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Eles o reconheceram no partir do pão

           
A fração do pão, expressa seu amor incondicional, seu serviço, seu viver para os outros
Por Dom Alberto Taveira Côrrea*
O Senhor antecipou sacramentalmente sua entrega na última Ceia. Após a Ressurreição, ele se manifestou a seus discípulos. Como somos peregrinos na história, queremos pedir ajuda aos discípulos de Emaús, para aprender a reconhecê-lo no partir do Pão. Nosso desejo sincero é que todos os participantes do XVII Congresso Eucarístico Nacional reconheçam sua presença e se tornem missionários e missionárias, levando consigo a riqueza do que viveremos juntos, ajudados pela reflexão oferecida pelo Padre Giovanni Martoccia SX, cujos pontos principais oferecemos a todos (Cf. Texto-base do XVII Congresso Eucarístico Nacional, Edição da Arquidiocese de Belém).
O dia estava cinzento como o coração de todos os discípulos, cheios de medo, dúvida e tristeza. As esperanças messiânicas alimentadas por Jesus dissiparam-se no vento da repressão romana; e, junto com elas, também o sonhos de um Reino de Deus, por tanto tempo acalentado, se espatifou no iníquo patíbulo que recebeu a condenação do Justo. O testemunho das mulheres de que o corpo de Jesus não estava no túmulo não foi suficiente para convencer os apóstolos de que algo extraordinário havia acontecido. Ninguém do grupo quis acreditar. Mas quantas vezes lhes confirmara que iria ressuscitar! Entesourar a memória de sua palavra era pré-requisito indispensável para não naufragar no meio da tragédia. Sua palavra, meditada no coração, é âncora segura da fé, fonte de esperança e força propulsora do anúncio da Boa Nova.
Dois discípulos, tendo deixado a cidade de Jerusalém, teatro dos tristes acontecimentos da prisão e execução do Mestre, dirigiram-se a Emaús, aldeia a duas horas de boa caminhada. Parecem querer voltar a seu passado e esquecer tudo o que havia acontecido, enterrando a última lembrança de suas esperanças frustradas. Mas era justamente esse pavio fumegante que os impelia a conversar sobre aqueles mesmos eventos inesquecíveis. O caminho pedregoso e acidentado ritmava os inconstantes e ríspidos pensamentos de seus corações. Os olhos de sua memória parecem fechados, completamente vedados, a ponto de não reconhecer nem mesmo o próprio Jesus que, aproximando-se, pôs-se a caminhar com eles.
Estavam tão concentrados que não deram nenhuma atenção ao desconhecido, que toma a iniciativa e puxa conversa, perguntando sobre o assunto que os preocupava e que parecia tão sério: “Que é que vocês vão discutindo pelo caminho?” Estavam tristes e abatidos pela morte de seu Mestre, decepcionados porque pensavam que ele fosse o Messias, e agora acham que se enganaram. Finalmente, eles param. Uma parada, nessa caminhada, símbolo da nossa caminhada de vida, é o primeiro passo para compreender como nos afastamos dele, a ponto de nem o reconhecermos mais, e quanta tristeza sua falta trouxe em nossa vida. Ele nos visita, mas muitas vezes não percebemos sua presença porque ficamos amarrados ao nosso velho modo de pensar, à nossa imaginação que quer determinar o agir de Deus. O mesmo Jesus que eles conheciam tão bem estava diante deles, conversando com eles e, mesmo assim, não o reconheceram. Como é possível? 
Na verdade, Jesus é o mesmo. São os discípulos que mudaram; fechando-se em sua esperança frustrada não conseguem mais reconhecê-lo. Antes, eles olhavam para Jesus com confiança, acreditavam nele. Agora estão decepcionados e seu olhar é diferente. As falsas expectativas lhes vendaram os olhos. No entanto, Jesus cumpriu todas as suas palavras, mas não como eles imaginavam. É preciso receber algo novo, nova luz para que os olhos se abram e, finalmente, o reconheçam. 
A Jesus, que pergunta esclarecimentos sobre esses acontecimentos tão graves, responde Cléopas com outra pergunta que parece expressar espanto e irritação: “Serás tu o único forasteiro em Jerusalém que desconhece o que se passou aí nestes últimos dias?”. Jesus se mostra muito interessado e pronto a ouvir tudo o que ocorreu. Cléopas informa o curioso forasteiro dos fatos que tanto marcaram a vida deles. Conta tudo a partir do ministério de Jesus, conhecido como o Nazareno. Mas os dois discípulos não souberam acolher os acontecimentos e interpretá-los. Estão decepcionados! 
A decepção dos discípulos é justificada pelo fato que “já faz três dias que todas essas coisas aconteceram!” e ele não apareceu. Depois de Jesus ter escutado com atenção toda a história que eles tinham para contar, de repente os repreende com severidade. Jesus, com uma pergunta sobre a necessidade do sofrimento do Messias dá início à catequese pascal. É preciso que a vida de Jesus seja interpretada à luz das Sagradas Escrituras.
Quando chegaram perto do povoado para onde iam, ele fez de conta que ia mais adiante. “Fica conosco, porque é tarde e o dia já declina”. Entrou então para ficar com eles. Realmente, a vida sem ele fica muito escura, sem luz nem sentido, como peregrino em noite de lua nova. Se compartilharmos nossa jornada com ele, ouvindo suas palavras, Uma vez à mesa com eles, tomou o pão, pronunciou a bênção, o partiu e distribuiu entre eles. Então, seus olhos se abriram e o reconheceram. É Jesus que toma a iniciativa, que se aproximou deles e lhes explicava tudo. Na fração do pão, fez com que seus olhos se abrissem. Eles agora o reconhecem. Será ainda Jesus que abrirá a mente aos Onze para entenderem as Escrituras, pois tudo o que estava escrito tinha que se cumprir. 
Jesus desaparece no momento em que os dois discípulos o reconhecem. É para nos advertir que não se trata de uma visão extraordinária, mas do normal caminho da fé que nos conduz ao encontro com o Cristo vivo na Eucaristia, na convivência fraterna, na escuta da Palavra, no testemunho generoso e no compromisso evangelizador. Não são as feições físicas que permitem reconhecer Jesus ressuscitado como o mesmo que foi crucificado, mas o gesto distintivo de sua existência: a fração do pão, gesto que expressa e traz presente seu dom de amor total e incondicional, seu serviço, seu viver para os outros. No testemunho recíproco a fé manifesta sua dimensão comunitária, revela sua força transformadora, revigora o coração e ilumina os caminhos da Igreja. E disseram um ao outro: “Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?” Sob esse impulso jubiloso, dois voltaram para Jerusalém. Voltou a esperança, o entusiasmo, a fé e a força para retomar o caminho, ainda que seja longo e difícil, e a noite adiantada. Mas a escuridão da noite já não assusta mais. A luz que agora brilha no coração é mais que suficiente para vencer a treva ameaçadora. Ao chegar a Jerusalém, mais uma surpresa agradável os aguarda. Acharam aí reunidos os Onze e seus companheiros, que disseram: “É verdade! O Senhor ressurgiu e apareceu a Simão!” Então, por sua vez, também contaram os acontecimentos do caminho e como Jesus fora por eles reconhecido na fração do pão.
À comunidade que se perguntava sobre como reencontrar o Senhor Jesus hoje, Lucas narra o episódio dos discípulos de Emaús. O relato visa a transmitir à comunidade a alegria do encontro com o Senhor, o Vivente, e incentivá-la a buscar na comunhão e na vivência de Igreja uma experiência pessoal de sua presença. Todos aqueles que buscam o Senhor de coração sincero e apaixonado abrindo-se ao alimento de sua Palavra e da Ceia eucarística, perceberão sua voz e sua presença. Jesus se faz presente, como desconhecido, nos caminhos da vida, nos encontros inesperados, nos acontecimentos cotidianos, que precisam ser compreendidos à luz de sua Palavra. Trata-se de identificar a ação de Deus em nossa história, adquirindo uma inteligência espiritual dos acontecimentos e fazendo “memória”, como Maria, no coração.

CNBB 01-07-2016.
*Dom Alberto Taveira Côrrea: Arcebispo de Belém (PA).
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Não deixes morrer o samaritano que está em ti

Por Dom José Gislon*
Estimados Diocesanos! Na vida familiar, na comunidade ou em outros ambientes que costumamos frequentar, podemos nos deparar com situações que nos questionam, ou nos deixam inquietos, vendo a dor, o sofrimento, a solidão e, às vezes, o estado de abandono ou de apatia em que vivem algumas pessoas. 
Diante destas situações, podemos ter várias reações. Podemos ser indiferentes, fazer de conta que não vimos o sofrimento do outro, nem ouvimos o seu pedido de ajuda, manifestado no olhar, no silêncio e às vezes nas lágrimas. Preferimos passar por outro caminho para não mais precisar ver certas situações, tentando assim fazer calar a voz da nossa consciência. Podemos também ser solidários, manifestando compaixão, nos tornando sinal do amor, da ternura e da misericórdia de Deus para com os irmãos e irmãs que padecem.
Por isso, a conversão é uma experiência da qual não podemos abrir mão. Ela nos aproxima do Deus da vida, mas também nos faz descobrir e, às vezes, redescobrir a presença do Senhor nos irmãos. A conversão pode ser a passagem da falta de fé à fé, ou do mal ao bem. Na pessoa que crê no Senhor Jesus, a conversão pode se manifestar como uma passagem da fé considerada um complexo de doutrinas que se pode conhecer à fé vivida nas ações do dia-a-dia.
O Samaritano não fica perguntando quem é meu próximo, ele se faz próximo daquele que precisa, sabe manifestar compaixão, é capaz de ações de misericórdia, generosas, desinteressadas e livres de preconceitos. O exemplo dele é Jesus, que se fez próximo de cada um, dos justos e injustos, dos santos e pecadores, dos amigos e inimigos. Ele está atento não só às próprias preocupações, mas também às necessidades dos outros. Para o Samaritano, o próximo não é definido por uma teoria, mas por um apelo à sua misericórdia, a fazer-se próximo pelo amor caridade, comprometido com a vida, com o irmão, com a vida eterna no Reino de Deus.

CNBB 08-07-2016.
*Dom José Gislon: Bispo de Erexim.
10/07/2016 | domtotal.com
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A cidade santa: obra de Deus e dos homens


             
                               O caminho da solidariedade e da justiça, rumo à cidade santa.
Temos que colocar na mente e no coração o nascimento do precursor.
Por Geovane Saraiva*
João Batista preparou o povo para o início da missão pública de Jesus, dizendo com todas as letras que ele mesmo caminharia à frente do Cristo Jesus, anunciando que os sinais dos tempos chegaram e as promessas anunciadas por Zacarias estavam para se realizar. O seu vibrante convite foi o de acordar o povo do sono, muitas vezes profundo, para reconhecer o Salvador como o Sol que veio nos visitar; que temos que colocar na mente e no coração o nascimento do precursor, a indicar-nos o caminho da solidariedade e da justiça, rumo à cidade santa, que é obra de Deus e também obra das pessoas de boa vontade que aceitam o projeto de Deus anunciado por João Batista.
Ele é lembrado como uma pessoa que viveu com muita seriedade e com muito rigor, na austeridade e na penitência, defensor da verdade e da justiça, prometendo tempos bons e o futuro tão esperado pela humanidade. Uma figura humana, ungida e santa, de tal modo, segundo o Livro Sagrado, que ainda no seio materno exultou com o Salvador da humanidade que estava para chegar. Seu nascimento trouxe grande alegria, não só pela esterilidade de seu Pai, Zacarias, que se transformou em fecundidade, e o homem mudo passou a ser um profeta corajoso e exuberante (cf. Lc 1, 57s), mas como sinal e farol da realização das promessas redentoras, com tempos novos e messiânicos.
Como é belo e maravilhoso olhar para a grandeza do homem, a partir da austeridade e humildade, alimentando-se de gafanhotos e mel da selva, figura humana e divina que recebeu o maior de todos os elogios do seu Mestre e Senhor, ao afirmar: “Dos nascidos de mulher, ninguém é maior que João Batista” (Mt, 11, 11). É por isso mesmo que somos convidados a falar bem alto, com palavras e com a própria vida, da renúncia, da doação e da generosidade, tendo diante dos olhos e na mente o maior de todos os profetas, que mostrou ao mundo a salvação que chegou para todos.
João, filho do sacerdote Zacarias e de Isabel, conhecido como o precursor de Cristo pelo anúncio da palavra e na entrega de sua vida, tendo nascido seis meses antes do Messias de Deus, não exerceu função sacerdotal, a exemplo do seu pai Zacarias, mas foi mostrado ao mundo como pregador, como um homem que desempenhou bem sua função, anunciando um batismo de penitência para o perdão dos pecados. Seu grande trunfo encontrava-se na vinda do Salvador da humanidade. Sua vocação profética, desde o ventre materno, reveste-se de algo extraordinário, repleto de júbilo messiânico, ao preparar o nascimento do Salvador da humanidade.
Vemos, com clareza, os olhos cheios de lágrimas do Papa Francisco e de muitos irmãos, ao contemplar a realidade do mundo, com cidades e povos alheios e distantes do projeto de Deus, anunciado por João Batista. Que tais sinais possam se transformar em esperança, como algo alentador, no sonho de tempos novos, dentro do contexto da natividade de São João Batista, transformando-nos de verdade em artífices do Reino de Deus, na busca de um mundo de justiça, solidariedade e paz. Assim seja!
*Pároco de Santo Afonso e vice-presidente da Previdência Sacerdotal, integra a Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza - geovanesaraiva@gmail.com
23/06/2016 | domtotal.com
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Solenidade da Santíssima Trindade

Hoje, a Igreja celebra a Solenidade da Santíssima Trindade, o mistério central da fé e da vida cristã. Deus se revelou como Pai, Filho e Espírito Santo. Foi Nosso Senhor Jesus Cristo quem nos revelou esse mistério. Ele falou do Pai, do Espírito Santo e de Si mesmo como Deus. Logo, não é uma verdade inventada pela Igreja, mas revelada por Jesus. Não a podemos compreender, porque o Mistério de Deus não cabe em nossa cabeça, mas é a verdade revelada.

Santo Agostinho (430) dizia que o Espírito Santo procede do Pai, enquanto fonte primeira, e pela doação eterna deste último ao Filho, do Pai e do Filho em comunhão (A Trindade, 15,26,47).
Só existe um Deus, mas n’Ele há três Pessoas divinas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. Não pode haver mais que um Deus, pois este é absoluto. Se houvesse dois deuses, um deles seria menor que o outro, mas Deus não pode ser menor que outro, pois não seria Deus.
Por não dividir a unidade divina, a distinção real das Pessoas entre si reside unicamente nas relações que as referem umas às outras: Nos nomes relativos das Pessoas, o Pai é referido ao Filho, o Filho ao Pai, o Espírito Santo aos dois. Quando se fala dessas três Pessoas, considerando as relações, crê-se todavia em uma só natureza ou substância (XI Conc. Toledo, DS 675).
São Clemente de Roma, Papa no ano 96, ensinava: "Um Deus, um Cristo, um Espírito de graça" (Carta aos Coríntios 46,6). "Como Deus vive, assim vive o Senhor e o Espírito Santo" (Carta aos Coríntios 58,2).
O Concílio de Niceia, ano 325, confirmou toda essa verdade: "Cremos […] em um só Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido do Pai como Unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial com o Pai, por quem foi feito tudo que há no céu e na terra. […] Cremos no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai, com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, o qual falou pelos Profetas" (Credo de Niceia).

22/05/2016 | domtotal.com
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As obras de misericórdia espirituais

Mais do que oferecer soluções, podemos mostrar um caminho que auxilie nas decisões.
Por Dom Adelar Baruffi*
O Jubileu da Misericórdia nos convida a um estilo de vida misericordioso. Ele se torna concreto, sobretudo, nas obras de misericórdia: corporais, que já apresentei, e as espirituais. Assim, a Igreja é “chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e atenção devidas.” (MV 15).
Aconselhar os indecisos. Mais do que oferecer soluções, podemos mostrar um caminho que auxilie nas decisões. O discernimento, dom do Espírito, é consequência da acolhida da Palavra e do conhecimento da realidade pessoal e social.
Ensinar os ignorantes. A ignorância pode ter várias faces. Uma delas, uma grande dívida social, é um ensino de qualidade, que ofereça cidadania a todos. Outra é a ignorância no que se refere à fé, ao conhecimento da Palavra e da doutrina cristãs. Daí que a comunidade cristã deve ser “a casa de iniciação à vida cristã”.
Admoestar os pecadores. “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão.” (Mt 18,15). Quem é misericordioso não é conivente com o erro, mas, com caridade, ajuda o irmão a crescer. Também os pecados sociais (corrupção, injustiças, fome, violência...) devem ser corrigidos, com ousadia e profetismo.
Consolar os aflitos. Saber ouvir “com o coração”, sem pressa, importando-se com a aflição de outra pessoa. Que os aflitos encontrem em nossas comunidades um ambiente de irmãos e irmãs. A indiferença é um grande pecado. Recomenda-nos São Paulo: “Consolai-vos mutuamente e edificai-vos uns aos outros.” (1Ts 5, 11).
Perdoar as ofensas. Uma das características mais evidentes da misericórdia é o perdão. Deus é misericordioso e perdoa sempre. O caminho da paz e da fraternidade passa pelo perdão e a coragem de assumir posturas que não sejam de vingança. Na oração do Pai-Nosso rezamos: “perdoa as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.
Suportar com paciência as pessoas molestas. A arte da convivência pacífica e harmoniosa exige de todos a paciência. A consciência de que Deus é paciente conosco, com nossas fraquezas, leva-nos a sermos tolerantes com os outros. A intransigência é fonte de violência. “Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente toda vez que tiverdes queixas contra os outros.” (Cl 3, 13).
Rezar a Deus pelos vivos e pelos mortos. Nossa oração é sempre um ato eclesial. Rezo com a Igreja e pela Igreja, pelos que caminham conosco e pelos que já partiram. Em Cristo, formamos uma comunhão que nos une a todos, vivos e falecidos. A oração de intercessão liberta-nos de nosso individualismo e nos torna generosos. “Em todas as minhas orações, sempre peço com alegria por todos vós [...], pois vos tenho no coração.” (Fl 1,4.7), diz São Paulo.
Enfim, “a experiência da misericórdia torna-se visível no testemunho de sinais concretos como próprio Jesus nos ensinou. Todas as vezes que um fiel viver uma ou mais desta obras [obras de misericórdia] pessoalmente obterá sem dúvida a indulgência jubilar.” (Papa Francisco).
CNBB 20-01-2016.
*Dom Adelar Baruffi é bispo de Cruz Alta (RS).
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Os primeiros serão os últimos

Quem acolhe os pequeninos, os mais desvalidos, ao próprio Deus é que acolhe.
Por Marcel Domergue*
Referências bíblicas:
1ª leitura: "Vamos condená-lo a morte vergonhosa..." (Sabedoria 2,12.17-20)
Salmo: Sl 53(54) - R/ É o Senhor quem sustenta a minha vida!
2ª leitura: "O fruto da justiça é semeado na paz, para aqueles que promovem a paz" (Tiago 3,16- 4,3)
Evangelho: "Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos" (Marcos 9,30-37)
A tentação do primeiro lugar
Jesus havia acabado de anunciar que iria ser entregue nas mãos dos homens e que seria morto, crucificado como um malfeitor, como um homem de quem é preciso livrar-se para o bem de todos. O evangelista acrescenta que “os discípulos não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar”. Ora, se temiam interrogá-lo, como de hábito não deixavam de fazer, era sem dúvida porque tinham medo da resposta. Em todo caso, encontravam-se de tal modo nos antípodas do que Jesus acabara de lhes dizer que discutiam sobre quem dentre eles seria o maior. Nem se tratava de saber quem era o melhor, o que seria já bastante pretensioso, mas quem era o primeiro; não é a mesma coisa! Uma manifestação típica da ambição. Mesmo os que, hoje como ontem, deixaram tudo para seguir o Cristo podem ser possuídos por este "demônio". Considerar-se superior, deixar para trás os outros, ocupar o primeiro lugar, num certo domínio ou em todas as coisas. Isto provém no fundo da necessidade de afirmação do próprio valor, do medo de seu próprio vazio, do temor de não estar à altura. A fé é, portanto, o que está em causa: a fé na vida, que é uma forma obscura da fé em Deus. A ambição, pois é disto exatamente que se trata, introduz com facilidade a violência em toda competição. Não esqueçamos que Gênesis 3 apresenta o pecado do homem como a ambição de se fazer "como Deus"; que o primeiro homicídio, o de Abel por Caim, é atribuído à inveja; e que Marcos 15,10 diz que Pilatos compreende ser por inveja que os chefes dos sacerdotes querem a morte de Jesus.
O desejo fundamental
A segunda leitura expressa em termos vigorosos a perversão da ambição. Tiago viu muito bem que os nossos conflitos travados à luz do dia nascem de um conflito que é interior a cada um de nós, entre o nosso desejo de acolher e a nossa vontade de arrebatar. Notemos que nossa ambição por ocupar o primeiro lugar nos deixa a sós conosco mesmo: os outros se tornam de fato simples instrumentos a serem usados para a nossa grandeza. Fechados no círculo do culto ao nosso ego, não sabemos mais que só podemos ser nós mesmos de verdade através da nossa aliança com os outros. Aliança em sentido forte, que nos faz sair das nossas prisões interiores para fazer-nos aceder à semelhança com Deus, que, sendo Um, é Pai, Filho e Espírito, e que se revela a nós como quem se dá, para nos fazer viver. E estamos assim de volta ao anúncio da Paixão, na qual Jesus vai se entregar às nossas cobiças (a "inveja" de Mateus e de Marcos). Ali, ele será "o último de todos" e se fará "servidor de todos", como diz a leitura. Para aí é que nos deve conduzir o nosso desejo profundo, a nossa "ambição", o projeto da nossa existência. Porque não temos outro caminho para nos construirmos à imagem de Deus, ou seja, para existirmos. "O caminho, a verdade e a vida" estão aí, e a este preço. Será que imaginamos poder permanecer em vida fazendo-nos diferentes do Filho, separando-nos da "imagem do Deus invisível"?
Como uma criança
Aqui estamos nós, convidados a voltar sempre ao nosso início, ao estado de não poder nada, exceto acolher o que está por vir, o nosso futuro imprevisível. A voltar, portanto, a um tempo de abertura absoluta. Mas a ambição, na verdade, pode vir a contaminar o nosso desejo: o joio pode crescer misturado à boa semente. Não podemos confundir infância e inocência. O fato é que a criança é o ser humano em sua abertura; ela é, em sua incompletude, o acolhimento ao que vem. Tem a vida toda pela frente. E, para isso, é preciso contar com um fundo de esperança, com a confiança no futuro, mesmo que esta confiança permaneça escondida abaixo da consciência. É esta a fonte da alegria de viver das crianças. A confiança na vida que está por vir passa pela fé, pela abertura confiante em relação às pessoas que estão ao redor da criança, os pais em primeiro lugar, é claro. A criança é antes de tudo filha ou filho de uma mulher e um homem que foram o caminho da ação criadora de Deus. Mas aqui, segundo Marcos, Jesus não está falando da necessidade de que voltemos à abertura e à confiança da nossa infância. Aqui ele nos convida a que, em seu nome, recebamos o mais pobre, o mais desvalido, aquele que nada tem e que, por isso, só pode contar com os outros. Acolher estas pessoas é acolhê-lo, a ele mesmo, e, enfim, acolher o próprio Deus. Deus -e isto nos foi revelado, manifestado no que Cristo viveu - entregou-se em nossas mãos. Tendo nós em vista foi que Deus se fez a si mesmo criança nossa. Entregou-se totalmente à nossa dependência e temos o poder de aceitá-lo ou de recusá-lo.
Sítio Croire 18-09-2015.
*Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês.
20/09/2015  |  domtotal.com
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Hoje, é celebrado São João Crisóstomo, o “boca de ouro”

REDAÇÃO CENTRAL, 13 Set. 15 / 08:00 am (ACI).- Hoje a Igreja Católica celebra a memória litúrgica de São João Crisóstomo, que significa “boca de ouro”. Foi chamado assim pelas pessoas por ser um dos mais famosos oradores que a Igreja teve.
São João, que também é Doutor da Igreja, nasceu na Antioquia (Síria), no ano 347. Estando na escola já causava admiração com suas declamações e intervenções nas academias literárias.
Depois de ter vivido como monge em sua casa e no deserto, foi ordenado sacerdote e começou a deslumbrar com seus maravilhosos sermões. O santo considerava como sua primeira obrigação o cuidado e a instrução dos pobres, e jamais deixou de falar deles em seus sermões e de incitar ao povo à esmola.
São João foi consagrado Arcebispo de Constantinopla no ano 398 e empreendeu a reforma do clero. Mandou tirar todos os luxos do palácio e com as cortinas elegantes se fabricaram vestidos para os pobres. Exigiu que seus sacerdotes e monges fossem pobres no vestir, comer e em seu mobiliário, para dar bom exemplo.
A eloquência e o zelo do santo levaram à penitência muitos pecadores e converteram muitos idólatras e hereges.
Outra das atividades às quais o São João consagrou suas energias foi a fundação de comunidades de mulheres piedosas, sendo a mais ilustre a nobre Santa Olímpia. O santo Bispo se distinguiu também por seu extraordinário espírito de oração, virtude esta que pregou incansavelmente, e exortou os fiéis à comunhão frequente.
Foi banido duas vezes por conspiração da rainha Eudóxia e do Bispo da Alexandria, Téofilo. No último desterro perante as penosas condições da viagem e a crueldade dos soldados imperiais, São Crisóstomo faleceu em 14 de setembro de 407, dizendo: “Seja dada glória a Deus por tudo”. Em 1909, São Pio X declarou o santo “Patrono dos Pregadores”.
acidigital
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O cuidado com a Terra

                                   “Feliz de quem atravessa a vida tendo mil razões para viver”.
Por Dom Murilo S.R. Krieger*
“Dominai a terra!” (Gn 1,28). Com essa ordem do Senhor, dada ao homem e à mulher, começava uma nova etapa na história do universo. Essa etapa deveria ser marcada pela paz, ter como característica o trabalho e ser envolvida por um relacionamento que, séculos mais tarde, Jesus explicitaria em suas pregações.
Conhecemos a resposta que a humanidade deu ao Criador: autossuficiência e desobediência. Esse comportamento está bem sintetizado no episódio da Torre de Babel. Ao plano de Deus, os seres humanos responderam com um outro, marcado pela ambição: “Vamos construir para nós uma cidade e uma torre que chegue até o céu. Assim ficaremos famosos” (Gn 11,4).
Curioso, o ser humano! Convidado a colaborar na construção do mundo, respondeu com uma manifestação marcada pelo orgulho e pela vaidade. Deus, contudo, não deixou de amar seus filhos e continuou confiando neles, respeitando a liberdade que Ele próprio lhes dera. Tanto continuamos livres que, ainda hoje, temos o poder de construir novas “torres de Babel”.
Olhemos nossas cidades. Elas, que deveriam ser um espaço de fraternidade, um campo para colocarmos em prática sentimentos marcados pela solidariedade e uma grande casa para a família dos filhos de Deus, transformaram-se em centros de ganância, de lucro e de egoísmo. É essa a crítica que o Papa Francisco faz em sua encíclica "Laudato si", "sobre o cuidado da casa comum": nossa irmã terra "clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou".
Coloquemo-nos no lugar de um estrangeiro que nos visitasse. Desejoso de conhecer as cidades das quais tanto nos orgulhamos, sairia por suas ruas e praças, entraria em prédios e favelas, relacionar-se-ia com pessoas estudadas e analfabetas, com ricos e pobres. No fim, o que constataria? Talvez comprovasse que palavras como amizade, solidariedade e fraternidade fazem parte de nosso vocabulário, mas nem sempre estão presentes em nossa realidade.
Essa realidade impõe um grande desafio para todos: ser "pastores". A palavra "pastor" lembra o trabalho daquele que congrega as ovelhas, as une, aproxima-se delas, cuida das que estão feridas e preocupa-se com as que se perdem. O pastor não aceita ficar indiferente diante do sofrimento e das incertezas vividos por pessoas que sofrem de solidão, estão desiludidas, desempregadas, sem casa ou sem emprego – e, pior, sem esperança.
A solução para nossos problemas não é fácil. Não existe uma varinha mágica que faça a sociedade superar, de um momento para outro, erros praticados durante décadas ou, mesmo, séculos. Sem a colaboração de toda a sociedade (destaco o papel das organizações não governamentais) e uma firme decisão dos que nos governam (a começar pela de serem eficientes e honestos), nossos problemas só se multiplicarão. Há todo um sistema de vida que precisa ser revisto; há todo um modelo de sociedade que necessita ser reformulado.
Para não construirmos uma nova Torre de Babel, só há uma solução: falarmos a mesma língua – a do amor. Seremos capazes, então, de olhar para nossos problemas e julgá-los com o olhar do Criador, que deu o mundo para todos os seus filhos e não apenas para um pequeno grupo. O próximo passo consistirá em multiplicarmos iniciativas para ajudar os que socialmente nada são e nada têm, uma vez que, sozinhos, eles não conseguirão sair da situação em que se encontram. Depois, procuraremos "unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral" (Papa Francisco).
São metas ambiciosas, é verdade. Mas, como lembrava Dom Helder Câmara, “Feliz de quem atravessa a vida tendo mil razões para viver”.
CNBB 27-08-2015.
*Dom Murilo S.R. Krieger é arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil.
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A sinistra poesia do balé da morte

                          Imagem lembra as estrelas que se vêem na bandeira da União Européia.
Nesses mares revoltos nossa hipocrisia atingiu as águas mais profundas.
Por Ricardo Soares*
Em um planeta todos os dias bombardeado por milhões de imagens que vem de todos os lados fica difícil comentar as mais impactantes, ou mesmo refletir sobre elas, dada a velocidade com que nascem e morrem nos dias seguintes. Apesar disso, quero aqui puxar pela memória do leitor e comentar a imagem que mais me impressionou, sobre a mais recente onda de mortes de imigrantes nas águas do Mediterrâneo.
Não estou falando das imagens das muitas crianças mortas que chegaram afogadas à praia. com suas expressões entre a serenidade e a estupefação. Não estou falando dos restos de barcos toscos, de comida, de objetos que flutuam revelando serem inúteis partes desimportantes de vidas dadas como desimportantes. A imagem que mais me entristeceu e chocou na semana passada foi uma tomada de cima. onde uma dúzia de afogados formavam um círculo perfeito, boiando sobre as águas escuras do mar que os matou. Ao centro desse circulo dois ou três objetos como pontinhos de uma foto-pintura absolutamente surreal, que não seria imaginada nem na gótica mente de um Bosch contemporâneo. A sinistra poesia de um balé da morte.
O horror dessa foto paradoxalmente revela uma beleza macabra de composição, que atenua a nossa percepção do quanto aquilo é desumano, absurdo, impensável num mundo civilizado. E mais surreal ainda que esse amontoado de cadáveres em círculo de imigrantes afogados lembre tristemente as estrelas que se vêem na bandeira da União Européia.
Escrever sobre uma imagem amplamente difundida talvez seja inócuo ou dispensável. Muita gente viu. Mas não consigo pensar e nem escrever hoje sobre outra coisa diante da indiferença mundial diante dessa imagem de raro impacto poético. Imagem que representa uma indiferença abissal que temos diante desses milhares à deriva pelos mares do mundo, levados como peixe podre até as praias dos países tubarões, que, na verdade, fabricaram a secular tragédia do colonialismo, origem, ovo da serpente de toda essa tragédia que se dá na costa européia. São humanos como todos nós esses que perecem. Mas ao vê-los assim de cima, mortos à deriva, não se parecem com nada que seja humano. O desumano ao qual são submetidos os transforma em máscaras de horror, para as quais o cinismo do mundo “civilizado” não quer nem olhar. Nesses mares revoltos nossa hipocrisia atingiu as águas mais profundas.
*Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Autor de 7 livros foi cronista dos jornais “O Estado de S.Paulo”, “Jornal da Tarde”, “Diário do Grande Abc” e da revista “Rolling Stone”.
31/08/2015  |  domtotal.com
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Às vezes precisamos voltar às fontes e recomeçar a partir de Cristo

Erexim, RS 27 ago (sirnotivias@hotmail.com) - "Catequizar é evangelizar" é o título do artigo semanal de Dom José Gislon, Bispo da Diocese de Erexim, no Estado do Rio Grande do Sul. Ele inicia o texto afirmando que neste último domingo do mês vocacional celebramos o Dia Nacional do Catequista. Conforme nós, além das orações, da nossa estima e carinho, manifestamos a gratidão da Igreja Diocesana aos catequistas, que, por amor a Cristo, acompanham as crianças, adolescentes, jovens e adultos no processo da iniciação cristã.
O Prelado destaca que nas comunidades da região são centenas de mulheres, homens e jovens que abraçaram a vocação de catequista por amor à causa do Reino de Deus. Ele acredita que para a Igreja, os pais são os primeiros e principais responsáveis pela vida e pela educação de seus filhos; são os educadores da fé, mas também não podemos fechar os olhos diante da realidade de uma sociedade na qual as famílias vivem muitas vezes as fragilidades de uma mudança de época.
"Mesmo que a família e toda comunidade cristã sejam responsáveis pela catequese, por palavras e pelo testemunho de vida, é indispensável a figura do/a catequista como educador da fé na vida da Igreja, tendo sempre presente que muitos foram iniciados na vida cristã pelo batismo, mas não suficientemente evangelizados ou educados para abraçar a fé que nasce e se alimenta do encontro com Jesus Cristo, através da Palavra de Deus e da Eucaristia", avalia.
Além disso, o Bispo salienta que o catequista na sua missão evangelizadora não é mero instrutor da doutrina, mas também pessoa que fez a experiência do encontro com Jesus Cristo na sua vida de fé. Por isso, explica Dom José, vive o discipulado, ajudando na iniciação cristã, em comunhão, servindo na missão como catequista os irmãos na comunidade.
Por fim, o Prelado afirma que às vezes precisamos ter a ousadia de voltar às fontes e recomeçar a partir de Jesus Cristo, para superar a tentação do desânimo e do cansaço, imitando o Bom Mestre que soube se colocar em comunhão com o Pai através da oração, para superar os desafios da missão.
Ele ainda cita o Papa Francisco, que nos recorda: "Em meio a uma cultura da indiferença e do secularismo que avança a passos largos, é preciso rezar para que a alma não definhe, o coração não perca seu calor e a ação não se deixe invadir pela covardia. Não devemos ceder à tentação minimalista de se contentar apenas em conservar a fé e ficar satisfeitos porque alguns continuam frequentando a catequese. Precisamos saber ir ao encontro daqueles que não vêm. Os cansaços do caminho não podem deter nossos passos, pois isso equivaleria a paralisar a vida. O paradoxo cristão exige que o discípulo, em seu itinerário do coração, precise sair para poder permanecer, mudar para poder ser fiel".
SIR - 27/08/2015  |  domtotal.com
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Dom Helder Câmara partia há 16 anos - ORAÇÃO

Celebramos neste dia 27 de agosto os dezesseis anos do martírio “branco” do Dom da Paz.
Por Padre Geovane Saraiva*
Aos 27 de agosto de 1999, após completar noventa anos, vividos e bem vividos, Dom Helder foi chamado ao seio do Pai. Ele é hoje Servo de Deus (03/05/2015), Dom da Paz. Celebrava a missa lentamente, com toda simplicidade, como se estivesse conversando com o Cristo, a Virgem, os santos. “Cada manhã, ao fim da missa, eu contemplo o mundo com a alma de um colegial em férias e tenho vontade de gritar àqueles que se esgotam na agitação da vida cotidiana: ‘Irmãos, hoje é feriado universal’.”
Logo que chegou ao Rio de Janeiro, em 1936, em uma hora santa do clero, na qual o Cardeal Sebastião Leme criara os turnos de Adoração ao Santíssimo Sacramento, o jovem Padre Helder subiu ao púlpito para o seu primeiro sermão junto aos colegas de sua nova arquidiocese. A figura magra, pálida, de olhos fechados, mãos trêmulas e exaltada pronunciou uma oração que até bem pouco era recordada pelos padres daquela Igreja do Rio. Foi quase um escândalo: Dom Helder cobrou dos sacerdotes aquele fervor e aquele entusiasmo que no dia a dia, pouco a pouco, ia se arrefecendo. Parecia em transe, alçada sobre a cabeça de todos os padres da “Cidade Maravilhosa”, enumerando as tibiezas de todos e de cada um, o desamor ao trabalho pastoral, bem como a falta de garra no apostolado, etc.
Marcado por uma graça incomensurável por onde passou, mesmo quando teve que ir para o ostracismo, ficando no isolamento e excluído dos meios de comunicação social, durante o regime militar, o qual via nele um risco e um perigo à democracia, permaneceu forte e corajoso, sem nunca se abalar, deixando marcas profundas e indeléveis. Sua força imaginadora, sua criatividade e, sobretudo, sua capacidade de produzir e de realizar foram extraordinárias, surgindo uma nova Igreja, uma Igreja marcada profundamente pela esperança, como ele afirmava: “Esperança é crer na aventura do amor, jogar nos homens, pular no escuro, confiando em Deus”. Ele se antecipou, em ideias e vestes, ao aggiornamento que o Papa João XXIII promoveu e com o qual iria revolucionar, não apenas a Igreja, mas o nosso mundo hodierno.
Dom Helder foi um articulador; na melhor expressão da palavra, um conspirador, pensando no bem, com suas iniciativas compartilhadas por muita gente da Igreja, desejando fazer com que a Igreja-Instituição se comprometesse e se engajasse na causa dos empobrecidos, identificando-se com seu fundador e mestre, Nosso Senhor Jesus Cristo. Pensava e desejava ele uma Igreja despojada, pobre e mais servidora. Daí o “Pacto das Catacumbas”, de 16 de novembro de 1965, que foi uma excelente oportunidade para os bispos pensarem e refletirem, sobre eles mesmos, no sentido de fazer uma experiência de vida, na simplicidade e na pobreza, em uma Igreja encarnada na realidade, comprometida com o povo, renunciando às aparências de riqueza, dizendo não às vaidades, consciente da justiça e da caridade, através desse documento salutar e desafiador.
Já ao assumir a Arquidiocese de Olinda e Recife, em abril de 1964, no seu profético pronunciamento, na tomada de posse, disse com firmeza: “Quem estiver sofrendo, no corpo ou na alma; quem, pobre ou rico, estiver desesperado terá lugar especial no coração do bispo”. A pregação do Evangelho foi, para ele, ao mesmo tempo, candente, misericordiosa, apaixonada e sensata. Aprendamos, pois, do pastor dos empobrecidos, do cidadão planetário, referencial e nosso grande e maior patrimônio, falecido há 16 anos na cidade de Recife, PE, que, entre incontáveis pensamentos, concluo neste: “Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como a minha sombra”.
No dia 25 de setembro de 1981, ele escreveu esta prece que apresentou na Rádio Olinda: “Pai Celeste! Como escutas o pedido do pão de cada dia da parte dos que temos pão garantido para o ano todo e até para toda a vida? Como escutas o pedido do pão de cada dia da parte dos que, tantas vezes, veem o dia acabar, sem que chegue o pão!?… O grave é que se temos pão para o mês inteiro, para o ano todo, ou para toda a vida, é porque direta ou indiretamente tiramos o pão de cada dia da boca de muita gente! Pai, que a ninguém falte o pão de cada dia! Amém!”.
Oração: Graças por intercessão de Dom Helder Câmara:
Ó Deus altíssimo, boníssimo e terníssimo, que quisestes se revelar em toda vossa plenitude, na generosidade, doação, renúncia e criatividade do vosso servo Dom Helder Câmara. Vivendo agora a expectativa da beatificação e canonização do vosso místico e Dom da Paz, suplicamos com humildade e confiança que venhais em socorro da humanidade, nas injustiças, dores e angústias de toda natureza por que passa a criatura humana e todo o Universo. Que o nosso bom Deus seja sempre mais louvado, através do Servo de Deus, Dom Helder, instrumento da vossa paz e do vosso amor. Usando as palavras do Santo Padre, o Papa Francisco: “No fim, encontrar-nos-emos face a face com a beleza infinita de Deus e poderemos ler, com jubilosa admiração, o mistério do Universo, o qual terá parte conosco na plenitude sem fim”1, na mais viva esperança, ó Pai, de vermos todas as coisas renovadas. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na Unidade do Espírito Santo. Amém.                 
Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória ao Pai.
______________________
*Padre Geovane Saraiva
Pároco de Santo Afonso, Parquelândia – Fortaleza – CE
A oração não é oficial
1 Laudato Si’, 243
27/08/2015  |  domtotal.com
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Beata Madre Teresa de Calcutá estaria completando hoje 105 anos de idade

Por Maria Ximena Rondón REDAÇÃO CENTRAL, 27 Ago. 15 / 12:15 pm (ACI).- “De sangue sou albanesa. De cidadania, indiana. Em relação à fé, sou uma religiosa católica. Pela minha vocação, pertenço ao mundo. E o meu coração, pertence totalmente ao Coração de Jesus”, dizia Beata Madre Teresa.
Agnes Gonxha Bojaxhia nasceu no dia 26 de agosto de 1910 em Skopje (atual Macedônia). Seus pais foram Nikola e Drane Bojaxhia. Fez sua Primeira Comunhão com apenas cinco anos e meio, e recebeu a Crisma em 1916. Desde pequena recebeu uma profunda formação religiosa na Paróquia Sagrado Coração, a cargo dos jesuítas.
Seu pai morreu quando ela tinha oito anos. Esta perda causou problemas econômicos em sua família. Aos 18 anos de idade ingressou no Instituto da Bem-aventurada Virgem Maria, conhecido como as Irmãs de Loreto, na Irlanda. Ali tomou o nome de Irmã Maria Teresa em honra à Santa Teresa de Lisieux.
A Beata chegou à Índia no dia 6 de janeiro de 1929. Em maio de 1931, professou seus primeiros votos e foi enviada à comunidade de Loreto Entally, em Calcutá, como professora do colégio para meninas St. Mary.
No dia 24 de maio de 1937 se converteu em “esposa de Jesus para toda a eternidade” ao fazer seus votos perpétuos. A partir deste momento, chamaram-na de Madre Teresa. Permaneceu durante 20 anos dedicada ao ensino, inclusive ocupou o cargo de diretora do colégio St. Mary. Nesse tempo se caracterizou pela sua profunda piedade, pelo amor com o qual tratava suas irmãs religiosas e suas alunas. Também foi uma grande administradora e trabalhadora.
O chamado dentro do chamado
Em 10 de setembro de 1946, durante uma viagem à Darjeeling para ter seu retiro anual, Madre Teresa recebeu espécie de uma “inspiração” ou seu “chamado dentro do chamado”.
Naquele dia a sede de amor e de almas se apoderou do seu coração. Durante as próximas semanas, mediante locuções interiores e visões, o próprio Jesus lhe revelou seu desejo de encontrar “vítimas de amor” que “irradiassem seu amor às almas”. “Vêm ser minha luz. Não posso estar sozinho”, disse-lhe Jesus.
Para responder esse chamado, no dia 17 de agosto de 1948, Madre Teresa vestiu pela primeira vez o sari branco orlado de azul e saiu do convento de Loreto para introduzir-se no mundo dos mais pobres.
Percorreu os bairros mais pobres, visitou famílias, lavou as feridas das crianças e ajudou os esquecidos. Todos os dias recebia a Eucaristia e saía de sua casa com o rosário na mão. Alguns meses depois, algumas mulheres se uniram a este chamado.
Cristo pediu à Beata que fundasse uma congregação religiosa, que mais tarde seria as Missionárias da Caridade, dedicada ao serviço aos mais pobres entre os pobres.
Em 1950, fundou oficialmente a Congregação das Missionárias da Caridade. Posteriormente, enviou algumas irmãs à outras partes da Índia e abriu outras casas na Venezuela, em Roma, na Tanzânia e inclusive em quase todos os países que nessa época faziam parte da União Soviética.
Também fundou os Irmãos Missionários da Caridade, o ramo contemplativo das Irmãs, os Irmãos Contemplativos, os Padres Missionários da Caridade, os Colaboradores de Madre Teresa e os Colaboradores doentes e que sofrem. Posteriormente fundou a congregação de Missionários da Caridade Leigos e o Movimento Sacerdotal Corpus Christi.
Esteve atenta a sua imensa obra. Descansava pouco, quase não comia, rezava durante horas e atendia os pobres.
Em 1979, outorgaram-lhe o Prêmio Nobel da Paz. Desde então, a mídia seguiu atentamente suas obras, que davam testemunho da alegria do amor, da grandeza e da dignidade de cada pessoa humana.
Apesar dos seus problemas de saúde, Madre Teresa continuou servindo os pobres até o fim da sua vida.
Depois do seu último encontro com São João Paulo II, retornou à Calcutá e, em 5 de setembro de 1997, partiu para a Casa do Pai.
Durante a Missa de Beatificação, no dia 19 de outubro de 2003, São João Paulo II disse: “Veneremos esta pequena mulher apaixonada por Deus, humilde mensageira do Evangelho e infatigável benfeitora da humanidade. Honremos nela uma das personalidades mais relevantes de nossa época. Acolhamos sua mensagem e sigamos seu exemplo”.
acidigital
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O mundo restaurado em Cristo

                      Para Papa, Cristo não é um acessório opcional, é o 'pão vivo', o alimento essencial.
                             
                          Nascemos para uma missão: de viver com esperança o sonho do Pai.
Por Geovane Saraiva*
Na oração pelo planeta Terra, no final da Encíclica Laudato Si', vemos o Santo Padre totalmente envolvido com o cuidado da casa comum, de tal modo que todos sejam atingidos e, como resultado, que tudo seja restaurado: "Ensinai-nos a descobrir o valor de cada coisa, a contemplar com encanto, a reconhecer que estamos profundamente unidos com todas as criaturas no nosso caminho para a vossa luz infinita. Obrigado porque estais conosco todos os dias. Sustentai-nos, por favor, na nossa luta pela justiça, o amor e a paz". Como é imprescindível olhar o Livro Sagrado, em especial, para o Novo Testamento, a partir da pessoa de Jesus de Nazaré, porque nele a esperança tornou-se uma expectativa de confiança, de proteção e de bênção de Deus, indicando o caminho celestial com a criatura humana, cada dia tornando-se mais humano e a Terra, que é dádiva de Deus, mais habitável e generosa, no seu papel de cumprir as promessas da aliança, em que fé e esperança caminham intimamente entrelaçadas.
É  com esse mesmo espírito que associamo-nos ao Romano Pontífice, na sua alocução antes da oração mariana do Angelus, dirigindo-se aos milhares de fiéis e peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, ao comentar o Evangelho da missa do 21º Domingo do Tempo Comum (23/08/2015). Na expressão, logo no início do Evangelho: "Esta palavra é dura. Quem pode escutá-la?" (cf. Jo 6, 60), a palavra de Jesus causa decepção no povo e mesmo nos discípulos. A partir daquele momento, Jesus percebe que "muitos dos seus discípulos haviam desistido e perante estas deserções, Jesus não poupa e nem atenua as suas palavras, ao contrário, obriga a fazer uma escolha precisa: ou estar com Ele ou separar-se d'Ele, e diz aos Doze: Também vós quereis ir embora? E é então quando São Pedro faz a sua confissão de fé em nome dos outros Apóstolos: "Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna".
A vida humana, segundo Santo Agostinho, na sua preciosa obra, A Cidade de Deus, se desenvolve entre duas grandes forças, dois dramáticos e contrastantes amores, a saber: "Dois amores edificaram duas cidades: o amor-próprio, levado pelo desprezo a Deus, a cidade terrena; o amor a Deus, levado ao desprezo de si próprio, a cidade celestial". Vemos, pois, que o primeiro gira em torno de si próprio e o segundo é evidente que gira em torno de Deus. Que a resposta de Pedro, "A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna", ajude-nos a compreender que o sonho de Deus Pai é de um mundo novo, restaurado no amor. Daí contarmos sempre mais com sua bondade infinita, no dizer do Santo Padre em Aparecida: "Conservar a esperança, deixar-se surpreender por Deus, viver na alegria" (24/07/2013). Nascemos para uma missão: de viver com esperança o sonho do Pai, que também é nosso, no dizer de Dom Helder: "Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha no nosso Eu. É não se deixar bloquear nos problemas do pequeno mundo a que pertencemos: humanidade é maior (...)", na expectativa dos bons frutos aqui e na vida futura, na ressurreição definitiva junto de Deus, naquele presente muito eterno e feliz! "Tenho para mim que as aflições deste tempo presente não se podem comparar com a glória que em nós há de ser revelada, porque a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus" (cf. Rm 8, 18-19).
Daquela interrogação de Pedro, entendemos que a fidelidade a Deus é uma questão de fidelidade a uma pessoa, e essa pessoa é Jesus, segundo o Sumo Pontífice: "Tudo o que temos no mundo não satisfaz a nossa fome de infinito. Precisamos de Jesus, de estar com Ele, de nos alimentar à sua mesa, das suas palavras de vida eterna! Crer em Jesus significa fazer d'Ele o centro, o sentido da nossa vida. Cristo não é um acessório opcional, é o 'pão vivo', o alimento essencial".
Deus nos dê a graça de sempre compreender e viver das palavras de vida eterna,  no rigor espiritual e poético do Servo de Deus, Dom Helder Câmara: "Aceita as surpresas que transformam teus planos, derrubam teus sonhos, dão rumo totalmente diverso ao teu dia e, quem sabe, à tua vida. Não há acaso. Dá liberdade ao Pai para que ELE mesmo conduza a trama dos teus dias". Assim seja!
*Escritor, blogueiro, colunista, vice-presidente da Previdência Sacerdotal e Pároco de Santo Afonso, Parquelândia, Fortaleza-CE – geovanesaraiva@gmail.com
27/08/2015  |  domtotal.com
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Maná

Por Dom José Alberto Moura*
Enquanto muitos vivem na opulência, outros na miséria. O ser humano sempre tende a buscar o necessário para viver dignamente. Uns conseguem honesta ou desonestamente. Outros não têm oportunidade para isso, apesar da suficiente comida e meios de sobrevivência que os fazem ter o bem estar suficiente na vida.
Os antigos judeus, na caminhada do deserto rumo à terra prometida, clamavam por alimento. Deus fez chover o maná para alimentá-los em todo percurso, que durou quarenta anos (Cf. Êxodo 16,215).
No tempo da caminhada humana na terra, para muitos é como caminhar no deserto. Falta tudo. É preciso acontecer milagre para sobreviverem e conseguirem ser tratados como pessoas humanas. O desafio é grande. Existem alimentos para todos, bem como o fruto do desenvolvimento econômico, cultural, científico e tecnológico. Como distribuir isso para todos terem acesso ao que lhes cabe de direito por viverem no planeta que Deus criou para cada um? É verdade que Deus faz prodígios em benefício da humanidade, criada à sua imagem e semelhança. Isso significa: Ele criou e cuida de tudo. O ser humano recebeu a incumbência de cuidar deste planeta, com amor e solidariedade. O Criador faz a própria parte, mas não faz o que nos compete, por valorizar-nos. Se fizermos o dever de casa seremos recompensados já na terra e um dia na eternidade. Ao contrário, não teremos parte com Ele. Muitos levam uma vida “folgada” e já recebem aqui sua recompensa. No dia do julgamento veremos o efeito disso!
Deus faz milagres, mas nos dá a incumbência de também o fazemos. Isso acontece com abertura de amor e solidariedade em relação ao semelhante. Na disponibilidade para servirmos a comunidade com os dons recebidos, fazemos de nosso convívio um ambiente de harmonia, compaixão, misericórdia, promoção dos deixados de lado, inclusão social, usando a política para o real serviço ao bem comum, com superação da desonestidade e da trapaça. Teremos mais justiça e mútuo apoio. Afinal estamos no mesmo barco da vida. É preciso torná-lo bom e seguro para todos. O maná da sustentabilidade da vida digna vai acontecendo. Todos terão vida adequada à sua realização humana.
Jesus promete o verdadeiro pão, que dá vida plena. Institui até a Eucaristia. Dá tudo de si para termos a realidade da vida presente como caução da vida futura: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim numa mais terá sede” (João 6,35). Ele não se cansa de admoestar-nos para segui-Lo, fazendo o que Ele fez e nos ensina e praticá-lo. Por isso, se também dermos de nós em bem do próximo nos enchemos da vitalidade do amor dele e teremos uma convivência de mútua doação. Acontece o milagre da multiplicação do maná que alimenta a todos de dignidade e altivez humana!
O apóstolo Paulo admoesta-nos para modificarmos nossa conduta, vivendo como pessoas novas, superando a maldade e convertendo-nos para sermos pessoas que vivem conforme a imagem de Deus, em justiça e santidade (Cf. Efésios 4,22-24). Dessa forma, somos capazes de transformar nosso relacionamento social para sermos pessoas do bem, que produzem meios de sustentabilidade ética e humana para a comunidade. Produz-se, então, o que alimenta a vida de fraternidade.
CNBB 30-07-2015.
*Dom José Alberto Moura é arcebispo de Montes Claros (MG).
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Eu sou o Pão da Vida

Por Cardeal Orani João Tempesta*
A Liturgia da Palavra do XIX Domingo do Tempo Comum esteve centralizada na leitura do evangelho da multiplicação dos pães. Estamos lendo aos domingos o capítulo 6º do Evangelho de João. Jesus reclama porque os judeus não quiseram compreender o sinal da multiplicação. Claramente, Ele afirma: “Eu sou o pão que desceu do céu! Quem dele comer, nunca morrerá”!
Eis aqui a grande revelação do Senhor! Os interlocutores de Jesus só conseguem ver a superfície, somente compreendem que Ele é o filho de José; não percebem, não creem que Ele vem do Pai, como alimento de nossa existência: Ele é o sustento, o alimento da nossa vida. Afinal, que é viver? Será simplesmente existir, respirar, sobreviver de qualquer modo, sem rumo, sem sentido, sem uma finalidade para a existência? Que vida seria essa? Pois bem, Jesus afirma que Ele dá o sustento verdadeiro à nossa vida; com Ele, a vida tem sentido, tem rumo, tem razão de ser; com Ele, descobriremos porque vivemos, descobrimos de onde vimos e para onde vamos, descobrimos que somos amados! Eu sou o pão da vossa vida! Precisais mais de mim que vosso corpo do pão de cada dia. Quem come desse pão que sou Eu, isto é, quem se alimenta de meu amor, de minhas palavras, de meu caminho, nunca viverá uma vida de mentira, de ilusão, de morte; antes, viverá de verdade.
Basta pensarmos na situação de Elias, na primeira leitura de hoje. Ele tinha vencido os profetas de Baal no monte Carmelo. Jezabel, a rainha idólatra, tinha prometido vingança e queria matá-lo. O profeta sentiu medo e fugiu, procurando esconder-se no deserto para encontrar inspiração e consolo no monte Sinai, o Monte de Deus. E lá vai Elias... Mas o caminho longo, os dias quentes do deserto, a solidão, a tensão da fuga, tudo isso traz desânimo e depressão ao profeta.
A vida lhe parece dura, amarga, sem sentido. Cansado, ele se rende e pede a morte: "Agora basta, Senhor! Tira a minha vida, pois não sou melhor que meus pais... Sou igual a todo mundo, não sou a palmatória do mundo... Cansei! Quero morrer"! Quantas vezes somos como Elias, quantas vezes a existência nos pesa, o sentido da vida parece nos esconder; quantas vezes parece que apenas sobrevivemos, mas não temos ideia para onde vai o caminho... O desengano do profeta é tão profundo que ele, deprimido, cai no sono. E o Senhor envia-lhe um anjo: “Levanta-te e come’! E ele viu junto à sua cabeça água e um pão assado... 'Ainda tens um longo caminho a percorrer'. Elias levantou-se, comeu e bebeu e, com a força desse alimento, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus”.
Caríssimos, também nós estamos a caminho, também nós precisamos de um pão como o de Elias. Em tempos de tantos falsos profetas, ao nos cansarmos, como Elias, temos o alimento que nos dá vigor no deserto da vida.
Esse pão o Senhor nos dá, esse pão é o próprio Cristo, que hoje nos diz: "Eu sou o pão da vossa vida"! Infelizmente para nós, caríssimos, nos iludimos, procurando saciar nossa fome de vida com coisas que não alimentam o coração. É aquela antiga queixa de Deus, pela boca do profeta Isaías: "Ah! Todos que tendes sede, vinde à água. Vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; comprai sem dinheiro e sem pagar, vinho e leite. Por que gastais dinheiro com aquilo que não é pão, e o produto do vosso trabalho com aquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me com toda atenção e comei o que é bom. Escutai e vinde a mim, ouvi-me e havereis de viver"! (Is 55,1-3).
O Senhor revela: "O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo"! É surpreendente, é inesperado! Aqui, o Senhor está falando claramente da Eucaristia: Eu sou o pão da vossa vida, eu vos alimento de vida e de sentido de viver; e eu fico entre vós, fico convosco, alimento-vos de um modo que não esperáveis; minha união convosco é total, absoluta: eu vos dou verdadeiramente minha carne, meu corpo morto e ressuscitado, como vida da vossa vida! Meus irmãos, não pode haver maior dom, maior intimidade, mais revigorante alimento! São muitos os que murmuravam no passado e muitos também hoje, mas Cristo, nosso Deus, que tem palavras de vida eterna e para quem nada é impossível, nos garante: "O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo"!
A Eucaristia, comunhão no santíssimo Corpo do Senhor, não somente é alimento para o nosso caminho, não somente o sustento da nossa vida, não somente é penhor de vida eterna, como também nos dá a graça que nos faz ser um só corpo em Cristo. Eis, que mistério tão profundo: comungando do Corpo do Senhor na Eucaristia, nós nos tornamos cada vez mais unidos no corpo do Senhor, que é a Igreja! Comunguemos, pois, e teremos força para viver o belo caminho que a segunda leitura deste domingo hoje nos aponta: "Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor". Eis aqui: a nossa participação no sacrifício eucarístico de Cristo, a nossa comunhão no seu corpo sacrificado e entregue amorosamente devem nos levar a um novo modo de viver, um modo que consiste na docilidade ao Espírito do Senhor morto e ressuscitado, que significa comunhão com Deus e com os irmãos.
Quem se alimenta desse Pão não contrista o Espírito Santo e é bom um para com o outro, imitando o Senhor, vivendo no amor e perdoando: "Sede bons uns para com os outros, sede compassivos; perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo"!
CNBB 07-08-2015.
*Cardeal Orani João Tempesta é arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ).
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O exemplo de Francisco

A escolha do nome indica o caminho do papa na reforma da Igreja e no combate aos males do mundo.
Por Claudio Bernabucci
De Roma - O papa Francisco é o homem do século XXI. A marca indelével que ele já deixou nos primeiros dois anos de pontificado e, na nossa opinião, continuará mantendo na nossa época, foi confirmada de maneira nítida por ocasião da recente viagem à América Latina. Acolhido com enorme entusiasmo em cada etapa, tanto na periferia pobre de Assunção quanto na Catedral de Quito, falando aos estudantes ou aos movimentos populares das diferentes nações, ainda uma vez Jorge Bergoglio conseguiu espalhar sua palavra com grande impacto, e atingiu o mundo inteiro.
A missão latino-americana representou um extraordinário sucesso de participação popular e de audiência mundial. Sua capacidade de análise integral, mesmo falando aos mais humildes, sejam catadores de lixo, sejam desempregados, lhe permite enfrentar as questões mais complexas com aquela simplicidade desarmante que convence e comove, superando qualquer barreira de língua ou de cultura.
Grande orador, na melhor tradição jesuíta, Francisco consegue falar com eficácia aos quatros cantos do mundo em qualquer circunstância, graças à mídia, que, favorável ou contrária, ecoa constantemente sua mensagem pastoral e o acompanha passo a passo, sem exclusão da sua imprevisível originalidade. Nesse anseio e com a dificuldade de definir o personagem, que sem dúvida não se encaixa em nenhum esquema anterior, até os jornais mais respeitados caem em banais escorregões, como aconteceu na semana passada com The Economist, ao dar o título “O papa peronista” a um artigo dedicado à recente viagem latino-americana. Voz sofisticada do establishment econômico-financeiro internacional, a revista britânica revelou-se, desta vez, no mínimo superficial, mas, não obstante a crítica implícita nesse título, os austeros colegas londrinos não conseguiram evitar definir o papa Francisco como um rock star.
A missão no Equador, na Bolívia e no Paraguai foi, de fato, a primeira em seu continente como fruto de escolha própria do papa argentino. A viagem ao Brasil em julho de 2013 tinha representado o cumprimento de uma promessa anterior feita por seu predecessor, Bento XVI, que decidira celebrar no Rio de Janeiro a Jornada Mundial da Juventude. Agora, no périplo por três países, Francisco passou oito dias, mudando de clima e altitude inúmeras vezes. Saiu de Roma com temperatura tropical de 35 graus para aterrissar no frescor de Quito com seus 2,8 mil metros de altitude. Desceu em seguida aos 40 metros de Guayaquil para subir de novo aos 4 mil metros do Aeroporto Internacional de El Alto, perto de uma La Paz ainda coberta de neve.
Depois de pronunciar 21 discursos e encontrar multidões, impressionou os jornalistas que o entrevistaram no avião, na viagem de volta, ao demonstrar aquele “vigor físico e espiritual” pleno que o papa Ratzinger admitira, honestamente, não ter mais no final do seu pontificado. Vigor que é, seguramente, fruto daquela injeção de entusiasmo e empatia da qual o papa precisava, depois de dois anos de pontificado particularmente intensos e que somente a volta às suas raízes sociais e religiosas podia lhe assegurar.
“A Igreja latino-americana tem grande riqueza: é uma Igreja jovem, com certo frescor, também com algumas informalidades. (...) Este povo e esta Igreja viva, com todos os seus problemas, representam uma riqueza. (...) Não devemos temer esta juventude. E esta Igreja, mesmo indisciplinada, com o tempo se disciplinará, mas nos dá um grande vigor.”
Com a viagem à América Latina, o papa Francisco continua desenhando o mapa ideal do seu pontificado e confirma sua opção pelo resgate das periferias do mundo. Não por acaso, os três países estão entre os mais pobres do continente e são alcançados depois das visitas a Sri Lanka e Filipinas, Turquia, Bósnia, Albânia e Palestina, países “críticos” por diferentes razões e por serem terras de recentes ou atuais conflitos. Para Bergoglio, “chegado do fim do mundo” à cadeira de São Pedro, a tentativa de dar protagonismo às periferias não tem um conteúdo abstrato ou ideológico, mas significa atenção concreta para os pobres e os excluídos. “É preciso seguir a Igreja”, ou seja, o povo de Deus. Aprender dos pobres e dos últimos, deixar-se evangelizar por eles – capazes de oferecer testemunhos de humana nobreza e solidariedade – sem esquecer nunca que os pobres não são apenas números na estatística, mas, sobretudo, nomes, rostos, histórias, pessoas de carne e osso com seus anseios e sofrimentos.
Não por acaso, esse papa demonstra-se tão à vontade quando encontra o povo, expresse ele ou não uma devoção religiosa. Esse fenômeno repetiu-se claramente por ocasião do II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, que se deu em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, no dia 9 de julho. Se o primeiro Encontro, convocado em Roma em novembro de 2014, como à época CartaCapital relatou aos seus leitores, demonstrou toda a radicalidade das posições sociais de Francisco, essa segunda ocasião para debater “os melhores caminhos para superar as graves situações de injustiça de que padecem os excluídos em todo o mundo” representou sem dúvida o momento crucial da visita latino-americana.
Francisco começou seu discurso com uma premissa: “Para que não haja mal-entendidos, falo dos problemas comuns de toda a humanidade. Problemas que têm uma matriz global e que atualmente nenhum Estado pode resolver por si só. (...) Digamo-lo sem medo: precisamos e queremos uma mudança. (...)Uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os povos (...) nem sequer o suporta a Terra, a irmã e Mãe Terra, como dizia São Francisco”.
Após a denúncia, o papa amplia o horizonte da sua análise: “Hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais. A globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir essa globalização da exclusão e da indiferença”.
A mudança desejada por muitos, para ser integral, deve abranger também o espírito. Ela poderia ser definida como “... redentora. Porque é dela que precisamos. Nos diferentes encontros, nas várias viagens, verifiquei que há uma expectativa, uma busca forte, um anseio de mudança em todos os povos do mundo. Mesmo dentro da minoria cada vez mais reduzida que pensa sair beneficiada deste sistema, reina a insatisfação e, sobretudo, a tristeza. Muitos esperam uma mudança que os liberte desta tristeza individualista que escraviza”.
“E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro do ‘esterco do diabo’: reina a ambição desenfreada de dinheiro. O serviço ao bem comum fica em segundo plano.”  Volta aqui a crítica frontal ao sistema econômico dominante: “Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa casa comum, a irmã e Mãe Terra.”
Ante a imensidão do desafio lançado, Francisco é prudente quando sublinha que “nem o papa nem a Igreja têm o monopólio da interpretação da realidade social e da proposta de soluções para problemas contemporâneos. Atrevo-me a dizer que não existe uma receita”. Mas, ao mesmo tempo, convidando os pobres a semear a mudança, ele indica a esperança como método. “Sabemos, amargamente, que uma mudança de estruturas que não seja acompanhada por uma conversão sincera das atitudes e do coração acaba a longo ou curto prazo por burocratizar-se, corromper-se e sucumbir. É preciso mudar o coração.” E, finalmente, recorrendo a uma imagem que será muito apreciada pelos budistas, ele conclui o raciocínio afirmando: “Por isso gosto tanto da imagem do processo, onde a paixão por semear, por regar serenamente o que outros verão florescer, substitui a ansiedade de ocupar todos os espaços de poder disponíveis e de ver resultados imediatos”.
Três tarefas foram indicadas pelo papa aos movimentos sociais: “A primeira é pôr a economia a serviço dos povos. (...) Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra”. E a mudança não é uma utopia: “É uma perspectiva extremamente realista. Os recursos disponíveis no mundo são mais que suficientes para o desenvolvimento integral de todos os homens”. A luta deverá ser concentrada, portanto, na “justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano”.
A segunda tarefa é o convite a “unir os povos no caminho da paz e da justiça”. Nesse percurso, um perigo grave vem do “novo colonialismo, que assume variadas fisionomias. Às vezes, é o poder anônimo do ídolo dinheiro: corporações, credores, alguns tratados denominados ‘de livre-comércio’ e a imposição de medidas de ‘austeridade’ que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres”. Em outras situações, o novo colonialismo se manifesta no interior de cada país, por meio da “concentração monopolista dos meios de comunicação social que pretende impor padrões alienantes de consumo e certa uniformidade cultural. (...) É o colonialismo ideológico”. (A família Marinho que fique em guarda...)
“E a terceira tarefa, talvez a mais importante que devemos assumir hoje, é defender a Mãe Terra.” Continuando a divulgação do conteúdo da recente encíclica Laudato Si’, reitera-se aqui a sensibilidade inovadora por uma ecologia integral e um novo sistema de relações internacionais que considere com sabedoria os interesses das futuras gerações. Isso significa recusar o “paradigma tecnocrático que tende a exercer o seu domínio também sobre a economia e a política. A economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em razão do lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas para o ser humano” e o meio ambiente.
As palavras conclusivas desse discurso foram corajosas e, de certa maneira, históricas: “Peço humildemente perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja, mas também pelos crimes contra os povos nativos durante a chamada Conquista da América”.
Além desse encontro na Bolívia, outro momento de particular intensidade foi durante o primeiro discurso no Paraguai, quando, diante das principais autoridades do país, Francisco homenageou a mulher paraguaia, definida como a espinha dorsal da nação e a “mais gloriosa da América”. A referência foi à Guerra da Tríplice Aliança (1865-1870) em que Brasil, Argentina e Uruguai, agredindo o Paraguai, realizaram um autêntico genocídio, ao massacrar a grande maioria dos paraguaios e reduzir a população masculina a somente 25 mil indivíduos. Nessa trágica situação, a mulher paraguaia revelou-se como autêntica mãe da nação, levando adiante “suas famílias e seu país, infundindo nas novas gerações a esperança de um amanhã melhor”.
Inevitável que, entre os conteúdos aqui relatados e a luta de classe, muitos reacionários considerem que o passo é pequeno.  A fobia do comunismo é ainda muito forte nessas camadas da sociedade, mas é evidente que a arma polêmica se revela sempre mais instrumental, sobretudo no caso de Francisco, que, desse ponto de vista, não se preocupa minimamente em ser acusado de marxista ou peronista, munido de argumentos fortes para se contrapor. Sua resposta às acusações de “comunismo” é que a escolha dos pobres é historicamente bem anterior e remonta ao Evangelho. Além disso, a doutrina social da Igreja, a partir da Rerum Novarum de Leão XIII (1891) até a Caritas in Veritate de Bento XVI (2009), passando pela Populorum Progressio de Paulo VI (1967), oferece uma referência de conteúdos avançados e nobres.
O problema, no entanto, foi a inadimplência pastoral da Igreja na realização desses ideais. Essa contradição imperdoável, a produzir conservadorismo político-religioso nas épocas anteriores, está sendo resolvida pelo papa Francisco com passos de gigante. Efetivamente, do ponto de vista da doutrina, Bergoglio apresenta-se como continuador e não como revolucionário. Um reformista, com a recente encíclica ambientalista, mas no sulco de uma tradição já estruturada. Seu grande mérito foi o redescobrimento da palavra de Cristo, esquecida no tempo, e a tentativa da sua coerente aplicação. Não foi a Igreja, então, que se radicalizou teoricamente nos últimos dois anos, mas é a parte dominante da humanidade que é vítima de um modelo econômico e cultural – o neoliberalismo –, que representa o antagonista por excelência da ética cristã.
Francisco tira de foco os reacionários e conservadores de todas as latitudes porque não é homem de esquerda. Sem pretender dar uma definição, poderíamos mais prudentemente observar que ele desconfia de todos os extremismos, tanto políticos quanto religiosos. Por falta de outras referências políticas críveis, o papa argentino caracteriza-se hoje como o principal intérprete de um modelo de sociedade alternativa, e quem o acusa de extremismo ou está de má-fé ou é simplesmente ignorante, porque não reconhece as dramáticas relações de força entre ricos e pobres que se estabeleceram nos últimos 30 anos na esfera mundana, e a paralela defasagem entre teóricos e pastores na Igreja Católica.
Inabalável em sua segurança espiritual, o papa Francisco passou incólume pela embaraçosa situação dos presentes extravagantes do presidente Evo Morales, que alguma intenção instrumental provavelmente cultivava. Deixou várias condecorações revolucionárias na Basílica de Nossa Senhora de Copacabana, padroeira da nação, para o desfrute dos bolivianos, mas levou consigo, com toda tranquilidade, o Cristo na cruz com foice e martelo, porque o considerou um belo exemplo de arte de protesto, obra daquele padre jesuíta Luis Espinal, assassinado em 1980, que ele admirava pela coragem, mas de quem desconhecia a habilidade escultórica.
Saiu dos três países sem beatificar governo algum, apreciando, porém, os avanços positivos dos últimos anos, lembrando o valor do pluralismo e alertando sobre os perigos da ditadura, do culto da personalidade e do anseio por liderança absoluta.
Despediu-se com as seguintes palavras: “Peço-lhes, por favor, que rezem por mim. E se alguém não pode rezar, com todo o respeito, peço-lhe que me tenha em seus pensamentos e mande-me uma boa onda”. Tal é Francisco, um papa também muito simpático.
Carta Capital 02-08-2015.
03/08/2015  |  domtotal.com
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