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Quem poderá conhecer os desígnios de Deus?

Esta é a grande questão que se põem homens e mulheres que creem
Por Marcel Domergue*
No evangelho deste domingo, Jesus se volta para os que o seguem, buscando desiludi-los.
Referências bíblicas
1ª leitura: “Quem pode imaginar o desígnio do Senhor?” (Sabedoria 9,13-18)
Salmo: 89(90) - R/ Vós fostes, ó Senhor, um refúgio para nós.
2ª leitura: “Recebe-o, não mais como um escravo, mas como um irmão querido” (Filêmon 9-10.12-17)
Evangelho: “Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14,25-33)

Grandes multidões
O que estariam buscando todas estas pessoas que seguiam o Cristo, no caminho para Jerusalém? Muitos imaginavam que, sendo capaz de realizar tantas curas e prodígios, iria tomar o poder. O episódio dos Ramos vai exatamente neste sentido. Assim como a reflexão dos dois discípulos com quem Jesus foi se encontrar, no caminho de Emaús: «Nós esperávamos que fosse ele quem redimiria Israel».
No evangelho de hoje, Jesus se volta para os que o seguem, buscando desiludi-los. Revela-lhes não estarem indo para «restaurar a Realeza em Israel» (Atos 1,6), mas para perderem tudo o que constitui as nossas vidas neste mundo, tendo em vista uma passagem, uma travessia ainda inimaginável. Um Reino, sim, mas que não é deste mundo!
Podemos nos perguntar o que esperam as multidões de cristãos que constituem a Igreja hoje, sendo que os seus responsáveis, aliás, nem sequer renunciaram ainda ao exercício de um «poder temporal». Isto explica, sem dúvida, porque as «grandes multidões» da atualidade, desiludidas pela evolução da história e constatando que Deus deixa a sua gestão totalmente aos nossos cuidados, renunciam a seguir o Cristo. E ele, no entanto, nos traça um caminho, um caminho único, que nossas histórias individuais e nossa história coletiva reproduzem.
Trata-se de nossa travessia para a Vida invulnerável de Deus. Neste caminho, devemos abandonar, uma a uma, todas as nossas bagagens. Até mesmo o que nos parece mais necessário, nos é tirado. Jesus sabe que está indo para este despojamento sem reservas, para deixar lugar livre e disponível para a vida nova. Segui-lo nos mete medo? É normal: Até mesmo Jesus, no Getsêmani, conheceu este pavor e teve de superá-lo.
O caminho da cruz
A tradução litúrgica nos diz que devemos «preferir» Jesus a tudo mais, inclusive os seres que nos são mais próximos. O texto grego fala em «odiar», o que se explica pelo fato de que as línguas semíticas, subjacentes, não conhecem o comparativo. «Preferir» é um destes, convindo melhor ao sentido das palavras de Cristo.
Com efeito, em Marcos 7,9-13, ouvimos Jesus colocar o amor ao pai e à mãe acima do caráter sagrado de uma oferenda, com a qual poderíamos vir a ajudá-los. Em Marcos 10,3-12 e Mateus 19,3-12, Jesus sublinha o caráter absoluto da união do homem e da mulher, para além das tradições e dos costumes, acima da própria Lei. Mas, então, o que significa esta «preferência» de que fala o nosso texto? Não esqueçamos que Jesus está a caminho para Jerusalém, onde deverá perder tudo, inclusive a sua própria vida.
Quer saibamos ou não, quer aceitemos ou não, estamos todos aí. As pessoas com mais idade me compreenderão bem: ao longo do tempo, vamos perdendo, uma a uma, todas as realidades que fundam a nossa vida: as nossas forças, a nossa saúde, a perfeição das nossas faculdades, o cônjuge, as nossas crianças que vão embora, viver a sua vida. Totalmente desnudados é que chegaremos ao termo que nos privará da nossa «própria vida».
Assim sendo, esta é a questão: vamos pôr toda a nossa confiança em Cristo, para além da relação um tanto idolátrica que mantemos com o que povoa a nossa existência? Superando toda a metáfora, temos de segui-lo até Jerusalém, em sua passagem pela Cruz, para nos encontrarmos com ele em sua Ressurreição. Não fechemos os olhos: é para aí que, de qualquer modo, estamos indo. Busquemos segui-lo com esta alegria que só pode vir da fé.
O que verdadeiramente desejamos?
O evangelho continua, citando o exemplo do homem que quer construir uma torre ou partir para a guerra. Trata-se da qualidade do nosso desejo. Mais exatamente, da qualidade do que desejamos de modo espontâneo. Construir uma nova torre de Babel? Medirmo-nos com quem é mais forte do que nós? Aqui, é a nossa vontade de poder que é posta em questão.
Encontramos assim a lógica das linhas precedentes: o que desejamos de fato? Escolher seguir o Cristo em seu caminho não é fácil. Já compreendemos que não foi por si mesmo que ele escolheu passar por isso. O sofrimento não vem de Deus; Deus não o quer. O que Ele quer é encontrar conosco em tudo o que a vida nos dá a suportar. São os homens que erguem as cruzes. Por pior que seja a situação que tenhamos de sofrer, Deus vem nos habitar, para nos fazer sair daí.
A obra de Deus é a ressurreição desta vida que Ele nos deu e que perdemos. Para a vida é que estamos indo. Eis aí o que temos de escolher, mesmo se no caminho devamos perder todo o resto. O nosso problema é que queremos tudo. E, nestas condições, seguir o Cristo, ser seu discípulo, é impossível, tal como sublinha a última frase do nosso evangelho. No entanto, se temos muita dificuldade em nos reunir ao Cristo em sua travessia do sofrimento dos homens, se não ousamos nem mesmo vislumbrá-la, não nos desesperemos.
Voltemos aos discípulos de Emaús: temos aí estes homens que fogem de Jerusalém, onde tudo se passa. Muitas vezes, somos semelhantes a eles, cheios de ilusões a respeito do que o Cristo veio cumprir. O próprio Cristo, no entanto, veio encontrá-los em seu mau caminho, trazendo-lhes a alegria da verdade.

Sítio Croire
*Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês.
04/09/2016 | domtotal.com
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Igreja tem necessidade de missionários apaixonados, não de burocratas

Cidade do Vaticano, 14 ago (sirnoticias@hotmail.com) – Neste XX Domingo do Tempo Comum o Papa encontrou-se com milhares de fieis de todo o mundo na Praça São Pedro, para a tradicional Oração mariana do Ângelus. Francisco dedicou sua alocução ao fogo do Espírito Santo, inspirado na passagem de Lucas “Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso”.
“O Evangelho deste domingo faz parte dos ensinamentos de Jesus dirigidos aos discípulos durante a sua subida à Jerusalém, onde lhe espera a morte de cruz. Para indicar o objetivo de sua missão, Ele se serve de três imagens: o fogo, o batismo e a divisão. Hoje quero falar da primeira imagem, a do fogo.
Jesus a expressa com estas palavras: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso”. O fogo do qual Jesus fala é o fogo do Espírito Santo, presença viva e atuante em nós desde o dia do Batismo. Ele é uma força criadora que purifica e renova, queima toda humana miséria, todo egoísmo, todo pecado, nos transforma a partir de dentro, nos regenera e nos torna capazes de amar. Jesus deseja que o Espírito Santo irrompa como fogo no nosso coração, porque somente partindo do coração que o incêndio do amor divino poderá propagar-se e fazer progredir o Reino de Deus. Se nos abrirmos completamente à ação do Espírito Santo, Ele nos dará a audácia e o fervor para anunciar a todos Jesus e a sua consoladora mensagem de misericórdia e de salvação, navegando em mar aberto.
No cumprimento de sua missão no mundo, a Igreja tem necessidade de ajuda do Espírito Santo para não deixar-se frear pelo medo e pelo cálculo, para não habituar-se a caminhar dentro de fronteiras seguras. A coragem apostólica que o Espírito Santo acende em nós como um fogo nos ajuda a superar os muros e as barreiras, nos faz criativos e nos impele a colocarmo-nos em movimento para caminhar também por caminhos inexplorados ou desconfortáveis, oferecendo esperança a quantos encontramos. Somos chamados a nos tornar sempre mais comunidade de pessoas guiadas e transformadas pelo Espírito Santo, repletas de compreensão, de coração dilatado e de rosto alegre. Mais do que nunca, existe a necessidade de sacerdotes, de consagrados e de fieis leigos, com o olhar atento do apostolado, para mover-se e parar diante das dificuldades e das pobrezas materiais e espirituais, caracterizando assim o caminho da evangelização e da missão com o ritmo curador da proximidade.
Neste momento, penso com admiração, sobretudo, aos numerosos sacerdotes e religiosos que, em todo o mundo, se dedicam ao anúncio do Evangelho com grande amor e fidelidade, não raro a custo da própria vida. O exemplar testemunho deles nos recorda que a Igreja não tem necessidade de burocratas e de diligentes funcionários, mas de missionários apaixonados, imbuídos pelo ardor de levar a todos a consoladora palavra de Jesus e a sua graça regeneradora.
Peçamos a Virgem Maria para rezar conosco e por nós ao Pai celeste, para que derrame sobre todos os fieis o Espírito Santo, fogo divino que aquece os corações e nos ajude a ser solidários com as alegrias e os sofrimentos dos nossos irmãos. Nos sustente no nosso caminho o exemplo de São Maximiliano Kolbe, mártir da caridade, cuja festa recorre hoje: que ele nos ensine a viver o fogo do amor por Deus e pelo próximo”.

SIR

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Fogo sobre a terra

Por Dom Caetano Ferrari*
Jesus diz no Evangelho da Missa de hoje - Lc 12,49-53 - “Eu vim para lançar fogo sobre a terra e como gostaria que já estivesse aceso!”. É simbólico esse fogo. Mas não significa o fogo do inferno, do castigo. Simboliza o fogo do Espírito Santo, o fogo do amor a Deus e da misericórdia divina pelos feridos do mundo. Mas esse não é tampouco o fogo de uma paixão prazerosa, agradável, idílica. Significa o fogo do sofrimento resultante de uma prova dolorosa. Por esse sofrimento Jesus ficou conhecido como o Homem das dores. O contexto que explica essa fala de Jesus é o da sua viagem rumo à cidade santa, palco da sua paixão e morte. Lá, diz Ele: “Devo receber um batismo e como estou ansioso até que isso se cumpra!”. A ansiedade é um misto de angústia e de pressa para que tudo isso se realize logo, a fim de que seja cumprida a vontade do Pai e realizada a libertação e salvação da humanidade pecadora.
Jesus alerta, porém, que o tempo da salvação não será tempo de paz e tranquilidade. Ele pergunta: “Vós pensais que Eu vim trazer a paz sobre a terra?” E responde: “Pelo contrário, Eu vos digo, vim trazer a divisão”. Ele explicita que a divisão começará na própria família: Os pais contra os filhos, os filhos contra o pai ou a mãe, os filhos entre si, a sogra contra a nora e o genro contra o sogro. Depois perpassará as comunidades e as sociedades, tudo por causa do seu nome e de seu Evangelho. Assim sendo, Jesus se afirma como sinal de contradição no mundo. Aliás, para recordar que desde criança Ele foi visto como sinal de contradição lembremos que o velho Simeão, quando da apresentação de Jesus ao Templo por Maria e José, profetizou, dizendo: “Eis que este menino foi colocado para a queda e para o soerguimento de muitos em Israel, e como um sinal de contradição” (Lc 2,34). Inclusive os discípulos estão postos nesse nosso mundo como sinais de contradição.  Conforme Jesus disse que os discípulos não estão acima do Mestre, que eles também se preparem porque serão incompreendidos por muitos e deverão enfrentar os conflitos da vida cristã. Porquanto, seguir Jesus e seu Evangelho é pôr-se na contramão dos valores do mundo. Assim como diante de Jesus as pessoas e as sociedades se dividem em pró ou contra, elas se dividirão igualmente diante dos cristãos. Não obstante a rejeição e a cruz, importa que os cristãos perseverem até o fim, seguindo firmemente o Senhor. E seguindo-O bem de perto para que as chamas do fogo do Espírito Santo que saem de seu coração incendeiem os seus corações e os sustentem no bom combate pelo reino. 
Hoje é dia dos pais para ser celebrado com festa e com sentimentos de gratidão e carinho para com todos os pais, sem que nos esqueçamos das mães que tiveram o seu dia em maio. O foco de hoje é a paternidade, mas a festa leva-nos a ter presente a maternidade e, por consequência, a família. Na família há o pai e a mãe, as crianças, os jovens, os avós. A vida humana nasce de um homem e uma mulher que se amam e se unem gerando os filhos, criando-os, educando-os e encaminhando-os para que constituam depois a sua própria família. Sobre a base da família humana, conforme o plano do Criador, assim caminha a humanidade, construindo o reino rumo à vida eterna, plena e feliz. Por isso, nós cristãos, defendemos e promovemos a família. Ela é antes de tudo um projeto de Deus, não uma construção humana. Lembremo-nos como Deus criou do nada Adão e Eva e os fez de tal forma estruturados biológica, psicológica e espiritualmente e ordenados vocacionalmente para se tornarem os progenitores da humanidade; deles, portanto, descendem todos os povos. Numa outra oportunidade, Jesus recordou aos fariseus, que para pô-Lo à prova lhe perguntaram se é lícito repudiar a própria mulher, que desde o princípio, segundo o desígnio do Criador, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne: “De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu o homem não deve separar” (Mt 19, 4-6). Com base no ensinamento divino sobre a família, a Igreja elaborou uma sólida doutrina sobre o matrimônio cristão e revestiu a união conjugal com a dignidade de sacramento nupcial, mediante o qual os cônjuges recebem a graça especial que os abençoa e fortalece e os acompanha por toda a vida. É um dos dez mandamentos “Honrar o pai e a mãe”. São João Paulo II, refletindo sobre o sonho da civilização do amor e o dever de construí-la, afirmou que “O futuro da humanidade passa pela família”. Ora, não há nem haverá civilização do amor sem a família humana.    
Nesta data tem início a Semana Nacional da Família, uma promoção da Igreja no Brasil impulsionada pela CNBB. Na nossa Diocese, começa também a Semana Diocesana da Família. O Setor Família da Diocese, movimentando especialmente a Pastoral Familiar, a Pastoral Vocacional, o Setor Juventude, o ECC, as Equipes de Nossa Senhora e demais movimentos em prol da família, engaja-se com nossas Paróquias e Comunidades para apoiar e promover ações, sobretudo de oração, reflexão e serviço de caridade às famílias em geral e em particular às famílias “feridas” carentes de misericórdia. O lema desta Semana Diocesana da Família é: “A misericórdia na família é dom e missão”. A oração de base é: “Restaura nossa casa, Senhor!”. No próximo domingo, haverá pelas ruas da cidade a grande Caminhada da Família, um evento tradicional em Bauru que comemora também o segundo ano do Dia Municipal da Família. Venha com a sua família participar.
Ó Deus, nosso Pai, abençoai os que são pais e as nossas famílias. Concedei a todos nós um coração de filhos para que possamos viver e rezar com fé a oração que Jesus nos ensinou: “Pai nosso...” 

CNBB 11-08-2016
*Dom Caetano Ferrari: Diocese de Bauru.

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800 anos do Perdão de Assis

Por Cardeal Orani João Tempesta*
Iniciamos o mês vocacional – Agosto – com o eco da grande JMJ da misericórdia de Cracóvia e com a comemoração do oitavo centenário do perdão de Assis, a assim chamada indulgência da Porciúncula que contará com a visita do Papa Francisco nesta semana. 
Uma feliz providência: um centenário de concessão da misericórdia no ano do jubileu extraordinário da misericórdia com dois homens que levam o nome de Francisco. Com textos consultados na rede mundial de computadores e de domínio público reflitamos sobre este importante momento.
Francisco nasceu em Assis, na Úmbria (Itália) em 1182. Jovem orgulhoso, vaidoso e rico, que se tornou o mais italiano dos santos e o mais santo dos italianos. Com 24 anos, renunciou a toda riqueza para desposar a “Senhora Pobreza”. Levará consigo para sempre essa missão evangelizadora e entusiasmada de servir a Cristo nos irmãos, em especial nos mais pobres.
Aconteceu que Francisco foi para a guerra como cavaleiro, mas doente ouviu e obedeceu a voz do Patrão que lhe dizia: “Francisco, a quem é melhor servir, ao amo ou ao criado?”. Ele respondeu que ao amo. “Porque, então, transformas o amo em criado?”, replicou a voz. No início de sua conversão viveu como eremita e na solidão, quando recebeu a ordem do Senhor na igrejinha de São Damião: “Vai restaurar minha igreja, que está em ruínas”. Partindo em missão de paz e bem, seguiu com perfeita alegria o Cristo pobre, casto e obediente. 
Nessa época campo de Assis havia também uma antiga ermida abandonada dedicada a de Nossa Senhora no local chamado Porciúncula (de pequena porção). Este foi um dos lugares prediletos de Francisco e dos seus companheiros. Sim, companheiros, pois na Primavera do ano de 1200 já não estava só; tinham-se unido a ele alguns jovens que pediam também esmola, trabalhavam no campo, pregavam, visitavam e consolavam os doentes. A partir daí, Francisco dedica-se a viagens missionárias: Roma, Chipre, Egito, Síria… Peregrinando até aos Lugares Santos dentro da expansão da Ordem. O trabalho na terra santa dos freis franciscanos até hoje é um belo sinal de dedicação às terras e locais por onde Jesus passou. 
Em 1223, foi a Roma e obteve a aprovação mais solene da Regra, como ato culminante da sua vida. Na última etapa de sua vida, recebeu no Monte Alverne os estigmas de Cristo, em 1224. Já enfraquecido por tanta penitência e cego por chorar pelo “amor que não é amado”, São Francisco de Assis, na igreja de São Damião, encontra-se rodeado pelos seus filhos espirituais e assim, recita ao mundo o cântico das criaturas. São Francisco de Assis, retira-se então para a Porciúncula, onde morre deitado nas humildes cinzas a 3 de outubro de 1226. Passados dois anos incompletos, a 16 de julho de 1228, o Pobrezinho de Assis era canonizado por Gregório IX.
A hodierna e majestosa Basílica de Santa Maria dos Anjos abriga no seu interior a pequena Capela da Porciúncula, local onde Francisco confirmou a sua vocação numa noite do ano 1216. O nome de Santa Maria dos Anjos provém da tradição de que, naquela pequena Capela, que foi construída por quatro peregrinos que retornavam da Terra Santa, era venerado um fragmento do túmulo da Virgem Maria, e que sempre se ouvia no local o canto dos anjos. Foi também nesta pequena Capela, que recebeu o nome de Porciúncula, isto é, pequena porção, que São Francisco recebeu a indulgência do “Perdão de Assis”. Conta-se a história desse momento místico da vida de São Francisco: estava certa noite em sua cela, rezando pela conversão dos pecadores, quando um anjo convidou a dirigir-se à Capela da Porciúncula. Lá chegando, encontrou-a toda iluminada e no meio de um coro de anjos estava a Virgem Maria ao lado de seu Divino Jesus.
Jesus, dirigindo-se a Francisco, disse-lhe: “Em recompensa ao teu zelo pela conversão dos pecadores, pede-me o que quiseres”. Francisco pediu-lhe então a indulgência Plenária para todos aqueles que tendo confessado e comungado, visitassem aquela pequena igrejinha. São Francisco, meio que assustado com seu atrevimento, suplicou a intercessão da Virgem Maria. O pedido teria que ser aprovado pelo Papa, Francisco com a face no chão. Adorou o seu Senhor. No dia seguinte, Francisco foi ao encontro do Santo Padre; este, porém, lhe concedeu a graça apenas um dia no ano, ou seja a cada 02 de Agosto. Nesta data, denominada “Perdão de Assis”, é enorme a afluência de fiéis à Basílica da Porciúncula e a Igreja celebra a Festa de Nossa Senhora dos Anjos.
Esta festa é uma das mais importantes, ainda hoje, da família franciscana, pois foi estendida, mais tarde, pelo Papa Sisto IV, a todas as igrejas do orbe.  Então, somos todos beneficiados pelo “Perdão de Assis” ou “Dia do Perdão”, para tanto, devemos fazer uma boa confissão, participar da Eucaristia, e, entrando na igreja franciscana, rezar pelo Santo Padre, o Papa. Louvemos ao Senhor que fez nascer São Francisco, que revolucionou, com sua ordem, a Igreja, sem precisar abandoná-la ou fundar outra. No mês das vocações, vamos lembrar o despojamento, a coragem, a simplicidade, o amor e a pobreza do Santo de Assis.
Encerramos este artigo rezando a oração de Nossa Senhora dos Anjos: “Augusta Rinha dos céus e soberana Senhora dos Anjos, Que recebeste de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça de Satanás, Nós vos pedimos humildemente: Enviai as legiões celestes para que, sob Vossas ordens persigam os demônios; Combatam-nos em toda a parte, reprimam a sua audácia e os precipitem no abismo. Quem é como Deus? Santos, anjos e arcanjos protegei-nos, defendei-nos! Ó boa e terna Mãe, vós sereis sempre O nosso amor e a nossa esperança! Ó divina mãe, enviai os vossos anjos, Para que nos defendam e afastem de nós O cruel inimigo! Assim seja!” (Papa Leão XIII).

CNBB 02-08-2016.
*Cardeal Orani João Tempesta: Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ).
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Eles o reconheceram no partir do pão

           
A fração do pão, expressa seu amor incondicional, seu serviço, seu viver para os outros
Por Dom Alberto Taveira Côrrea*
O Senhor antecipou sacramentalmente sua entrega na última Ceia. Após a Ressurreição, ele se manifestou a seus discípulos. Como somos peregrinos na história, queremos pedir ajuda aos discípulos de Emaús, para aprender a reconhecê-lo no partir do Pão. Nosso desejo sincero é que todos os participantes do XVII Congresso Eucarístico Nacional reconheçam sua presença e se tornem missionários e missionárias, levando consigo a riqueza do que viveremos juntos, ajudados pela reflexão oferecida pelo Padre Giovanni Martoccia SX, cujos pontos principais oferecemos a todos (Cf. Texto-base do XVII Congresso Eucarístico Nacional, Edição da Arquidiocese de Belém).
O dia estava cinzento como o coração de todos os discípulos, cheios de medo, dúvida e tristeza. As esperanças messiânicas alimentadas por Jesus dissiparam-se no vento da repressão romana; e, junto com elas, também o sonhos de um Reino de Deus, por tanto tempo acalentado, se espatifou no iníquo patíbulo que recebeu a condenação do Justo. O testemunho das mulheres de que o corpo de Jesus não estava no túmulo não foi suficiente para convencer os apóstolos de que algo extraordinário havia acontecido. Ninguém do grupo quis acreditar. Mas quantas vezes lhes confirmara que iria ressuscitar! Entesourar a memória de sua palavra era pré-requisito indispensável para não naufragar no meio da tragédia. Sua palavra, meditada no coração, é âncora segura da fé, fonte de esperança e força propulsora do anúncio da Boa Nova.
Dois discípulos, tendo deixado a cidade de Jerusalém, teatro dos tristes acontecimentos da prisão e execução do Mestre, dirigiram-se a Emaús, aldeia a duas horas de boa caminhada. Parecem querer voltar a seu passado e esquecer tudo o que havia acontecido, enterrando a última lembrança de suas esperanças frustradas. Mas era justamente esse pavio fumegante que os impelia a conversar sobre aqueles mesmos eventos inesquecíveis. O caminho pedregoso e acidentado ritmava os inconstantes e ríspidos pensamentos de seus corações. Os olhos de sua memória parecem fechados, completamente vedados, a ponto de não reconhecer nem mesmo o próprio Jesus que, aproximando-se, pôs-se a caminhar com eles.
Estavam tão concentrados que não deram nenhuma atenção ao desconhecido, que toma a iniciativa e puxa conversa, perguntando sobre o assunto que os preocupava e que parecia tão sério: “Que é que vocês vão discutindo pelo caminho?” Estavam tristes e abatidos pela morte de seu Mestre, decepcionados porque pensavam que ele fosse o Messias, e agora acham que se enganaram. Finalmente, eles param. Uma parada, nessa caminhada, símbolo da nossa caminhada de vida, é o primeiro passo para compreender como nos afastamos dele, a ponto de nem o reconhecermos mais, e quanta tristeza sua falta trouxe em nossa vida. Ele nos visita, mas muitas vezes não percebemos sua presença porque ficamos amarrados ao nosso velho modo de pensar, à nossa imaginação que quer determinar o agir de Deus. O mesmo Jesus que eles conheciam tão bem estava diante deles, conversando com eles e, mesmo assim, não o reconheceram. Como é possível? 
Na verdade, Jesus é o mesmo. São os discípulos que mudaram; fechando-se em sua esperança frustrada não conseguem mais reconhecê-lo. Antes, eles olhavam para Jesus com confiança, acreditavam nele. Agora estão decepcionados e seu olhar é diferente. As falsas expectativas lhes vendaram os olhos. No entanto, Jesus cumpriu todas as suas palavras, mas não como eles imaginavam. É preciso receber algo novo, nova luz para que os olhos se abram e, finalmente, o reconheçam. 
A Jesus, que pergunta esclarecimentos sobre esses acontecimentos tão graves, responde Cléopas com outra pergunta que parece expressar espanto e irritação: “Serás tu o único forasteiro em Jerusalém que desconhece o que se passou aí nestes últimos dias?”. Jesus se mostra muito interessado e pronto a ouvir tudo o que ocorreu. Cléopas informa o curioso forasteiro dos fatos que tanto marcaram a vida deles. Conta tudo a partir do ministério de Jesus, conhecido como o Nazareno. Mas os dois discípulos não souberam acolher os acontecimentos e interpretá-los. Estão decepcionados! 
A decepção dos discípulos é justificada pelo fato que “já faz três dias que todas essas coisas aconteceram!” e ele não apareceu. Depois de Jesus ter escutado com atenção toda a história que eles tinham para contar, de repente os repreende com severidade. Jesus, com uma pergunta sobre a necessidade do sofrimento do Messias dá início à catequese pascal. É preciso que a vida de Jesus seja interpretada à luz das Sagradas Escrituras.
Quando chegaram perto do povoado para onde iam, ele fez de conta que ia mais adiante. “Fica conosco, porque é tarde e o dia já declina”. Entrou então para ficar com eles. Realmente, a vida sem ele fica muito escura, sem luz nem sentido, como peregrino em noite de lua nova. Se compartilharmos nossa jornada com ele, ouvindo suas palavras, Uma vez à mesa com eles, tomou o pão, pronunciou a bênção, o partiu e distribuiu entre eles. Então, seus olhos se abriram e o reconheceram. É Jesus que toma a iniciativa, que se aproximou deles e lhes explicava tudo. Na fração do pão, fez com que seus olhos se abrissem. Eles agora o reconhecem. Será ainda Jesus que abrirá a mente aos Onze para entenderem as Escrituras, pois tudo o que estava escrito tinha que se cumprir. 
Jesus desaparece no momento em que os dois discípulos o reconhecem. É para nos advertir que não se trata de uma visão extraordinária, mas do normal caminho da fé que nos conduz ao encontro com o Cristo vivo na Eucaristia, na convivência fraterna, na escuta da Palavra, no testemunho generoso e no compromisso evangelizador. Não são as feições físicas que permitem reconhecer Jesus ressuscitado como o mesmo que foi crucificado, mas o gesto distintivo de sua existência: a fração do pão, gesto que expressa e traz presente seu dom de amor total e incondicional, seu serviço, seu viver para os outros. No testemunho recíproco a fé manifesta sua dimensão comunitária, revela sua força transformadora, revigora o coração e ilumina os caminhos da Igreja. E disseram um ao outro: “Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?” Sob esse impulso jubiloso, dois voltaram para Jerusalém. Voltou a esperança, o entusiasmo, a fé e a força para retomar o caminho, ainda que seja longo e difícil, e a noite adiantada. Mas a escuridão da noite já não assusta mais. A luz que agora brilha no coração é mais que suficiente para vencer a treva ameaçadora. Ao chegar a Jerusalém, mais uma surpresa agradável os aguarda. Acharam aí reunidos os Onze e seus companheiros, que disseram: “É verdade! O Senhor ressurgiu e apareceu a Simão!” Então, por sua vez, também contaram os acontecimentos do caminho e como Jesus fora por eles reconhecido na fração do pão.
À comunidade que se perguntava sobre como reencontrar o Senhor Jesus hoje, Lucas narra o episódio dos discípulos de Emaús. O relato visa a transmitir à comunidade a alegria do encontro com o Senhor, o Vivente, e incentivá-la a buscar na comunhão e na vivência de Igreja uma experiência pessoal de sua presença. Todos aqueles que buscam o Senhor de coração sincero e apaixonado abrindo-se ao alimento de sua Palavra e da Ceia eucarística, perceberão sua voz e sua presença. Jesus se faz presente, como desconhecido, nos caminhos da vida, nos encontros inesperados, nos acontecimentos cotidianos, que precisam ser compreendidos à luz de sua Palavra. Trata-se de identificar a ação de Deus em nossa história, adquirindo uma inteligência espiritual dos acontecimentos e fazendo “memória”, como Maria, no coração.

CNBB 01-07-2016.
*Dom Alberto Taveira Côrrea: Arcebispo de Belém (PA).
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Faça o mesmo

A leitura proposta para este domingo é o Evangelho segundo Lucas 10,25-37.

Por José Antonio Pagola*

Para não sair mal de uma conversa com Jesus, um mestre da lei lhe perguntou: «E quem é o meu próximo?». É a pergunta de quem só se preocupa em cumprir a lei. Interessa-lhe saber a quem deve amar e a quem pode excluir do seu amor. Não pensa nos sofrimentos das pessoas.

Jesus, que vive aliviando o sofrimento de quem encontra no seu caminho, quebrando se faz falta a lei do sábado ou as normas de pureza, responde-lhe com um relato que denuncia de forma provocadora todo o legalismo religioso que ignore o amor ao necessitado.

No caminho que baixa de Jerusalém a Jericó, um homem foi assaltado por bandidos. Agredido e despojado de tudo, fica na valeta meio morto, abandonado à sua sorte. Não sabemos quem é, apenas que é um «homem». Poderia ser qualquer um de nós. Qualquer ser humano abatido pela violência, a doença, a desgraça ou o desespero.

«Por casualidade» aparece pelo caminho um sacerdote. O texto indica que é por acaso, como se nada tivesse que ver estar ali um homem dedicado ao culto. O seu não é baixar até os feridos que estão nas valas. O seu lugar é no templo. A sua ocupação, as celebrações sagradas. Quando chega ao local do ferido, «vê-o, dá uma volta e passa ao lado».

A sua falta de compaixão não é só uma reação pessoal, pois também um levita do templo que passa junto ao ferido «faz o mesmo». É mais uma atitude e um perigo que espreita a quem se dedica ao mundo do sagrado: viver longe do mundo real onde as pessoas lutam, trabalham e sofrem.

Quando a religião não está centrada num Deus, Amigo da vida, e Pai dos que sofrem, o culto sagrado pode converter-se numa experiência que distancia da vida profana, preserva do contato direto com o sofrimento das pessoas e nos faz caminhar sem reagir ante os feridos que vemos nas valas. Segundo Jesus, não são os homens do culto os que melhor nos podem indicar como temos de tratar aos que sofrem, mas as pessoas que têm coração.

Pelo caminho chega um samaritano. Não vem do templo. Não pertence sequer ao povo eleito de Israel. Vive dedicado a algo tão pouco sagrado como o seu pequeno negócio de comerciante. Mas, quando vê o ferido, não se pergunta se é próximo ou não. Comove-se e faz por ele tudo o que pode. É a este que temos de imitar. Assim diz Jesus ao legalista: «Vai e faz tu o mesmo». A quem imitaremos ao encontrarmos no nosso caminho com as vítimas mais golpeadas pela crise econômica dos nossos dias?


Instituto Humanitas Unisinos

*José Antonio Pagola, teólogo espanhol.

10/07/2016 | domtotal.com
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Não deixes morrer o samaritano que está em ti

Por Dom José Gislon*
Estimados Diocesanos! Na vida familiar, na comunidade ou em outros ambientes que costumamos frequentar, podemos nos deparar com situações que nos questionam, ou nos deixam inquietos, vendo a dor, o sofrimento, a solidão e, às vezes, o estado de abandono ou de apatia em que vivem algumas pessoas. 
Diante destas situações, podemos ter várias reações. Podemos ser indiferentes, fazer de conta que não vimos o sofrimento do outro, nem ouvimos o seu pedido de ajuda, manifestado no olhar, no silêncio e às vezes nas lágrimas. Preferimos passar por outro caminho para não mais precisar ver certas situações, tentando assim fazer calar a voz da nossa consciência. Podemos também ser solidários, manifestando compaixão, nos tornando sinal do amor, da ternura e da misericórdia de Deus para com os irmãos e irmãs que padecem.
Por isso, a conversão é uma experiência da qual não podemos abrir mão. Ela nos aproxima do Deus da vida, mas também nos faz descobrir e, às vezes, redescobrir a presença do Senhor nos irmãos. A conversão pode ser a passagem da falta de fé à fé, ou do mal ao bem. Na pessoa que crê no Senhor Jesus, a conversão pode se manifestar como uma passagem da fé considerada um complexo de doutrinas que se pode conhecer à fé vivida nas ações do dia-a-dia.
O Samaritano não fica perguntando quem é meu próximo, ele se faz próximo daquele que precisa, sabe manifestar compaixão, é capaz de ações de misericórdia, generosas, desinteressadas e livres de preconceitos. O exemplo dele é Jesus, que se fez próximo de cada um, dos justos e injustos, dos santos e pecadores, dos amigos e inimigos. Ele está atento não só às próprias preocupações, mas também às necessidades dos outros. Para o Samaritano, o próximo não é definido por uma teoria, mas por um apelo à sua misericórdia, a fazer-se próximo pelo amor caridade, comprometido com a vida, com o irmão, com a vida eterna no Reino de Deus.

CNBB 08-07-2016.
*Dom José Gislon: Bispo de Erexim.
10/07/2016 | domtotal.com
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Quem é o meu próximo?

Seguir o Salvador é ver no outro o meu próximo, o meu irmão em Jesus Cristo.
Por Marcel Domergue*
Referências bíblicas
1ª leitura: "Esta palavra está bem ao teu alcance, está em tua boca e em teu coração, para que a possas cumprir." (Deuteronômio 30,10-14)
Salmo: Sl. 68(69) - R/ Humildes, buscai a Deus e alegrai-vos: o vosso coração reviverá!
2ª leitura: "Tudo foi criado por meio dele e para ele." (Colossenses 1,15-20)
Evangelho: "Quem é o meu próximo?" (Lucas 10,25-37)
O deslocamento
Com o "Bom Samaritano", uma porta imensa se abre: o nosso próximo pode ser qualquer um não importa quem, sem distinção alguma de proximidade geográfica, de parentesco, de raça, religião, etc. “Quem é o meu próximo?”, pergunta o mestre da lei. A resposta virá somente no final: o teu próximo é quem se move para te ajudar.
O Samaritano, de quem não se dá o nome e que é definido apenas por sua qualidade de ser um estrangeiro, tinha a Palavra "ao seu alcance, em sua boca e em seu coração" (ver a primeira leitura).
Mesmo que ignore sem dúvida a sua forma bíblica, que se resume no "mandamento" do amor, este bem-querer que deseja que o outro viva, assim mesmo do jeitinho que ele é, e que seja feliz.
O homem ferido é um desconhecido: seu único título, para ser ajudado, é simplesmente ter necessidade de ajuda. OSamaritano então se faz próximo.
Cristo aproveita para convidar o Doutor da Lei: "Vai e faze a mesma coisa". Ensinar a Lei é bom, mas vivê-la é muito melhor. E isto não é um luxo: como diz o versículo 28, "Faze isso e viverás".
Fazer com que os outros vivam é o que nos mantém vivos. Todo homem, qualquer que seja ele, mesmo estando muito longe de nós, por sua cultura e seus valores morais, torna-se próximo nosso quando nos aproximamos dele.
O próximo não é, com efeito, uma noção estática, um dado "já aí", mas é o fruto de um deslocamento da nossa parte. E sem qualquer preocupação com a reciprocidade, pois este amor caracteriza-se por sua gratuidade. O Samaritano da Parábola busca a vida do homem ferido, não o seu agradecimento.
Quem é o "Bom Samaritano"?
Sabemos que Cristo ocupa os dois postos chaves deste nosso texto. Pois, antes de qualquer coisa, não se faz ele o próximo deste Doutor da Lei, mesmo que esteja tão longe dele? Este homem interroga Jesus, mas não para criar com ele laços de amizade e, sim, para pô-lo em dificuldade.
Jesus, no entanto, se presta ao diálogo e gratifica-o com uma explicação e uma longa parábola. Interroga-o, faz com que fale, mas não para colocá-lo em situação difícil; sim para instruí-lo, para "cuidar" dele.
Jesus, deste modo, se põe já na situação do "Bom Samaritano". Mas há muito mais: ele não é para todos nós o estrangeiro por excelência? Aquele que vem dum outro lugar, do próprio Deus? O Justo veio para junto dos injustos, para assumir a injustiça destes! Ele precisamente é quem opera este imenso deslocamento, para se tornar nosso próximo.
Ele é a Palavra que vem habitar "a boca e o coração" da humanidade (primeira leitura). Ao longo dos sinais que dá, revela-se - e revela Deus - como nosso terapeuta, derramando sobre as nossas chagas o óleo e o vinho.
O albergue para onde conduz o ferido nos faz pensar no de Emaús; o anúncio da sua volta nos fala de sua vinda “em sua glória”, quando liquidará todas as nossas dívidas. E aqui estamos todos convidados, da mesma forma que oDoutor da Lei, a "fazer a mesma coisa": "Tende em vós (e entre vós) o mesmo sentimento de Cristo Jesus..." (Filipenses 2,5). O Espírito que nos foi dado pode fazer-nos ser o próximo de toda mulher ou homem ferido.
Jesus, o homem ferido
Mateus 25,35-36: "Tive fome e me destes de comer (...), era forasteiro e me acolhestes (...)". Tenho vontade de acrescentar: ferido, estava na fossa e viestes cuidar de mim. E mais ainda: crucificado, trespassado e voltastes os olhos para mim.
Cristo identificou-se com todas as nossas vítimas, com todas as vítimas da má sorte, da doença, dos cataclismos... Ao nos fazermos "próximos" destas, nos tornamos próximos d’Ele. O amor que Ele nos trouxe pode agora nos levar até Ele: amor este que tem o nome de Espírito.
Vamos até Ele sim, mas somente passando através dos outros. Desta forma, finalmente, o amor a Deus "de todo o teu coração e com toda a tua alma, com toda a tua força" confunde-se com o amor a Cristo e com o amor a todos com quem nos encontramos de verdade e que têm necessidade de nós. Um passa pelo outro.
Ainda há aí uma coisa que falta: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo", diz Levítico 19,18. Significa que não se pode amar os outros sem se amar a si mesmo. Sobretudo, não nos desprezemos, nem o nosso corpo, nem o nosso espírito. Imitemos a Deus que nos quer e nos ama da forma como somos.
Amar a Deus, amar o Cristo, amar os outros, amar-nos a nós mesmos, são termos todos eles intercambiáveis, ao menos quando se trata de amor verdadeiro. Só nos amamos de fato quando fazemos dos outros os nossos próximos.

Instituto Humanitas Unisinos
*Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês.
10/07/2016 | domtotal.com
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A cidade santa: obra de Deus e dos homens


             
                               O caminho da solidariedade e da justiça, rumo à cidade santa.
Temos que colocar na mente e no coração o nascimento do precursor.
Por Geovane Saraiva*
João Batista preparou o povo para o início da missão pública de Jesus, dizendo com todas as letras que ele mesmo caminharia à frente do Cristo Jesus, anunciando que os sinais dos tempos chegaram e as promessas anunciadas por Zacarias estavam para se realizar. O seu vibrante convite foi o de acordar o povo do sono, muitas vezes profundo, para reconhecer o Salvador como o Sol que veio nos visitar; que temos que colocar na mente e no coração o nascimento do precursor, a indicar-nos o caminho da solidariedade e da justiça, rumo à cidade santa, que é obra de Deus e também obra das pessoas de boa vontade que aceitam o projeto de Deus anunciado por João Batista.
Ele é lembrado como uma pessoa que viveu com muita seriedade e com muito rigor, na austeridade e na penitência, defensor da verdade e da justiça, prometendo tempos bons e o futuro tão esperado pela humanidade. Uma figura humana, ungida e santa, de tal modo, segundo o Livro Sagrado, que ainda no seio materno exultou com o Salvador da humanidade que estava para chegar. Seu nascimento trouxe grande alegria, não só pela esterilidade de seu Pai, Zacarias, que se transformou em fecundidade, e o homem mudo passou a ser um profeta corajoso e exuberante (cf. Lc 1, 57s), mas como sinal e farol da realização das promessas redentoras, com tempos novos e messiânicos.
Como é belo e maravilhoso olhar para a grandeza do homem, a partir da austeridade e humildade, alimentando-se de gafanhotos e mel da selva, figura humana e divina que recebeu o maior de todos os elogios do seu Mestre e Senhor, ao afirmar: “Dos nascidos de mulher, ninguém é maior que João Batista” (Mt, 11, 11). É por isso mesmo que somos convidados a falar bem alto, com palavras e com a própria vida, da renúncia, da doação e da generosidade, tendo diante dos olhos e na mente o maior de todos os profetas, que mostrou ao mundo a salvação que chegou para todos.
João, filho do sacerdote Zacarias e de Isabel, conhecido como o precursor de Cristo pelo anúncio da palavra e na entrega de sua vida, tendo nascido seis meses antes do Messias de Deus, não exerceu função sacerdotal, a exemplo do seu pai Zacarias, mas foi mostrado ao mundo como pregador, como um homem que desempenhou bem sua função, anunciando um batismo de penitência para o perdão dos pecados. Seu grande trunfo encontrava-se na vinda do Salvador da humanidade. Sua vocação profética, desde o ventre materno, reveste-se de algo extraordinário, repleto de júbilo messiânico, ao preparar o nascimento do Salvador da humanidade.
Vemos, com clareza, os olhos cheios de lágrimas do Papa Francisco e de muitos irmãos, ao contemplar a realidade do mundo, com cidades e povos alheios e distantes do projeto de Deus, anunciado por João Batista. Que tais sinais possam se transformar em esperança, como algo alentador, no sonho de tempos novos, dentro do contexto da natividade de São João Batista, transformando-nos de verdade em artífices do Reino de Deus, na busca de um mundo de justiça, solidariedade e paz. Assim seja!
*Pároco de Santo Afonso e vice-presidente da Previdência Sacerdotal, integra a Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza - geovanesaraiva@gmail.com
23/06/2016 | domtotal.com
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Atitudes que ajudam a rezar

                                  A oração é sempre um diálogo, um encontro. Não é um monólogo, nem uma mera introspecção.
               Nessa experiência de amor, nos entregamos, como barro modelável nas mãos de Deus.
Por Dom Adelar Baruffi*
“A Igreja não pode dispensar o pulmão da oração” (EG 262), nos disse o Papa Francisco. Ela é o meio privilegiado do encontro cotidiano com Deus, conosco mesmos e com a comunidade de fé. No entanto, é preciso dispor-se, através de algumas atitudes.
A primeira atitude que facilita a oração é o recolhimento. Recolher a vida com toda a sua complexidade, recolhê-la, em especial diante de Deus. Estar presente e atento a tudo o que estou vivendo. A dificuldade é a distração. Se viver distraído e ausente a maior parte do dia, se não tenho consciência de mim mesmo habitualmente em cada atividade, se não me centro no que estou fazendo no decorrer do dia, o normal é que tampouco o faça no momento de oração. Oramos como vivemos e vivemos como oramos. Tomar consciência do corpo, dos sentimentos e da mente, com todos os pensamentos, reflexões, recordações e fantasias que aparecem e desaparecem. Exercitar a atenção central: a capacidade de ver e perceber tudo com uma luz interior. Invocar o Espírito Santo, que conduz o encontro com Deus. Quanto mais eu exercitar o recolhimento, tanto mais centrado estarei em cada momento. 
A segunda atitude é exercitar o silêncio exterior e interior. Há ruídos exteriores e interiores. Não nos concentramos quando estamos em um ambiente ruidoso. O mesmo acontece quando temos um barulho dentro de nós mesmos: nervosismo, tensão, preocupações, angústia, agressividade, estresse... Este ruído emocional nos bloqueia e nos incapacita para estar, para estar simplesmente em atenção amorosa a Deus. É preciso criar espaços e tempos de silêncio: criar um clima silencioso, sereno, pacificador. Uma pessoa barulhenta o será em tudo: na vida e na oração. E uma pessoa silenciosa o será em tudo: na oração e na vida. O silêncio interior é absolutamente imprescindível para viver uma experiência de oração. Um silêncio interior que nos abra ao diálogo com Deus. Assim se expressava Henri Nouwen: “Senhor Jesus! As palavras que dirigiste a teu Pai brotaram do teu silêncio. Introduze-me neste silêncio, para que assim fale em teu nome e minhas palavras deem fruto. É tão difícil permanecer em silêncio, silêncio de palavras, mas também silêncio do coração... Há tantas coisas que falam dentro de mim... Sempre pareço estar enredado em debates interiores comigo mesmo, com meus amigos, com meus inimigos, com meus defensores, com meus adversários, com meus colegas e com meus rivais. Porém, este debate interior põe às claras quanto longe está de ti meu coração.” (Escritos Essenciales, Santander: Editorial Sal Terrae, 1999, p.95). Normalmente, a vida de uma pessoa ruidosa é superficial. A vida de uma pessoa silenciosa tende a ser mais profunda, integrada, positiva, unificada, repleta de harmonia, de paz e de plenitude. 
A terceira atitude é a abertura para escutar e dialogar. A oração é sempre um diálogo, um encontro. Não é um monólogo, nem uma mera introspecção. É um encontro, uma saída de si, para dar espaço para acolher a Deus, que continuamente sai de si para nos encontrar, para nos falar. A abertura é fruto da consciência de si e do silêncio. Uma pessoa encerrada em seu próprio cárcere de tensões e angústias é incapaz de ver e perceber, de escutar e acolher o outro tal como é. Atitude de escuta que espera o Senhor. “Fala, Senhor, que teu servo escuta” (1Sm 3,10), disse Samuel. Escutar é uma atitude radical e essencial do homem que deseja viver aberto e acolhedor dos outros e a Deus. Escutar na oração, escutar a Deus, é, portanto, uma atitude permanente, que devo manter sempre, tal como são permanentes a comunicação e a manifestação de Deus. 
A quarta atitude é a entrega de si. É uma entrega mútua em liberdade, em que eu acolho o dom infinito de sua presença e de seu amor e respondo livremente, em plena disponibilidade de amor obediente. Deus não dá coisas, ele se dá a si mesmo numa entrega total, infinita e eterna porque nos ama. Diante de Deus, portanto, só tem sentido a entrega e disponibilidade, o abandono confiante. “Faça-se em mim, segundo a tua Palavra.” (Lc 1, 38). Então, nessa experiência de amor, entrega-se, como barro modelável nas mãos de Deus. 

CNBB, 07-06-2016.
*Dom Adelar Baruffi: Bispo de Cruz Alta.
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Só em Cristo é possível encontra a verdadeira paz

              Ângelus: Papa Francisco explica que significa "carregar a cruz" e seguir a Cristo

VATICANO, 19 Jun. 16 / 12:00 pm (ACI/EWTN Noticias).- "Quem é Jesus para cada um de nós?" foi o convite do Papa Francisco para refletir antes da Oração do Ângelus dominical, onde explicou aos fiéis o que significa carregar a cruz pessoal para seguir o Senhor e levá-lo a um mundo que " mais do que nunca precisa de Cristo."
O Santo Padre refletiu sobre o Evangelho do dia para explicar aos fiéis as palavras de Jesus quando diz: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz de todos os dias e siga-Me”. 
“Não se trata de uma cruz ornamental, ou ideológica, mas é a cruz da vida, do próprio dever, do sacrificar-se pelos outros com amor, pelos pais, pelos filhos, pela família, pelos amigos e também pelos inimigos, é a cruz da disponibilidade a ser solidários com os pobres, a empenhar-se pela justiça e a paz.”
O Pontífice assinalou que "ao assumir esta atitude, estas cruzes, sempre perdemos algo. Nunca devemos esquecer que ‘quem perde a sua vida - por Cristo – a salvará’. Perde a sua vida para ganhá-la. E recordemos todos os nossos irmãos que ainda colocam em prática estas palavras de Jesus, oferecendo seu tempo, seu trabalho, suas fadigas e inclusive a própria vida para não negar a sua fé em Cristo”.
O Papa recordou aos fiéis reunidos na Praça de São Pedro, que "Jesus, mediante o seu Santo Espírito, nos dá a força de andar em frente no caminho da fé e do testemunho. E neste caminho sempre está próxima de nós Nossa Senhora”.
Em sua reflexão, o Papa Francisco disse que o Evangelho deste domingo também "nos chama mais uma vez para nos confrontar ‘cara a cara’ com Jesus."
O Santo Padre explicou que naquela época as pessoas "consideravam Jesus um grande profeta, mas ainda não eram conscientes da sua verdadeira identidade, ou seja, que Ele era o Messias, o Filho de Deus, enviado pelo Pai para a salvação de todos".
Jesus dirigiu-se, então, diretamente aos discípulos perguntando: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” A esta interrogação, os discípulos apressaram-se a responder que “alguns dizem que Jesus é João Batista, outros que é Elias, outros que é um antigo profeta que ressuscitou”.
No entanto, Jesus pergunta aos apóstolos: "E vós, quem dizeis que Eu sou?". “Em seguida, em nome de todos, Pedro responde: “Tu és o Messias de Deus”, ou seja,” Tu és o Messias, o Ungido de Deus, enviado por Deus para salvar seu povo conforme a Aliança e a promessa”.
"Então Jesus percebe que os Doze, e em particular Pedro, receberam do Pai o dom da fé; e por isto começa a falar abertamente daquilo que o espera em Jerusalém, ou seja, que o Filho do Homem deve sofrer muito, ser recusado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia”.
Francisco disse que "estas perguntas de Jesus são hoje também feitas a cada um de nós: Quem é Jesus para os homens do nosso tempo? Mas o outro é mais importante: Quem é Jesus para cada um de nós?".
O Papa disse que "somos chamados a fazer da resposta de Pedro a nossa resposta, professando com a alegria que Jesus é o Filho de Deus, o Verbo eterno do Pai, que se fez homem para redimir a humanidade, derramando sobre ela a abundância da misericórdia divina. Mais do que nunca o mundo precisa de Cristo, da sua salvação, do seu amor misericordioso”.
"Muitas pessoas experimentam um vazio ao seu redor e dentro de si mesmo - talvez às vezes nós também - ; outros vivem em ansiedade e insegurança por causa da insegurança e conflito. Todos temos necessidade de respostas adequadas às nossas profundas interrogações existenciais. “Em Cristo, só n’Ele, é possível encontrar a paz verdadeira e o cumprimento de cada humana aspiração. Jesus conhece o coração do homem como nenhum outro. Por isto pode-o sarar, dando-lhe vida e consolação”, concluiu o Santo Padre.
fonte acidigital
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E vós, quem dizeis que eu sou?

                            Não dediquemos nosso tempo a nos examinar, para saber se de fato existe amor em nossas vidas.
Confessar que Jesus é o Messias de Deus implica em perder a própria vida, para salvá-la.
Por Marcel Domergue*
Referências bíblicas
1ª leitura: «Olharão para mim a respeito daquele que trespassaram» (Zacarias 12,10-11; 13,1)
Salmo: Sl 62(63) - R/ A minha alma tem sede de vós, como a terra sedenta, ó meu Deus!
2ª leitura: A fé em Jesus Cristo supera todas as barreiras: “nem judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher” (Gálatas 3,26-29) 
Evangelho: A confissão de fé por parte de Pedro e o anúncio da Paixão (Lucas 9,18-24)
O silêncio a propósito do Messias
A passagem do evangelho que lemos neste domingo situa-se entre a multiplicação dos pães, que prefigura a última Ceia, e a Transfiguração, em que Jesus discute com Moisés e Elias a respeito «de seu êxodo que se consumaria em Jerusalém».
De fato, no versículo 51 do mesmo capítulo, veremos Jesus «tomar resolutamente o caminho de Jerusalém», onde será crucificado. Significa dizer que nossa leitura, que inclui o primeiro anúncio da Paixão, situa-se numa guinada do Evangelho de Lucas.
Antes da sua última viagem, Jesus informa aos discípulos sobre o que o espera e sobre o que os espera. Mais uma vez, surge a questão: «Quem eu sou?». A resposta de Pedro é ambígua: de fato, o Messias é considerado «filho de Davi», herdeiro da sua realeza e da sua glória. Davi é célebre por seus feitos de guerra e por ter estabelecido o povo eleito em Jerusalém.
Para a maioria dos discípulos, o Messias libertaria Jerusalém da dominação romana. Tanto que, após a Ressurreição, irão perguntar a Jesus: «Senhor, é agora o tempo em que irás restaurar a Realeza em Israel?» (Atos 1,6). Um mal-entendido a respeito do Reino e do Messias.
Cometemos erro parecido quando esperamos que Deus nos livre dos terremotos, das epidemias e das guerras. Pois tudo isso foi posto em nossas mãos: cabe a nós prevenir e remediar. O Cristo vem nos encontrar e ficar conosco, no que de pior nos possa acontecer. E nos fará sair daí, para entrarmos numa vida e num universo que sequer somos capazes de imaginar.
Jesus não quis que os discípulos ficassem repetindo ser ele o Messias, por causa deste mal-entendido quase geral, a respeito do sentido desta palavra e da missão deste «Messias». E, também, a respeito da sua identidade profunda: este filho de Davi deverá ser reconhecido como o Filho de Deus.
Deus conosco, até o fim
Filho de Davi, Filho de Deus, neste evangelho, Jesus fala de si mesmo usando a expressão «Filho do homem». OCristo se inseriu numa linhagem humana. Assim sendo, Deus e a humanidade se tornaram apenas um. Fruto da humanidade, homem por excelência, Ele é ao mesmo tempo a expressão perfeita de Deus, «o ícone do Deus invisível», como diz Paulo (Colossenses 1,15).
Digamos que, por Cristo e em Cristo, Deus desposa o destino do homem até o fim. «Fim» que é a rejeição, o ser jogado fora da humanidade, de que tantos homens padecem. Alguns, como se diz, é porque ‘aprontaram’, ou, ao menos, deram pretexto para esta exclusão. Mas Cristo foi mais longe: sem razão alguma é que foi «suprimido».
No seu caso, o totalmente justo, o justo pela justiça de Deus foi quem sofreu a sorte do injusto. E assim cumpriu-se a soberana injustiça, o excesso insuperável do que chamamos de «pecado» e que equivale a destruir, em nós e nos outros, a imagem -«o ícone»- de Deus. Esta culminância do pecado veio chocar-se com a culminância do amor.
Odiado sem haver qualquer razão, será sem razão que o Cristo irá amar até ao ponto de entregar o que querem lhe tirar: a própria vida. O gesto, portanto, de tirar-lhe a vida será de toda forma desarmado: pois não há necessidade de se apoderar daquilo que é dado.
Em Gênesis 3, o ser humano tenta apoderar-se do «ser como Deus» enquanto isto mesmo lhe fora dado, quando Deus o criara «à sua imagem e semelhança» (Gênesis 1). Jesus anuncia, portanto, aos seus discípulos, que irá encontrar-se com o homem em sua pior aflição. Aonde quer que possamos ir, até mesmo na pior decadência, Cristo permanecerá sendo Emanuel, o Deus conosco.
Viver é dar a vida
Já deveríamos ter entendido que não há necessidade alguma de metáforas sacrificiais nem vitimistas, para entrarmos na compreensão da Páscoa do Cristo. «Entrar» simplesmente, já que não chegaremos nunca ao final deste mistério. Oamor absoluto nos ultrapassa, porque nossos diversos amores não chegam nunca até aí. Jesus, no entanto, nos convida a nos unirmos a ele no dom da vida: «Se alguém me quer seguir, tome sua cruz cada dia e siga-me».
«Cada dia», diz Jesus. Esta precisão nos faz compreender que não se trata forçosamente de oferecer-nos a uma morte violenta: ninguém pode ser morto «cada dia». Mas podemos cada dia viver para os outros, consagrar a nossa inteligência e as nossas forças para fazê-los existir e até mesmo, simplesmente, facilitar-lhes a existência. Temos certa repugnância em admitir isto, que consideramos serem apenas palavras piedosas e bem-pensantes.
No entanto, quando esquecemos nós mesmos para fazer com que os outros vivam, é que começamos a existir. O Paitorna-se pai, torna-se ele mesmo, tão somente pela geração do outro que é o seu Filho. Jesus nos diz que guardar a própria vida para si, que viver em torno de si mesmo equivale a um suicídio. Sair de si mesmo para ir até aos outros é uma libertação. Temos repetido que só existimos através das relações.
Tudo depende da qualidade de nosso modo de nos religar. O cume da relação, a relação por excelência, é o amor. Não dediquemos nosso tempo a nos examinar, para saber se de fato existe amor em nossas vidas. Isto equivaleria mais uma vez a nos fecharmos em nós mesmos. Pensemos antes nos outros. Isto que é «perder a sua vida peloCristo». Temos aí, pois, desde já, a Ressurreição.

Sítio Croire, 17-06-2016.
*Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês.
19/06/2016 | domtotal.com
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Denunciam “golpe de estado jurídico” para aprovar aborto em toda América

Por David RamosREDAÇÃO CENTRAL, 24 Mai. 16 / 08:00 pm (ACI).- A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) poderia abrir as portas ao aborto em todo o continente, reinterpretando a Convenção Americana Sobre Direitos Humanos (Pacto de São José), advertiram recentemente diversos líderes pró-vida. Para um deles, o organismo internacional está executando um “golpe de estado jurídico” contra os direitos humanos.

No dia 19 de maio, a Corte IDH iniciou um processo aberto de consultas sobre três artigos do Pacto de São José. Entre estes estão o artigo 4.1, que reconhece o direito à vida desde a concepção.
“Toda pessoa tem o direito de que sua vida seja respeitada. Este direito estará protegido pela lei e, em geral, a partir do momento da concepção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente”, indica o artigo que a Corte IDH poderia interpretar.
A plataforma pró-vida CitizenGO fez um abaixo-assinado exigindo que a Corte Interamericana de Direitos Humanos respeite o direito à vida desde a concepção.
Para Gualberto García Jones, diretor executivo do International Human Rights Group e perito em direitos humanos, a consulta iniciada pela Corte IDH “não é nada mais do que uma tentativa de democratizar seu golpe de estado”.
Em declarações ao Grupo ACI, García Jones advertiu que “a Corte Interamericana pretende nada mais, nada menos que um golpe de estado jurídico aos direitos humanos, protegidos pela maioria das constituições nacionais e pela mesma convenção interamericana sobre os direitos humanos”.
“Em vez do direito à vida, quer impor o direito ao aborto; em vez do direito à integridade familiar, quer a destruição do conceito de família; em vez da liberdade religiosa, quer impor sua versão religiosa à força”, denunciou.
O mexicano Carlos Alberto Ramírez Ambríz, presidente do movimento pró-vida ‘Dilo Bien Internacional’, advertiu que a Corte de São José “se converte, pouco a pouco, em um instrumento a mais da cultura de morte”.
Ramírez Ambríz recordou a questionada sentença da Corte IDH contra Costa Rica por proibir a fecundação in vitro, no final de 2012, que “atenta contra o direito humano à vida, à liberdade e à segurança da pessoa”.
“Agora, a ‘tremenda corte’ sai com a questão de querer interpretar o direito à vida, como se tal direito tivesse a necessidade de ser interpretado, fazendo um apelo para que ‘peritos’ deem sua opinião e formulem um novo critério”.
O presidente de ‘Dilo Bien Internacional’ recordou aos membros da Corte de São José que “o direito à vida é inalienável e não precisa de interpretação. O que precisa é de uma proteção jurídica universal que impulsione o desenvolvimento populacional das nações. É uma exigência que a sociedade moderna pede e deve ser atendida”.
Julia Regina de Cardenal, fundadora e presidente honorária da Fundação ‘Sim à Vida’, de El Salvador, lamentou que uma organização como a Corte de São José, “criada para defender os direitos humanos”, tenha entre seus membros “representantes que estão a favor de legalizar o negócio de assassinar cruelmente os seres humanos por nascer e que, além disso, machuca a mãe”.
Esta situação “é totalmente incoerente”, lamentou.
“Matar é matar. Não pode haver casos excepcionais para decidir pela vida de um ser humano. A violência e a morte nunca podem ser a solução”, assinalou.
A também salvadorenha Sara Larín, presidente do movimento VIDA SV, advertiu que esta “tentativa de desproteger o nascituro na Convenção Interamericana é contrária à lei superior estabelecida no artigo 6 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que garante a todo ser humano o direito ao reconhecimento de sua personalidade jurídica”.
“O início da vida humana desde a fecundação é um dado biológico objetivo. A partir desse momento já existe um novo organismo com genoma humano, ou seja, uma pessoa sujeita de direitos”, explicou.
Para Larín “é importante mostrar aos internacionalistas que proteger a vida do nascituro supõe a base para a autêntica proteção da pessoa humana em todas suas etapas”.
Karla Martínez del Rosal de Rodríguez, da Pastoral Arquidiocesana da Vida, da Arquidiocese de Guatemala, sublinhou que “nenhum outro caso da eliminação de uma vida pode ser tão arbitrário como cegar a do mais indefeso dos inocente”.
“Não somos árbitros da vida, devemos ser seus custódios. Cada vida vale, sem importar as circunstâncias de sua concepção, de sua saúde, da saúde de sua mãe ou da conveniência ou não dessa incipiente, dessa já concebida vida humana, para a mãe ou para os outros”, assinalou.
Eduardo Morales, diretor de ‘Geração Pró-vida’ de Paraguai, qualificou como “despropósito” que 47 anos depois da assinatura da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, a Corte IDH “duvide de seus próprios alicerces e daqueles que se proclamam protetores”.
“A Corte poderia revisar as atas dos debates entre os redatores da Convenção para concluir que ‘em geral’ foi colocado para reforçar a proteção integral da pessoa desde a concepção, ou simplesmente continuar lendo os incisos 2, 3, 5 do articulo 4, onde condena expressamente a pena de morte, e para os Estados que o mantêm, proíbe aplicar a pena de morte aos menores de 18 anos e apenas pelos delitos mais graves depois de um julgamento justo”, assinalou.
Para assinar a campanha da CitizenGO, exigindo que a Corte IDH defenda o direito à vida humana desde a concepção, acesse:http://www.citizengo.org/es/34709-reconozcan-derecho-vida-del-nasciturus
FONTE ACIDIGITAL

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São Francisco da Penitência OFS Cabo Frio | by TNB ©2010