam as provocações, como a do deputado Eduardo Amadeo que não deixava de tirar fotos com seu celular e, furioso, os chamava de: "miseráveis nazistas". Eles apenas continuavam rezando o rosário, quase gritando, liderados por um sacerdote.

Ao final da oração, levantaram-se e se foram. A liturgia pôde continuar. O arcebispo Poli pediu desculpas e assegurou aos “amigos judeus” que “sempre serão bem-vindos” na catedral.

Naquela noite, a polêmica chegou à imprensa. Os meios de comunicação qualificaram os jovens de “ultracatólicos”, “lefebvristas” e “radicais”. Ninguém pôde estabelecer exatamente sua filiação ou pertencimento, talvez por isto apontaram que se tratava de membros da Fraternidade de São Pio X, o grupo cismático fundado por Marcel Lefebvre.

Dos meios de comunicação, a controvérsia foi para a rede, com acalorados debates nas redes sociais e no blog www.pagina-catolica.blogspot.com, de onde partiu a iniciativa que foi considerada como um alívio frente à profanação.

O episódio não passou despercebido, superou as fronteiras argentinas e chegou até o Vaticano. Foi tema de conversa, nesta terça-feira, entre Francisco e seis membros do Comitê Latino-Americano de Líderes Religiosos pela Paz.

Entre eles estava o diretor executivo do Congresso Judaico Latino-Americano (CJL), Claudio Epelman, que após cumprimentar o Papa disse-lhe que a “pregação da intolerância é uma forma de militância que deve ser superada”. "A agressão não pode ser um ato de fé", respondeu Bergoglio.

"Com este encontro, o papa manifestou, mais uma vez, seu firme compromisso pessoal para a construção de pontes entre as religiões e para trabalhar junto a todos nós para assegurar a paz", apontou Epelman.
Vatican Insider, 20-11-2013.
Ler Mais
 
São Francisco da Penitência OFS Cabo Frio | by TNB ©2010