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Papa Francisco convida a crer em Deus para sair do desespero e da morte

                       Papa abençoa uma menina ao início da Audiência Geral. Foto: Lucía Ballester / ACI Prensa
VATICANO, 29 Mar. 17 / 09:30 am (ACI).-Por Álvaro de Juana- Na catequese desta quarta-feira na Audiência Geral, o Papa Francisco recordou a figura de Abraão, “Pai da fé”, que acreditou contra toda esperança, confiou e descobriu que Deus faz sair do desespero.
Abraão também “é pai na esperança e isso porque em sua vida já podemos acolher o anúncio da ressurreição, da vida nova que vence o mal e a própria morte”.
“O Deus que se revela a Abraão é o Deus que salva, o Deus que faz sair do desespero e da morte, o Deus que chama à vida. Na história de Abraão, tudo se torna um hino ao Deus que liberta e regenera, tudo se torna profecia”.
O Papa comentou a carta de São Paulo aos Romanos, que diz que Abraão, “acreditou, sólido na esperança, contra toda esperança”, dado que Deus lhe tinha prometido descendência embora fosse idoso e sua mulher estéril. “Neste ponto, Paulo nos ajuda a compreender a relação muito estreita entre a fé e a esperança”, acrescentou.
“Nossa esperança não se apoia sobre raciocínios, previsões e garantias humanas, se manifesta lá onde não há mais esperança, onde não há nada mais a esperar, precisamente como ocorreu com Abraão, diante da sua morte iminente e da esterilidade da sua mulher Sara”.
Francisco assegurou que “a grande esperança está enraizada na fé e precisamente por isso é capaz de ir além de qualquer esperança. Sim, porque não se baseia em nossa palavra, mas na Palavra de Deus”,
“Neste sentido somos chamados a seguir o exemplo de Abraão, o qual mesmo diante da evidência de uma realidade que parece voltada à morte, confia em Deus”.
“Este é o paradoxo e, ao mesmo tempo, o elemento mais forte, mais elevado, da nossa esperança! Uma esperança baseada em uma promessa que do ponto de vista humano parece incerta e imprevisível, mas que se manifesta até mesmo diante da morte, quando quem a promete é o Deus da Ressurreição e da vida”.
O Santo Padre concluiu pedindo a Deus “a graça de permanecer firmes não tanto em nossas seguranças, em nossas capacidades, mas na esperança que brota da promessa de Deus, como verdadeiros filhos de Abraão”. Assim, “nossa vida terá uma nova luz, na certeza de que Aquele que ressuscitou o seu Filho ressuscitará a nós também, tornando-nos uma só coisa com Ele, junto de todos os nossos irmãos na fé”.
ACIdigital
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Quem poderá conhecer os desígnios de Deus?

Esta é a grande questão que se põem homens e mulheres que creem
Por Marcel Domergue*
No evangelho deste domingo, Jesus se volta para os que o seguem, buscando desiludi-los.
Referências bíblicas
1ª leitura: “Quem pode imaginar o desígnio do Senhor?” (Sabedoria 9,13-18)
Salmo: 89(90) - R/ Vós fostes, ó Senhor, um refúgio para nós.
2ª leitura: “Recebe-o, não mais como um escravo, mas como um irmão querido” (Filêmon 9-10.12-17)
Evangelho: “Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14,25-33)

Grandes multidões
O que estariam buscando todas estas pessoas que seguiam o Cristo, no caminho para Jerusalém? Muitos imaginavam que, sendo capaz de realizar tantas curas e prodígios, iria tomar o poder. O episódio dos Ramos vai exatamente neste sentido. Assim como a reflexão dos dois discípulos com quem Jesus foi se encontrar, no caminho de Emaús: «Nós esperávamos que fosse ele quem redimiria Israel».
No evangelho de hoje, Jesus se volta para os que o seguem, buscando desiludi-los. Revela-lhes não estarem indo para «restaurar a Realeza em Israel» (Atos 1,6), mas para perderem tudo o que constitui as nossas vidas neste mundo, tendo em vista uma passagem, uma travessia ainda inimaginável. Um Reino, sim, mas que não é deste mundo!
Podemos nos perguntar o que esperam as multidões de cristãos que constituem a Igreja hoje, sendo que os seus responsáveis, aliás, nem sequer renunciaram ainda ao exercício de um «poder temporal». Isto explica, sem dúvida, porque as «grandes multidões» da atualidade, desiludidas pela evolução da história e constatando que Deus deixa a sua gestão totalmente aos nossos cuidados, renunciam a seguir o Cristo. E ele, no entanto, nos traça um caminho, um caminho único, que nossas histórias individuais e nossa história coletiva reproduzem.
Trata-se de nossa travessia para a Vida invulnerável de Deus. Neste caminho, devemos abandonar, uma a uma, todas as nossas bagagens. Até mesmo o que nos parece mais necessário, nos é tirado. Jesus sabe que está indo para este despojamento sem reservas, para deixar lugar livre e disponível para a vida nova. Segui-lo nos mete medo? É normal: Até mesmo Jesus, no Getsêmani, conheceu este pavor e teve de superá-lo.
O caminho da cruz
A tradução litúrgica nos diz que devemos «preferir» Jesus a tudo mais, inclusive os seres que nos são mais próximos. O texto grego fala em «odiar», o que se explica pelo fato de que as línguas semíticas, subjacentes, não conhecem o comparativo. «Preferir» é um destes, convindo melhor ao sentido das palavras de Cristo.
Com efeito, em Marcos 7,9-13, ouvimos Jesus colocar o amor ao pai e à mãe acima do caráter sagrado de uma oferenda, com a qual poderíamos vir a ajudá-los. Em Marcos 10,3-12 e Mateus 19,3-12, Jesus sublinha o caráter absoluto da união do homem e da mulher, para além das tradições e dos costumes, acima da própria Lei. Mas, então, o que significa esta «preferência» de que fala o nosso texto? Não esqueçamos que Jesus está a caminho para Jerusalém, onde deverá perder tudo, inclusive a sua própria vida.
Quer saibamos ou não, quer aceitemos ou não, estamos todos aí. As pessoas com mais idade me compreenderão bem: ao longo do tempo, vamos perdendo, uma a uma, todas as realidades que fundam a nossa vida: as nossas forças, a nossa saúde, a perfeição das nossas faculdades, o cônjuge, as nossas crianças que vão embora, viver a sua vida. Totalmente desnudados é que chegaremos ao termo que nos privará da nossa «própria vida».
Assim sendo, esta é a questão: vamos pôr toda a nossa confiança em Cristo, para além da relação um tanto idolátrica que mantemos com o que povoa a nossa existência? Superando toda a metáfora, temos de segui-lo até Jerusalém, em sua passagem pela Cruz, para nos encontrarmos com ele em sua Ressurreição. Não fechemos os olhos: é para aí que, de qualquer modo, estamos indo. Busquemos segui-lo com esta alegria que só pode vir da fé.
O que verdadeiramente desejamos?
O evangelho continua, citando o exemplo do homem que quer construir uma torre ou partir para a guerra. Trata-se da qualidade do nosso desejo. Mais exatamente, da qualidade do que desejamos de modo espontâneo. Construir uma nova torre de Babel? Medirmo-nos com quem é mais forte do que nós? Aqui, é a nossa vontade de poder que é posta em questão.
Encontramos assim a lógica das linhas precedentes: o que desejamos de fato? Escolher seguir o Cristo em seu caminho não é fácil. Já compreendemos que não foi por si mesmo que ele escolheu passar por isso. O sofrimento não vem de Deus; Deus não o quer. O que Ele quer é encontrar conosco em tudo o que a vida nos dá a suportar. São os homens que erguem as cruzes. Por pior que seja a situação que tenhamos de sofrer, Deus vem nos habitar, para nos fazer sair daí.
A obra de Deus é a ressurreição desta vida que Ele nos deu e que perdemos. Para a vida é que estamos indo. Eis aí o que temos de escolher, mesmo se no caminho devamos perder todo o resto. O nosso problema é que queremos tudo. E, nestas condições, seguir o Cristo, ser seu discípulo, é impossível, tal como sublinha a última frase do nosso evangelho. No entanto, se temos muita dificuldade em nos reunir ao Cristo em sua travessia do sofrimento dos homens, se não ousamos nem mesmo vislumbrá-la, não nos desesperemos.
Voltemos aos discípulos de Emaús: temos aí estes homens que fogem de Jerusalém, onde tudo se passa. Muitas vezes, somos semelhantes a eles, cheios de ilusões a respeito do que o Cristo veio cumprir. O próprio Cristo, no entanto, veio encontrá-los em seu mau caminho, trazendo-lhes a alegria da verdade.

Sítio Croire
*Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês.
04/09/2016 | domtotal.com
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Atitudes que ajudam a rezar

                                  A oração é sempre um diálogo, um encontro. Não é um monólogo, nem uma mera introspecção.
               Nessa experiência de amor, nos entregamos, como barro modelável nas mãos de Deus.
Por Dom Adelar Baruffi*
“A Igreja não pode dispensar o pulmão da oração” (EG 262), nos disse o Papa Francisco. Ela é o meio privilegiado do encontro cotidiano com Deus, conosco mesmos e com a comunidade de fé. No entanto, é preciso dispor-se, através de algumas atitudes.
A primeira atitude que facilita a oração é o recolhimento. Recolher a vida com toda a sua complexidade, recolhê-la, em especial diante de Deus. Estar presente e atento a tudo o que estou vivendo. A dificuldade é a distração. Se viver distraído e ausente a maior parte do dia, se não tenho consciência de mim mesmo habitualmente em cada atividade, se não me centro no que estou fazendo no decorrer do dia, o normal é que tampouco o faça no momento de oração. Oramos como vivemos e vivemos como oramos. Tomar consciência do corpo, dos sentimentos e da mente, com todos os pensamentos, reflexões, recordações e fantasias que aparecem e desaparecem. Exercitar a atenção central: a capacidade de ver e perceber tudo com uma luz interior. Invocar o Espírito Santo, que conduz o encontro com Deus. Quanto mais eu exercitar o recolhimento, tanto mais centrado estarei em cada momento. 
A segunda atitude é exercitar o silêncio exterior e interior. Há ruídos exteriores e interiores. Não nos concentramos quando estamos em um ambiente ruidoso. O mesmo acontece quando temos um barulho dentro de nós mesmos: nervosismo, tensão, preocupações, angústia, agressividade, estresse... Este ruído emocional nos bloqueia e nos incapacita para estar, para estar simplesmente em atenção amorosa a Deus. É preciso criar espaços e tempos de silêncio: criar um clima silencioso, sereno, pacificador. Uma pessoa barulhenta o será em tudo: na vida e na oração. E uma pessoa silenciosa o será em tudo: na oração e na vida. O silêncio interior é absolutamente imprescindível para viver uma experiência de oração. Um silêncio interior que nos abra ao diálogo com Deus. Assim se expressava Henri Nouwen: “Senhor Jesus! As palavras que dirigiste a teu Pai brotaram do teu silêncio. Introduze-me neste silêncio, para que assim fale em teu nome e minhas palavras deem fruto. É tão difícil permanecer em silêncio, silêncio de palavras, mas também silêncio do coração... Há tantas coisas que falam dentro de mim... Sempre pareço estar enredado em debates interiores comigo mesmo, com meus amigos, com meus inimigos, com meus defensores, com meus adversários, com meus colegas e com meus rivais. Porém, este debate interior põe às claras quanto longe está de ti meu coração.” (Escritos Essenciales, Santander: Editorial Sal Terrae, 1999, p.95). Normalmente, a vida de uma pessoa ruidosa é superficial. A vida de uma pessoa silenciosa tende a ser mais profunda, integrada, positiva, unificada, repleta de harmonia, de paz e de plenitude. 
A terceira atitude é a abertura para escutar e dialogar. A oração é sempre um diálogo, um encontro. Não é um monólogo, nem uma mera introspecção. É um encontro, uma saída de si, para dar espaço para acolher a Deus, que continuamente sai de si para nos encontrar, para nos falar. A abertura é fruto da consciência de si e do silêncio. Uma pessoa encerrada em seu próprio cárcere de tensões e angústias é incapaz de ver e perceber, de escutar e acolher o outro tal como é. Atitude de escuta que espera o Senhor. “Fala, Senhor, que teu servo escuta” (1Sm 3,10), disse Samuel. Escutar é uma atitude radical e essencial do homem que deseja viver aberto e acolhedor dos outros e a Deus. Escutar na oração, escutar a Deus, é, portanto, uma atitude permanente, que devo manter sempre, tal como são permanentes a comunicação e a manifestação de Deus. 
A quarta atitude é a entrega de si. É uma entrega mútua em liberdade, em que eu acolho o dom infinito de sua presença e de seu amor e respondo livremente, em plena disponibilidade de amor obediente. Deus não dá coisas, ele se dá a si mesmo numa entrega total, infinita e eterna porque nos ama. Diante de Deus, portanto, só tem sentido a entrega e disponibilidade, o abandono confiante. “Faça-se em mim, segundo a tua Palavra.” (Lc 1, 38). Então, nessa experiência de amor, entrega-se, como barro modelável nas mãos de Deus. 

CNBB, 07-06-2016.
*Dom Adelar Baruffi: Bispo de Cruz Alta.
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Como é grande o vosso nome

               “Quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles”

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho segundo João 16,12-15.

Por Marcel Domergue*
Referências bíblicas:
1ª leitura: "A Sabedoria foi constituída antes das origens da terra" (Provérbios 8,22-31)
Salmo: Sl 8 - R/ Ó Senhor, nosso Deus, como é grande vosso nome por todo o universo!
2ª leitura: "Em paz com Deus, por meio de Jesus Cristo, no amor derramado pelo Espírito" (Romanos 5,1-5)
Evangelho: "Tudo o que o Pai possui é meu; o Espírito receberá do que é meu e vo-lo anunciará" (João 16,12-15)
A Sabedoria do começo
Não passemos depressa demais por nossa 1ª leitura. O Novo Testamento vê em Cristo a Sabedoria de Deus, por isso ficamos sabendo que Cristo está aí desde o começo. O Cristo sim, digo bem: este mesmo Cristo de sempre, que se tornou homem em Jesus de Nazaré, quando “os tempos se cumpriram”.
Este Jesus dos nossos evangelhos é precisamente a quem Paulo se refere, em Colossenses 1,15-20: “Ele é a imagem do Deus invisível (a visibilidade do invisível), primogênito de toda criatura; porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra.”
1. Paulo não fala somente do Verbo, comoSão João no início de seu Prólogo: para ele, o “Verbo encarnado” já estava aí bem antes do aparição do homem. A Sabedoria no livro dos Provérbios é o Verbo, operando em todas as coisas para produzir a Imagem e Semelhança de que fala Gênesis 1.
Esta expressão que define o homem define em primeiro lugar o Filho no qual Deus se conhece e se reconhece. Com Jesus, revela-se à luz do dia o que se encontra fora do tempo. Deus, em Jesus, revela-se saído de Si mesmo: “generosidade expansiva”, conforme o biblista Paul Beauchamp.
Não há Deus, de um lado, e, de outro, como se fosse algo a mais, esta generosidade. Não! Ele é esta generosidade. “Deus é amor”. Para Ele, existir consiste em que aconteça este “face a face semelhante a Si mesmo”, sendo, no entanto, Outro. Um Outro tirado de Si mesmo (Gênesis 2,18 e 22-24). Isso é o que nos ensina a vinda de Jesus. Ver: Tito 3,4 e 1Jo 1,1-4.
O Espírito e a Sabedoria
Encontra-se na Sabedoria "um Espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil...” (Sabedoria 7,22). Este Espírito é “artífice do mundo”. Mas quem, então, é criador: O Pai, o Filho ou o Espírito? Digamos que quem cria é este intercâmbio, esta tríplice relação que “constitui” Deus.
Somos todos concebidos e feitos numa relação de engendramento. Deus é quem gera, quem é gerado, e a própria geração. Foi necessária muita audácia aos primeiros cristãos para acreditar nisto e para dizê-lo, a partir do gesto de Jesus e do dom do Espírito.
A imagem que fazemos de Deus, do divino, transformou-se radicalmente. Não podemos mais dizer simplesmente que Deus é Um. Agora, é preciso dizer que Ele é “União”, conforme santo Inácio de Antioquia, que concluiu que só existimos verdadeiramente como homens quando nos fazemos, também nós, “União”. Um só corpo.
A “função” atribuída ao Espírito é ser a uma só vez Agente da comunhão entre do Pai e do Filho e Quem dá ao Cristo um corpo novo, ao mesmo tempo uno e múltiplo. O sopro de Deus, que é a sua própria vida, se dissemina e comunica-se. fazendo-nos existir por participação na natureza divina (2 Pedro 1,4). O Sopro traz a Palavra e a Palavra se vê ganhar um corpo, o que vale para a Anunciação e, finalmente, para o Pentecostes. Só podemos existir sendo assumidos no intercâmbio Trinitário.
Um programa para a humanidade
Temos, pois, de nos encontrar com o “divino” que se revela dom de Si mesmo. O que exige a duração toda da nossa história. E isto vale não só para cada um de nós como para toda a humanidade. Mas será preciso esperar até o “final dos tempos” para que o Deus-União complete a criação “à sua imagem”?
Ora, de fato, entramos na comunhão divina a cada vez que, junto aos outros, criamos relações autênticas. Lembremos este canto muito antigo: “Onde haja caridade e amor, Deus aí está”, ou ainda estas palavras de Jesus: “Quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles”. Ele está “no meio” para ser o “meio” no qual nos encontramos. Não só ao mediador, que é o traço de união, mas à própria união; n'Ele somente é que podemos aceder.
Assim, fazendo-nos irmãos é que nos tornaremos Filhos. Entramos já na eternidade de Deus, mas permanecemos no tempo: nosso estatuto de irmãos e de filhos está incessantemente por se reconquistar, ao fio dos acontecimentos e encontros.
A Trindade, no entanto, que nos parece tão alta e tão longínqua está aqui, ao alcance de nossos corações e de nossas mãos. Vivemos isto tudo na obscuridade da fé. Esperando a plena revelação, olhemos como Cristo viveu e agiu, Ele que é a visibilidade do Pai (Santo Irineu). E o Espírito é que dá testemunho.

Sítio Croire, 20-05-2016.
*Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês.
22/05/2016 | domtotal.com
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Misericórdia e amor

Quando a misericórdia invade nosso coração, podemos perceber a presença e o amor de Deus.
Por Dom José Gislon*
Estimados Diocesanos! O tempo da Quaresma nos convida a refletirmos sobre a nossa vida de comunhão com o Senhor. Recordamos do amor de Deus Pai, manifestado por cada um de nós, na paixão de seu Filho Jesus. Mas esse amor tem algo de diferente, não se extingue no tempo e na história, não cai no vazio e na indiferença, não faz promessas que caem no esquecimento. Esse amor que está ao alcance do coração humano é divino, pois através dele podemos perceber a presença de Deus agindo no mundo, nos reconciliando com a sua misericórdia.
Quando deixamos a misericórdia invadir o nosso coração, podemos perceber a presença e o amor de Deus na nossa vida. É o momento em que a graça de Deus nos ajuda a olhar o caminho percorrido e nos faz perceber que talvez tenhamos vivido longe do Criador e da sua casa. Podemos ter perdido o sentido da vida, a dignidade de ser humano e, às vezes, até a coragem de recomeçar, porque não sabemos mais quem somos.
Lembro que foi na mais profunda desolação, depois de ter dissipado toda a herança que recebera, que o filho pródigo recordou-se do Pai, do aconchego da sua casa. Porém, precisou primeiro olhar para dentro de si mesmo, tomar consciência da sua situação de abandono, para depois criar coragem e iniciar o caminho que o conduziria novamente à casa do Pai. Ao ver de longe o filho chegando o Pai vai ao seu encontro, o acolhe na sua misericórdia com um abraço de ternura, alegre pelo seu retorno. Não pediu quanto restava da herança ou no que tinha sido gasta. O Pai estava feliz porque o filho tinha voltado. Ao retornar para a casa do Pai, o filho pródigo recuperou sua dignidade, percebeu que o Pai sempre estivera à sua espera, amando-o como filho.
Santo Ambrósio, num de seus escritos, lembra que “não são os laços de sangue que nos tornam próximos uns dos outros, mas a misericórdia”. Dos laços de misericórdia, que unem os homens em vínculos novos, nascem as obras de misericórdia, aquelas obras que produzem a justiça. Um homem rico de misericórdia, quando não tem nada para doar a um pobre, lhe doa o seu amor, tornando-se próximo daquele que vive na miséria. Deus Pai nos ama como filhos e filhas e nos espera na sua casa com o abraço da misericórdia.
CNBB 24-02-2016.
*Dom José Gislon: Bispo de Erexim.
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Deus, Pai das misericórdias!


O que mudou a vida de Paulo foi o seu encontro com Deus misericordioso por meio de Jesus.

Por Cardeal Odilo P. Scherer*
Festejamos a conversão do apóstolo São Paulo em pleno Ano Santo extraordinário da Misericórdia, durante o qual a Igreja nos convida a olhar para os santos, para aprender deles a viver a misericórdia.
São Paulo nem sempre é lembrado logo quando falamos dos “santos da misericórdia”; de fato, ele se sobressai mais como um pregador, um teólogo e missionário. Mas se formos ver mais a fundo, ficamos impressionados com seu enorme amor por Jesus Cristo e pela Igreja, seu ardor missionário e sua perseverança em dar seu testemunho por Cristo e pelo Evangelho, apesar das perseguições e ameaças que sofre.
Para São Paulo a misericórdia não é um conceito intelectual, nem um sentimento vago, mas corresponde ao modo de agir de Deus para com ele e para com toda a humanidade. Ele se refere à sua conversão como um fato de misericórdia de Deus”: “Alcancei misericórdia porque agia por ignorância, não tendo ainda fé” (1Tm 1,13). E continua, na mesma Carta: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro. Mas alcancei misericórdia...” (1,15-16).
O que mudou a vida de Paulo foi o seu encontro com Deus misericordioso por meio de Jesus Cristo, “rosto visível do Deus misericordioso invisível. Por isso, Paulo volta com frequência ao tema da misericórdia de Deus nas suas pregações e cartas. Na saudação da Carta a Timóteo ele deseja que “a graça, a misericórdia e a paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus” estejam com seu destinatário (cf 1Tm 1,2; 2Tm 1,2).
Na 2ª Carta aos Coríntios, logo após a saudação, Paulo exalta a misericórdia de Deus, que o assistiu em suas provações: “Bendito seja o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação!” (2Cor 1,3). Ele não reconhece a misericórdia de Deus apenas na abundante graça do perdão dos pecados que recebeu, mas também no chamado a ser apóstolo, a anunciar o Evangelho da salvação (cf 2Cor 4,1) e na assistência contínua que recebe de Deus, que o protege e não o desampara. Paulo tem consciência que vive da misericórdia de Deus.
E assim, ele pode dizer que “Deus é rico em misericórdia” porque nos amou quando ainda éramos pecadores (Ef 2,4); e a prova dessa ilimitada e inesgotável misericórdia está no envio do Filho de Deus ao mundo, por amor aos pecadores, para que todos sejam salvos por meio dele. A salvação é obra da misericórdia de Deus (cf Tt 3,5). Acolher a misericórdia de Deus também significa buscar o perdão de Deus e o arrependimento sincero dos pecados. Por isso, ele recomenda, em nome de Cristo, que cada um busque a misericórdia de Deus com confiança e se reconcilie com Deus (cf 2Cor 5,14-21).
Como consequência do encontro com o Deus misericordioso, São Paulo recomenda que também os cristãos e discípulos de Cristo correspondam na sua vida à misericórdia de Deus, acolhendo-a como dom gratuito e sendo misericordiosos uns para com os outros: “Portanto, como eleitos, santos e amados, revesti-vos com sentimentos de misericórdia, bondade, humildade, mansidão, paciência...” (cf Cl 3,12).
Paulo também incentiva a praticar as “obras de misericórdia”: ser pacientes uns com os outros, mansos e bondosos, suportar as fraquezas dos demais, perdoar-se reciprocamente (cf Cl 3,12-17). Na Carta aos Romanos, ele recomenda, “pela misericórdia de Deus”, que os fiéis se dediquem a todo tipo de obra boa e conforme a misericórdia de Deus. A vida cristã, no seguimento de Jesus Cristo, passa a ser identificada pela prática da misericórdia.
Não é sem razão que o Papa Francisco chama toda a Igreja a renovar-se na misericórdia durante este Jubileu extraordinário da Misericórdia. E isso consiste, em primeiro lugar, na acolhida da misericórdia de Deus. Quem fez a experiência profunda do perdão de Deus, da gratuidade do amor e da compaixão de Deus, também é levado a praticar a misericórdia. Esta prática, portanto, não decorre de uma imposição moral, mas de uma gratificante experiência vivida.
De fato, a prática da misericórdia é recomendada por Jesus como forma de sintonia e imitação de Deus: “sede misericordiosos como vosso Pai celeste é misericordioso”; de maneira semelhante, Jesus ainda recomenda: “sede perfeitos como vosso Pai do céu é perfeito” (cf Mt 5,48).
Entre as perfeições de Deus, eu devemos imitar, está a misericórdia. E a religião agradável a Deus inclui a misericórdia, como já recomendavam os profetas e Jesus confirmou: “misericórdia eu quero, e não sacrifícios” (cf Os 6,6; Mt 9,13).
São Paulo é, portanto, um exemplo para nós sobre a acolhida da misericórdia de Deus e a prática quotidiana da misericórdia, em vista de uma vida cristã autêntica.
CNBB 20-01-2016.
*Cardeal Odilo P. Scherer é arcebispo de São Paulo (SP).
25/01/2016  |  domtotal.com
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Estejam sempre despertos

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus segundo Lucas 21,25-28.34-36.
Por José Antonio Pagola*
Os discursos apocalípticos recolhidos nos evangelhos refletem os medos e a incerteza daquelas primeiras comunidades cristãs, frágeis e vulneráveis, que viviam no meio do vasto Império romano, entre conflitos e perseguições, com um futuro incerto, sem saber quando chegaria Jesus, o seu amado Senhor.
Também as exortações desses discursos representam, em boa parte, as exortações que faziam uns aos outros aqueles cristãos recordando a mensagem de Jesus. Essa chamada a viver despertos cuidando da oração e da confiança são um traço original e característico do seu Evangelho e da sua oração.
Por isso, as palavras que escutamos hoje, depois de muitos séculos, não estão dirigidas a outros destinatários. São chamadas que temos que escutar os que vivemos agora na Igreja de Jesus no meio das dificuldades e incertezas destes tempos.
A Igreja atual marcha por vezes como uma anciã "curvada" pelo peso dos séculos, as lutas e trabalhos do passado. "Com a cabeça baixa", consciente dos seus erros e pecados, sem poder mostrar com orgulho a glória e o poder de outros tempos.
Este é o momento de escutar a chamada que Jesus nos faz a todos.
"Levantai-vos", animai-vos uns aos outros. "Erguei a cabeça" com confiança. Não olheis o futuro apenas a partir dos vossos cálculos e previsões. "Aproxima-se a vossa libertação". Um dia já não vivereis encurvados, oprimidos nem tentados pelo desalento. Jesus Cristo é o vosso Libertador.
Mas há formas de viver que impedem a muitos caminhar com a cabeça levantada confiando nessa libertação definitiva. Por isso, "tende cuidado de que não se entorpeça a mente". Não vos acostumeis a viver com um coração insensível e endurecido, procurando levar a vossa vida de bem-estar e prazer, de costas ao Pai do Céu e aos Seus filhos que sofrem na terra. Esse estilo de vida vos fará cada vez menos humanos.
"Estejam sempre despertos". Despertem a fé nas vossas comunidades. Estejam mais atentos ao meu Evangelho. Cuidai melhor da minha presença no meio de vós. Não sejam comunidades adormecidas. Vivam "pedindo força". Como seguiremos os passos de Jesus se o Pai não nos sustenta? Como poderemos "manter-nos em pé ante o Filho do Homem"?
Instituto Humanitas Unisinos
*José Antonio Pagola: teólogo espanhol.
28/11/2015  |  domtotal.com

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Acreditar no céu

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus segundo Mateus 5, 1-12.
Por José Antonio Pagola*
Nesta festa cristã de "Todos os Santos", quero dizer como entendo e trato de viver alguns aspetos da minha fé na vida eterna. Quem conhece e segue Jesus Cristo, entender-me-á.
Acreditar no céu é para mim resistir-me a aceitar que a vida de todos e de cada um de nós é apenas um pequeno parêntesis entre dois imensos vazios. Apoiando-me em Jesus, intuiu, pressinto, desejo e creio que Deus está a conduzir para a sua verdadeira plenitude o desejo de vida, de justiça e de paz que se encerra na criação e no coração da humanidade.
Acreditar no céu é para mim rebelar-me com todas as minhas forças a que essa imensa maioria de homens, mulheres e crianças, que só conheceram nesta vida miséria, fome, humilhação e sofrimentos, fique enterrada para sempre no esquecimento. Confiando em Jesus, creio numa vida onde já não haverá pobreza nem dor, ninguém estará triste, ninguém terá que chorar. Por fim poderei ver os que vêm nas barcas chegarem à sua verdadeira pátria.
Acreditar no céu é para mim aproximar-me com esperança a tantas pessoas sem saúde, doentes crônicos, inválidos físicos e psíquicos, pessoas afundadas na depressão e na angústia, cansadas de viver e de lutar. Seguindo Jesus, creio que um dia conhecerão o que é viver com paz e saúde total. Escutarão as palavras do Pai: Entra para sempre no gozo do teu Senhor.
Não me resigno a que Deus seja para sempre um "Deus oculto", de quem não podemos conhecer jamais o Seu olhar, a Sua ternura e os Seus abraços. Não posso imaginar não me encontrar nunca com Jesus. Não me resigno a que tantos esforços por um mundo mais humano e ditoso se percam no vazio. Quero que um dia os últimos sejam os primeiros e que as prostitutas nos precedam. Quero conhecer aos verdadeiros santos de todas as religiões e de todos os ateísmos, os que viveram amando no anonimato e sem esperar nada.
Um dia poderemos escutar estas incríveis palavras que o Apocalipse coloca na boca de Deus: "Ao que tem sede, Eu lhe darei de beber gratuitamente da fonte da vida". Grátis! Sem o merecer. Assim saciará Deus a sede de vida que há em nós.
Instituto Humanitas Unisinos
*José Antonio Pagola, teólogo espanhol.
31/10/2015  |  domtotal.com
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Maria: Mater Misericordiae

Através da mediação materna de Maria, Igreja se torna lugar do encontro com a misericórdia divina.
Por Dom Leomar Brustolim*
Salve, Rainha, Mãe de Misericórdia! A saudação que frequentemente a Igreja dirige à Mãe de Deus foi composta pelo bispo Ademar de Puy, no fim do século XI. A relação estreita entre rainha e misericórdia estabelece a identidade e a singularidade dessa proclamação. Maria é rainha, porque é Mãe de Jesus Cristo Rei. Ele é Senhor de um reinado que não terá fim (cf. Lc 1,33) e, em suas palavras e gestos, o Reino está presente. (cf. Mc 1,15). Nele, os sinais do Reino concretizam a misericórdia do Pai. (cf. Mt 5, 1-12). A mãe de Jesus percebe o advento deste tempo novo que seu filho traz e guarda tudo em seu coração (Cf. Lc 2,51).
Em Maria resplandece o amor misericordioso de Deus. Ele é transcendente e eterno, mas se comove totalmente com as misérias humanas. A Virgem de Nazaré experimentou de forma única o amor de Deus pela humanidade. O fruto desse amor tornou-a Mãe do Messias: o “Consolador”. “Ninguém, como Maria, conheceu a profundidade do mistério de Deus feito homem. Na sua vida, tudo foi plasmado pela presença da misericórdia feita carne. A Mãe do Crucificado Ressuscitado entrou no santuário da misericórdia divina, porque participou intimamente no mistério do seu amor.” [1] Ela continua envolvida na ação misericordiosa de Deus através da Igreja e de sua missão.
Inspirada em Maria, a Igreja deve construir a civilização da misericórdia. A história, apesar de seus revezes, não é o cemitério da civilização, nem o cenário apocalíptico da morte. Através da mediação materna de Maria, a Igreja se torna o lugar do encontro com a misericórdia divina. Na Virgem Maria se realiza totalmente o versículo evangélico que convoca os cristãos a serem misericordiosos como o Pai do Céu é misericordioso. (cf. Lc 3, 36).
Máximo, o “Confessor”, escreveu a obra: A vida de Maria e, sobre os últimos anos da Mãe de Jesus, ele afirmou: “A sua misericórdia não era somente para os parentes e os conhecidos, mas também para os estranhos e inimigos, porque era verdadeiramente a Mãe da Misericórdia, a Mãe do Misericordioso, […] a Mãe daquele que por nós se encarnou e foi crucificado, para infundir sobre nós, inimigos e rebeldes, a sua misericórdia”.[2]
Nesse mesmo sentido, o Papa Francisco ensina: “Ao pé da cruz, Maria, juntamente com João, o discípulo do amor, é testemunha das palavras de perdão que saem dos lábios de Jesus. O perdão supremo oferecido a quem O crucificou mostra-nos até onde pode chegar a misericórdia de Deus. Maria atesta que a misericórdia do Filho de Deus não conhece limites e alcança a todos, sem excluir ninguém.”[3]
Maria é a mulher que fez a experiência única da consolação de Deus para estabelecer a Nova Aliança, ela “é quem de maneira singular e excepcional experimentou, como ninguém, a misericórdia e, também de maneira excepcional, tornou possível com o sacrifício de seu coração a própria participação na revelação da misericórdia divina”.[4]
Peçamos à Mãe de Misericórdia que nos ensine a acolher o infinito amor do Pai das misericórdias, para não limitarmos nossa capacidade de perdoar, acolher e amar. E que possamos praticar o que São João Damasceno ensina, ao dizer que a melhor forma de devoção à Maria é cumprir as obras de misericórdia.
Rogai por nós, Ó misericordiosa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo!
CNBB
Dom Leomar Brustolim é bispo Auxiliar de Porto Alegre (RS). [1] Papa Francisco. Misericordiae Vultus, nº. 24. [2] Textos Marianos do Primeiro Milênio 2, 480. [3] Papa Francisco. Misericordiae Vultus, nº. 24. [4] João Paulo II, Dives in misericordia, nº. 9.
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Dom Helder Câmara partia há 16 anos - ORAÇÃO

Celebramos neste dia 27 de agosto os dezesseis anos do martírio “branco” do Dom da Paz.
Por Padre Geovane Saraiva*
Aos 27 de agosto de 1999, após completar noventa anos, vividos e bem vividos, Dom Helder foi chamado ao seio do Pai. Ele é hoje Servo de Deus (03/05/2015), Dom da Paz. Celebrava a missa lentamente, com toda simplicidade, como se estivesse conversando com o Cristo, a Virgem, os santos. “Cada manhã, ao fim da missa, eu contemplo o mundo com a alma de um colegial em férias e tenho vontade de gritar àqueles que se esgotam na agitação da vida cotidiana: ‘Irmãos, hoje é feriado universal’.”
Logo que chegou ao Rio de Janeiro, em 1936, em uma hora santa do clero, na qual o Cardeal Sebastião Leme criara os turnos de Adoração ao Santíssimo Sacramento, o jovem Padre Helder subiu ao púlpito para o seu primeiro sermão junto aos colegas de sua nova arquidiocese. A figura magra, pálida, de olhos fechados, mãos trêmulas e exaltada pronunciou uma oração que até bem pouco era recordada pelos padres daquela Igreja do Rio. Foi quase um escândalo: Dom Helder cobrou dos sacerdotes aquele fervor e aquele entusiasmo que no dia a dia, pouco a pouco, ia se arrefecendo. Parecia em transe, alçada sobre a cabeça de todos os padres da “Cidade Maravilhosa”, enumerando as tibiezas de todos e de cada um, o desamor ao trabalho pastoral, bem como a falta de garra no apostolado, etc.
Marcado por uma graça incomensurável por onde passou, mesmo quando teve que ir para o ostracismo, ficando no isolamento e excluído dos meios de comunicação social, durante o regime militar, o qual via nele um risco e um perigo à democracia, permaneceu forte e corajoso, sem nunca se abalar, deixando marcas profundas e indeléveis. Sua força imaginadora, sua criatividade e, sobretudo, sua capacidade de produzir e de realizar foram extraordinárias, surgindo uma nova Igreja, uma Igreja marcada profundamente pela esperança, como ele afirmava: “Esperança é crer na aventura do amor, jogar nos homens, pular no escuro, confiando em Deus”. Ele se antecipou, em ideias e vestes, ao aggiornamento que o Papa João XXIII promoveu e com o qual iria revolucionar, não apenas a Igreja, mas o nosso mundo hodierno.
Dom Helder foi um articulador; na melhor expressão da palavra, um conspirador, pensando no bem, com suas iniciativas compartilhadas por muita gente da Igreja, desejando fazer com que a Igreja-Instituição se comprometesse e se engajasse na causa dos empobrecidos, identificando-se com seu fundador e mestre, Nosso Senhor Jesus Cristo. Pensava e desejava ele uma Igreja despojada, pobre e mais servidora. Daí o “Pacto das Catacumbas”, de 16 de novembro de 1965, que foi uma excelente oportunidade para os bispos pensarem e refletirem, sobre eles mesmos, no sentido de fazer uma experiência de vida, na simplicidade e na pobreza, em uma Igreja encarnada na realidade, comprometida com o povo, renunciando às aparências de riqueza, dizendo não às vaidades, consciente da justiça e da caridade, através desse documento salutar e desafiador.
Já ao assumir a Arquidiocese de Olinda e Recife, em abril de 1964, no seu profético pronunciamento, na tomada de posse, disse com firmeza: “Quem estiver sofrendo, no corpo ou na alma; quem, pobre ou rico, estiver desesperado terá lugar especial no coração do bispo”. A pregação do Evangelho foi, para ele, ao mesmo tempo, candente, misericordiosa, apaixonada e sensata. Aprendamos, pois, do pastor dos empobrecidos, do cidadão planetário, referencial e nosso grande e maior patrimônio, falecido há 16 anos na cidade de Recife, PE, que, entre incontáveis pensamentos, concluo neste: “Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como a minha sombra”.
No dia 25 de setembro de 1981, ele escreveu esta prece que apresentou na Rádio Olinda: “Pai Celeste! Como escutas o pedido do pão de cada dia da parte dos que temos pão garantido para o ano todo e até para toda a vida? Como escutas o pedido do pão de cada dia da parte dos que, tantas vezes, veem o dia acabar, sem que chegue o pão!?… O grave é que se temos pão para o mês inteiro, para o ano todo, ou para toda a vida, é porque direta ou indiretamente tiramos o pão de cada dia da boca de muita gente! Pai, que a ninguém falte o pão de cada dia! Amém!”.
Oração: Graças por intercessão de Dom Helder Câmara:
Ó Deus altíssimo, boníssimo e terníssimo, que quisestes se revelar em toda vossa plenitude, na generosidade, doação, renúncia e criatividade do vosso servo Dom Helder Câmara. Vivendo agora a expectativa da beatificação e canonização do vosso místico e Dom da Paz, suplicamos com humildade e confiança que venhais em socorro da humanidade, nas injustiças, dores e angústias de toda natureza por que passa a criatura humana e todo o Universo. Que o nosso bom Deus seja sempre mais louvado, através do Servo de Deus, Dom Helder, instrumento da vossa paz e do vosso amor. Usando as palavras do Santo Padre, o Papa Francisco: “No fim, encontrar-nos-emos face a face com a beleza infinita de Deus e poderemos ler, com jubilosa admiração, o mistério do Universo, o qual terá parte conosco na plenitude sem fim”1, na mais viva esperança, ó Pai, de vermos todas as coisas renovadas. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na Unidade do Espírito Santo. Amém.                 
Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória ao Pai.
______________________
*Padre Geovane Saraiva
Pároco de Santo Afonso, Parquelândia – Fortaleza – CE
A oração não é oficial
1 Laudato Si’, 243
27/08/2015  |  domtotal.com
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Acreditar em Jesus não significa estar acorrentado, mas sim ser profundamente livres, diz o Papa

Vaticano, 24 Ago. 15 / 11:15 am (ACI/EWTN Noticias).- Ao presidir ontem a oração do Ângelus, o Papa Francisco assegurou aos milhares de fiéis reunidos na Praça de São Pedro que acreditar em Jesus não significa estar acorrentado, e sim ser profundamente livre.
O Santo Padre assinalou que “crer em Jesus significa fazer Dele o centro, o sentido de nossa vida.  Cristo não é um acessório opcional: é o ‘pão vivo’, o alimento essencial”.
“Unir-se a Ele, em um verdadeiro relacionamento de fé e amor, não significa ser acorrentado, mas profundamente livre, sempre a caminho.
Francisco se referiu ao Evangelho de ontem e recordou que logo depois de Jesus falar que Ele o “Pão que desceu do céu, e que Ele iria dar a sua carne como alimento e seu sangue como bebida”, aludindo ao seu sacrifício, alguns que O seguiam ficaram desiludidos por considerar essas palavras “julgou indignas para um Messias, palavras não ‘vencedoras’”.
“Alguns observavam Jesus como um Messias que devia falar e agir de modo que a sua missão tivesse sucesso, de imediato”, assinalou o Papa e assegurou que “precisamente sobre isso eles se enganavam: no modo de entender a missão do Messias”.
O Santo Padre destacou que “até mesmo os discípulos não conseguem aceitar aquela linguagem inquietadora do Mestre”.
“Na verdade, eles tinham entendido bem o discurso de Jesus, tão bem que não queriam escutá-lo, porque é um discurso que põe em crise a sua mentalidade. As palavras de Jesus sempre nos colocam em crise, por exemplo diante do espírito do mundo, do mundanismo”.

Entretanto, destacou: “Jesus oferece a chave para superar as dificuldades, uma chave composta de três elementos. Primeiro, a sua origem divina: Ele desceu do céu e subirá para onde estava antes”.

“Segundo, as suas palavras só podem ser compreendidas através da ação do Espírito Santo, Aquele que ‘dá a vida’. E é precisamente o Espírito Santo que nos faz compreender bem Jesus”.
E o terceiro elemento, assinalou, é que “a verdadeira causa da incompreensão das suas palavras é a falta de fé: ‘Entre vocês há alguns que não acreditam’, disse Jesus”.
Ante o afastamento de muitos discípulos, disse o Papa, “Jesus não poupa e nem atenua as suas palavras, ao contrário, obriga a fazer uma escolha precisa: ou estar com Ele ou separar-se d´Ele, e diz aos Doze: ‘Também vós quereis ir embora? ’”
“Então, Pedro faz sua confissão de fé em nome dos outros Apóstolos: ‘Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna’. Ele não diz ‘onde iremos? ’, mas ‘a quem iremos? ’”.
Francisco sublinhou que “o problema básico não é ir e deixar a obra iniciada, mas é a quem ir. Daquela interrogação de Pedro, entendemos que a fidelidade a Deus é uma questão de fidelidade a uma pessoa, com a qual se une por caminhar junto na mesma estrada”.
“E esta pessoa é Jesus. Tudo o que temos no mundo não satisfaz a nossa fome de infinito. Precisamos de Jesus, de estar com Ele, de nos alimentar à sua mesa, das suas palavras de vida eterna! ”.
Continuando, o Santo Padre convidou os fiéis a se questionar: “Quem é Jesus para mim? É um nome, uma ideia, apenas uma figura histórica? Ou é realmente aquela pessoa que me ama, que deu a sua vida por mim e caminha comigo? ”
“Para você quem é Jesus? Você está com Jesus? Você tenta conhecê-lo na sua Palavra? Lê o Evangelho, todos os dias uma passagem do Evangelho para conhecer Jesus? Carrega um pequeno Evangelho no bolso, bolsa, para lê-lo em qualquer lugar? Porque quanto mais estamos com Ele, mais cresce o desejo de permanecer com Ele”.
Ao finalizar, o Papa pediu à Virgem Maria que “nos ajude a ‘ir’ sempre a Jesus para experimentar a liberdade que Ele nos oferece, e que nos permita limpar nossas escolhas das sujeiras mundanas e dos medos”.
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Estas são as perguntas que todo ser humano deve fazer-se em algum momento da vida

Roma, 21 Ago. 15 / 03:06 pm (ACI).- O Secretário de estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, assinalou que, cedo ou tarde, todo ser humano deveria fazer-se uma série de perguntas fundamentais e assim vencer a “anestesia” na qual muitos vivem atualmente.
“Por que devemos sofrer e ao final morrer? Por que existe o mal e a contradição? Vale a pena viver? Ainda existe sentido em amar, trabalhar, fazer sacrifícios e esforçar-se? Onde acabará a minha vida e a das pessoas que nunca queremos perder? Para que estamos no mundo?”. Estas são algumas das importantes perguntas “que todos se interrogam, jovens e adultos, crentes e não crentes”.
Por meio de uma mensagem enviada em nome do Papa Francisco em ocasião do 36° Encontro do movimento Comunhão e Libertação, em Rimini (Itália), que está sendo realizado entre os dias 20 e 26 de agosto, o Cardeal afirma que “cedo ou tarde, pelo menos uma vez na vida, por causa de uma provação ou um acontecimento alegre, refletindo sobre o futuro dos filhos ou sobre o trabalho, cada ser humano deve encontrar-se com uma ou várias destas perguntas”.
“Inclusive, existem pessoas que negam insistentemente estas perguntas, mas não são capazes de exclui-las totalmente da própria existência”, afirma o Cardeal Parolin.
Em seguida, o Cardeal refletiu sobre a realidade do mundo atual: “diante de tantas respostas parciais, que oferecem somente ‘falsos infinitos’ e que produzem uma estranha anestesia, como é possível ressaltar as interrogantes que todos levam dentro de si? Frente à insensibilidade à vida, como despertar a consciência? ”
Para a Igreja, explica o Cardeal Parolin, “nos deparamos com um caminho fascinante, como na época do início do cristianismo, quando os homens estavam ocupados na vida sem a coragem, a força ou a seriedade de expressar as perguntas decisivas e, como aconteceu com São Paulo no areópago, falar de Deus àqueles que reduziram, censuraram ou esqueceram seus porquês, parece tão estranho que acaba se afastando da sua vida real com seus dramas e suas provas”.
O tema deste popular encontro de Rímini: “O que te falta com esta falta, coração, que de repente está cheio disso? ”, foi tirado do famoso poeta italiano Mario Luzi, do século XX.
Através do texto enviado ao Bispo de Rímini (Itália), Dom Francesco Lambiasi, o Cardeal Parolin afirma que “o drama atual consiste no perigo da negação da identidade e da dignidade da pessoa humana”.
“Uma preocupante colonização ideológica reduz a percepção das necessidades autênticas do coração a fim de oferecer respostas limitadas que não consideram a amplitude da busca do amor, da verdade, da beleza e da justiça que existe em cada Homem”.
Devemos recordar que o coração da pessoa está inquieto, como afirma Santo Agostinho, o Cardeal assegura que “a vida não é um desejo absurdo, o vazio não é um sinal de que nascemos ‘errados’, mas pelo contrário este é um sinal que nos adverte que nossa natureza foi criada para coisas grandes” e que a nostalgia da alma “somente pode encontrar satisfação em uma realidade infinita”.
“Por isso Deus, o Mistério infinito, aproximou-se do nosso nada, sustentado por Ele, e oferece a resposta que todos esperam inclusive sem perceber, enquanto a buscam no êxito, no dinheiro, no poder, nas drogas de qualquer tipo, a afirmação dos próprios desejos momentâneos”.
O Cardeal Parolin sublinha deste modo que “somente a iniciativa de Deus criador podia preencher a medida do coração e Ele saiu a nosso encontro para deixar-nos encontra-lo como se encontra um amigo. Desta maneira podemos descansar em meio de muitas tempestades porque estamos seguros de sua presença”.
O Secretário de estado do Vaticano recorda logo que durante a entrevista que realizou ao diretor da revista jesuíta ‘La Civiltá Cattolica’ em setembro de 2013, o Papa Francisco disse que “embora a vida de uma pessoa tenha sido um desastre, embora os vícios, a droga ou qualquer outra coisa a tenham destruído, Deus está em sua vida. (…) embora a vida de uma pessoa seja um terreno cheio de espinhos e erva daninha, sempre abriga um espaço onde pode crescer a boa semente. É preciso confiar em Deus”.
Além disso, ressaltou o Cardeal, o Santo Padre recordou durante a sua recente visita a uma prisão na Bolívia em julho que Jesus “veio nos mostrar, veio fazer visível o amor que Deus tem por nós. (…) um amor ativo, real. (…) um amor que perdoa, levanta, cura. Um amor que se aproxima e devolve dignidade. Uma dignidade que podemos perder de muitas maneiras e formas. Mas Jesus insiste nisso: deu sua vida por isso, para devolver-nos a identidade perdida”.
A missão dos fiéis, então, é oferecer a todos a boa notícia do Evangelho “sobretudo com a vida” que responde ao desejo de infinito, como diz o Santo Padre na Evangelii Gaudium.
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Palavras de Vida eterna

Deus não vem nos impor à força o amor. Ele ergue aos nossos olhos a imagem desta via estreita que é a única que conduz à Vida.
Jesus havia escolhido Pedro, mas Pedro não havia ainda, verdadeiramente, escolhido Jesus. Aí estamos todos nós.
Foram muitos os que se afastaram de Jesus, ao fim do seu discurso sobre o Pão da Vida.
Por Marcel Domergue
Referências bíblicas:
1ª leitura: «Nós também serviremos ao Senhor, porque ele é o nosso Deus» (Josué 24,1-2.15-18)
Salmo: Sl. 33(34) - R/ Provai e vede quão suave é o Senhor!
2ª leitura: «Este mistério é grande, e eu o interpreto em relação a Cristo e à Igreja» (Efésios 5,21-32)
Evangelho: «A quem iremos Senhor? Tu tens palavras de vida eterna» (João 6,60-69)
O intolerável necessário
Lemos, neste domingo (23), a conclusão do capítulo 6 de João; para ser mais preciso, a conclusão dos discursos sobre o pão da vida e o dom da carne e do sangue. Este pão revela-se aqui como provação, do mesmo modo que o maná, tão presente em todo o capítulo (Êxodo 16,2-4). Os ouvintes dividem-se entre crentes e não crentes. É que a ideia de comer a carne de um homem e beber o seu sangue é intolerável (versículo 60), e não será tornando o texto mais suave que se retirará dele este escândalo. Para dizer a verdade, a frase do Salmo 14,4, «devoram o meu povo, como se comessem pão», verifica-se todos os dias. Os ricos vivem da miséria, da fome e da morte de uma multidão de homens, mulheres e crianças que o sistema econômico atual reduz ao desamparo no terceiro mundo e em todos os terceiros mundos dos países mais desenvolvidos. A antropofagia dissimulada, oculta, é generalizada. A carne e o sangue que os ricos arrancam da maior parte da humanidade, contra a vontade desta, Cristo nos veio dá-los voluntariamente. É inútil dizer que isto não resolve o problema dos que são vítimas, mas conclama-nos a entrar na lógica deste dom total. Deus não vem nos impor à força o amor, seria totalmente contraditório. Ele ergue aos nossos olhos a imagem desta via estreita que é a única que conduz à Vida. Devemos então, primeiro, tomar a carne e o sangue que Ele nos dá e, em seguida, fazer nosso o amor que comanda este dom.
Comer a carne, beber o sangue…
Assim como se haviam revoltado, quando Jesus lhes revelara a sua origem, dizendo de onde tinha vindo (João 6,41-42), assim também se revoltam agora os seus interlocutores, ao ser-lhes revelado para onde ele estava indo, ou seja, para o Pai, pela Paixão. Jesus lhes havia dito em substância: - Se para vocês é um choque que eu anuncie o dom da carne e do sangue, o que irão dizer, então, quando isto acontecer efetivamente? Quando virem o Filho do Homem subir para onde estava antes? Comentando um pouco mais: o dom da carne e do sangue é o que acontece sempre, em todos os momentos, desde o início. A cruz é a revelação disto, a hora em que os tempos se cumpriram. O que não impede a Jesus de dirigir-se aos ouvintes indignados por aquelas palavras surpreendentes. Acabara de fato de repetir que, para viver, é preciso comer a sua carne; agora lhes diz que «a carne não adianta nada.» É evidente que a palavra «carne», aqui, não tem mais o mesmo sentido. No momento anterior, aplicava-se ao Cristo enquanto um homem solidário com a natureza, portador da argila original (Gênesis 2,7); agora, a palavra assume o sentido negativo que tem em muitos textos: a incapacidade de aceder ao espírito. Quando Jesus diz que as suas palavras não são carne, mas espírito e vida, quer sem dúvida nos fazer compreender que não se trata de comer materialmente a sua carne, o seu corpo. Sabemos agora que isto é feito através de sinais. A carne que foi entregue não deve ser compreendida de modo carnal.
Ainda os dois discursos
Conforme João, Jesus ensina coisas semelhantes a partir de temas muito diferentes. Exemplo: em 15,1-8, Jesus explica longamente que, para viver, devemos permanecer nele e ele em nós. Ele é a vinha, nós os ramos; a seiva que vem dele (pensemos no sangue) deve nos alimentar. Esta interioridade recíproca (eu em vocês, vocês em mim) tem alguma coisa a ver com o ato de comer a carne e beber o sangue. Só pode ser compreendida se aceitamos o primeiro discurso que nos diz que o Cristo vem de Deus, é a presença de Deus. No entanto, isto não é suficiente: é preciso admitir ainda o dom da carne e do sangue. Olhemos de perto a resposta de Pedro, quando Jesus pergunta aos Doze se também eles querem abandoná-lo. «A quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna!» Pedro compreende que não há salvação possível se permanecemos fechados em nós mesmos: é preciso ir ao outro, ir até ao Outro. Ele fica então com Jesus. Pois bem, Pedro entendera somente o primeiro discurso, não o segundo. Da mesma forma que, em Cesareia de Filipe (Mateus 16,13-23), havia reconhecido a origem do Cristo, mas permanecera fechado ao futuro pascal. Não faz, ao menos, alusão nenhuma a isto. Na realidade, a recusa ou o esquecimento deste segundo discurso revela que ele não compreendeu nem admitiu totalmente o primeiro. Vai ser preciso esperar João 21 para que Pedro se dê ao Cristo sem nenhuma reserva. Neste tempo de espera, Jesus havia escolhido Pedro, mas Pedro não havia ainda, verdadeiramente, escolhido Jesus. Aí estamos todos nós.
Sítio Croire 21-08-2015.
22/08/2015  |  domtotal.com
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Eu sou o Pão da Vida

Por Cardeal Orani João Tempesta*
A Liturgia da Palavra do XIX Domingo do Tempo Comum esteve centralizada na leitura do evangelho da multiplicação dos pães. Estamos lendo aos domingos o capítulo 6º do Evangelho de João. Jesus reclama porque os judeus não quiseram compreender o sinal da multiplicação. Claramente, Ele afirma: “Eu sou o pão que desceu do céu! Quem dele comer, nunca morrerá”!
Eis aqui a grande revelação do Senhor! Os interlocutores de Jesus só conseguem ver a superfície, somente compreendem que Ele é o filho de José; não percebem, não creem que Ele vem do Pai, como alimento de nossa existência: Ele é o sustento, o alimento da nossa vida. Afinal, que é viver? Será simplesmente existir, respirar, sobreviver de qualquer modo, sem rumo, sem sentido, sem uma finalidade para a existência? Que vida seria essa? Pois bem, Jesus afirma que Ele dá o sustento verdadeiro à nossa vida; com Ele, a vida tem sentido, tem rumo, tem razão de ser; com Ele, descobriremos porque vivemos, descobrimos de onde vimos e para onde vamos, descobrimos que somos amados! Eu sou o pão da vossa vida! Precisais mais de mim que vosso corpo do pão de cada dia. Quem come desse pão que sou Eu, isto é, quem se alimenta de meu amor, de minhas palavras, de meu caminho, nunca viverá uma vida de mentira, de ilusão, de morte; antes, viverá de verdade.
Basta pensarmos na situação de Elias, na primeira leitura de hoje. Ele tinha vencido os profetas de Baal no monte Carmelo. Jezabel, a rainha idólatra, tinha prometido vingança e queria matá-lo. O profeta sentiu medo e fugiu, procurando esconder-se no deserto para encontrar inspiração e consolo no monte Sinai, o Monte de Deus. E lá vai Elias... Mas o caminho longo, os dias quentes do deserto, a solidão, a tensão da fuga, tudo isso traz desânimo e depressão ao profeta.
A vida lhe parece dura, amarga, sem sentido. Cansado, ele se rende e pede a morte: "Agora basta, Senhor! Tira a minha vida, pois não sou melhor que meus pais... Sou igual a todo mundo, não sou a palmatória do mundo... Cansei! Quero morrer"! Quantas vezes somos como Elias, quantas vezes a existência nos pesa, o sentido da vida parece nos esconder; quantas vezes parece que apenas sobrevivemos, mas não temos ideia para onde vai o caminho... O desengano do profeta é tão profundo que ele, deprimido, cai no sono. E o Senhor envia-lhe um anjo: “Levanta-te e come’! E ele viu junto à sua cabeça água e um pão assado... 'Ainda tens um longo caminho a percorrer'. Elias levantou-se, comeu e bebeu e, com a força desse alimento, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus”.
Caríssimos, também nós estamos a caminho, também nós precisamos de um pão como o de Elias. Em tempos de tantos falsos profetas, ao nos cansarmos, como Elias, temos o alimento que nos dá vigor no deserto da vida.
Esse pão o Senhor nos dá, esse pão é o próprio Cristo, que hoje nos diz: "Eu sou o pão da vossa vida"! Infelizmente para nós, caríssimos, nos iludimos, procurando saciar nossa fome de vida com coisas que não alimentam o coração. É aquela antiga queixa de Deus, pela boca do profeta Isaías: "Ah! Todos que tendes sede, vinde à água. Vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; comprai sem dinheiro e sem pagar, vinho e leite. Por que gastais dinheiro com aquilo que não é pão, e o produto do vosso trabalho com aquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me com toda atenção e comei o que é bom. Escutai e vinde a mim, ouvi-me e havereis de viver"! (Is 55,1-3).
O Senhor revela: "O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo"! É surpreendente, é inesperado! Aqui, o Senhor está falando claramente da Eucaristia: Eu sou o pão da vossa vida, eu vos alimento de vida e de sentido de viver; e eu fico entre vós, fico convosco, alimento-vos de um modo que não esperáveis; minha união convosco é total, absoluta: eu vos dou verdadeiramente minha carne, meu corpo morto e ressuscitado, como vida da vossa vida! Meus irmãos, não pode haver maior dom, maior intimidade, mais revigorante alimento! São muitos os que murmuravam no passado e muitos também hoje, mas Cristo, nosso Deus, que tem palavras de vida eterna e para quem nada é impossível, nos garante: "O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo"!
A Eucaristia, comunhão no santíssimo Corpo do Senhor, não somente é alimento para o nosso caminho, não somente o sustento da nossa vida, não somente é penhor de vida eterna, como também nos dá a graça que nos faz ser um só corpo em Cristo. Eis, que mistério tão profundo: comungando do Corpo do Senhor na Eucaristia, nós nos tornamos cada vez mais unidos no corpo do Senhor, que é a Igreja! Comunguemos, pois, e teremos força para viver o belo caminho que a segunda leitura deste domingo hoje nos aponta: "Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor". Eis aqui: a nossa participação no sacrifício eucarístico de Cristo, a nossa comunhão no seu corpo sacrificado e entregue amorosamente devem nos levar a um novo modo de viver, um modo que consiste na docilidade ao Espírito do Senhor morto e ressuscitado, que significa comunhão com Deus e com os irmãos.
Quem se alimenta desse Pão não contrista o Espírito Santo e é bom um para com o outro, imitando o Senhor, vivendo no amor e perdoando: "Sede bons uns para com os outros, sede compassivos; perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo"!
CNBB 07-08-2015.
*Cardeal Orani João Tempesta é arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ).
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Levar ao mundo a misericórdia de Deus - Festa do Perdão de Assis 2 de agosto

Assis, Itália, 31 jul (RV) - Teve início, nesta quinta-feira, o Tríduo de preparação para a solenidade do Perdão de Assis. Nestes dias, milhares de fiéis irão à Porciúncula para alcançar a Indulgência Plenária. A propósito, o colega Alberto Goroni ouviu o ministro geral da Ordem dos Frades Menores, Frei Michael Perry, que nos falou sobre a história do “Perdão” almejado por São Francisco:
Frei Michael Perry:- “Em primeiro lugar, devemos considerar o contexto em que São Francisco pediu esta graça. O contexto era de um mundo em guerra, em conflito, em que os ricos buscavam manter o poder; além disso, havia a guerra entre a França e a Alemanha, havia as Cruzadas na Terra Santa entre os cristãos e os muçulmanos; mas havia também conflitos no seio das famílias e também conflitos dentro da Igreja. Esse é o contexto que se deve ter em mente para entender melhor o significado desta Festa do Perdão de Assis. Vejamos a experiência de Francisco: numa noite de 1216 Francisco encontrava-se imerso na oração na Porciúncula, como sempre fazia; viu uma luz, uma luz muito forte. Francisco viu Cristo no do altar e à sua direita Nossa Senhora e os anjos, que lhe perguntaram o que desejava para a salvação das almas. A resposta imediata foi: “Embora eu seja mísero e pecador, peço-lhe que conceda amplo e generoso perdão”. Francisco pediu e recebeu do Papa Honório III, em 2 de agosto de 1216, essa graça de celebrar a Festa do Perdão na Basílica de Santa Maria dos Anjos. Em todas as paróquias franciscanas, em quaisquer lugar no mundo, é concedida a indulgência a quem se confessa, recebe a comunhão e reza pelo Papa. Creio que essa festa expresse o desejo de receber a graça da libertação interior e da libertação a nível relacional, a fim de que não sendo mais escravos do nosso passado e dos nossos limites humanos, possamos entrar no Reino dos filhos e das filhas de Deus. Creio que seja tornar-se, de certo modo, uma bênção e portadores da misericórdia espiritual e material rumo a toda a humanidade e também rumo a toda a Criação. A meu ver, esse é o significado desta Festa do Perdão de Assis.”
RV: Nestes dias da solenidade milhares de pessoas acorrem à Porciúncula para confessar-se. Hoje, como viver a confissão de modo maduro?
Frei Michael Perry:- “Em primeiro lugar, gostaria de dizer que há várias dimensões desta Confissão. Por primeiro, esse percurso começa a nível pessoal, portanto, a dimensão pessoal. Vemos que as pessoas buscam sempre a misericórdia de Deus na própria vida e, de certo modo, fazem uma confissão pessoal no coração, na profundidade de seu coração e da sua experiência humana. Esse é o primeiro passo rumo a uma vida reconciliada. Depois, há uma dimensão eclesial. A Igreja oferece sempre a possibilidade aos cristãos de se confessarem no Sacramento da Reconciliação. Portanto, a Igreja reconhece a dimensão social e sacramental do ato, ou melhor, do movimento interior da pessoa que quer aproximar-se novamente de Deus e que quer também receber essa graça do Sacramento da Reconciliação. Além disso, a Igreja serve como instrumento dessa graça através da Confissão. Em todas as partes do mundo os franciscanos verificam um aumento numérico de católicos que querem receber essa graça do Sacramento. De fato, estive dias atrás em Chicago e, antes disso, na Ásia, e senti que agora há mais cristãos em relação aos últimos 5, 10 anos, que estão retomando essa prática de ir confessar-se pedindo a bênção, o perdão e a possibilidade de retomar a própria vida. Porém, para isso é preciso também uma conversão madura. A Igreja deve formar os cristãos a superar a prática tradicional de confessar ou apresentar um elenco superficial de fatos, e buscar identificar as raízes de seus pecados, da experiência de viver como escravos. Ademais, creio que seria importante apresentar o Sacramento como uma verdadeira experiência de libertação, de conversão, de reconciliação, de alegria. E, por fim, ajudar os cristãos a fazerem aquilo que o Papa Francisco nos disse em sua convocação do Jubileu da Misericórdia, ou seja, confessar-se e depois agir e produzir os frutos da caridade e da justiça no mundo de hoje.”
RV: O Papa Francisco disse que este é o tempo da misericórdia. O que isso significa para a Igreja?
Frei Michael Perry:- “Todo o tempo da história da nossa vida é o tempo da misericórdia. Então, estamos realmente contentes que o Papa Francisco tenha convocado este Ano da Misericórdia. Parece-me, porém, segundo o que ele disse em diferentes lugares, que este tempo da misericórdia não é somente limitado a este ano de graça, a este Ano do Jubileu: o sentido deste tempo é tornar-se uma pessoa que viva da misericórdia de Deus e que partilhe essa misericórdia com todas as pessoas com as quais vivemos, que encontramos, e estender isso ao mundo. Tornar-se missionários da misericórdia e aprofundar essa experiência do perdão em nossa vida, sentir-se amados, acolhidos, abraçados por Deus, assim como o Filho pródigo. E, ademais, podemos tornar-nos sinal concreto para o mundo de hoje que está buscando essa reconciliação e essa misericórdia. De certo modo, esse me parece ser o sentido deste tempo da misericórdia.”
SIR 31/07/2015  |  domtotal.com
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