1 2 3 4
Mostrando postagens com marcador Quaresma. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Quaresma. Mostrar todas as postagens

Misericórdia e amor

Quando a misericórdia invade nosso coração, podemos perceber a presença e o amor de Deus.
Por Dom José Gislon*
Estimados Diocesanos! O tempo da Quaresma nos convida a refletirmos sobre a nossa vida de comunhão com o Senhor. Recordamos do amor de Deus Pai, manifestado por cada um de nós, na paixão de seu Filho Jesus. Mas esse amor tem algo de diferente, não se extingue no tempo e na história, não cai no vazio e na indiferença, não faz promessas que caem no esquecimento. Esse amor que está ao alcance do coração humano é divino, pois através dele podemos perceber a presença de Deus agindo no mundo, nos reconciliando com a sua misericórdia.
Quando deixamos a misericórdia invadir o nosso coração, podemos perceber a presença e o amor de Deus na nossa vida. É o momento em que a graça de Deus nos ajuda a olhar o caminho percorrido e nos faz perceber que talvez tenhamos vivido longe do Criador e da sua casa. Podemos ter perdido o sentido da vida, a dignidade de ser humano e, às vezes, até a coragem de recomeçar, porque não sabemos mais quem somos.
Lembro que foi na mais profunda desolação, depois de ter dissipado toda a herança que recebera, que o filho pródigo recordou-se do Pai, do aconchego da sua casa. Porém, precisou primeiro olhar para dentro de si mesmo, tomar consciência da sua situação de abandono, para depois criar coragem e iniciar o caminho que o conduziria novamente à casa do Pai. Ao ver de longe o filho chegando o Pai vai ao seu encontro, o acolhe na sua misericórdia com um abraço de ternura, alegre pelo seu retorno. Não pediu quanto restava da herança ou no que tinha sido gasta. O Pai estava feliz porque o filho tinha voltado. Ao retornar para a casa do Pai, o filho pródigo recuperou sua dignidade, percebeu que o Pai sempre estivera à sua espera, amando-o como filho.
Santo Ambrósio, num de seus escritos, lembra que “não são os laços de sangue que nos tornam próximos uns dos outros, mas a misericórdia”. Dos laços de misericórdia, que unem os homens em vínculos novos, nascem as obras de misericórdia, aquelas obras que produzem a justiça. Um homem rico de misericórdia, quando não tem nada para doar a um pobre, lhe doa o seu amor, tornando-se próximo daquele que vive na miséria. Deus Pai nos ama como filhos e filhas e nos espera na sua casa com o abraço da misericórdia.
CNBB 24-02-2016.
*Dom José Gislon: Bispo de Erexim.
Ler Mais

Quaresma: convite a mudar o coração


"Deus não manda desgraças para nos castigar; Ele nos convida a mudar o coração".
Quaresma, tempo especial da revelação da bondade e da ternura misericordiosa de um Deus paciente, que, de acordo com o Livro Sagrado na parábola da figueira estéril, acolhe a proposta do agricultor, ao oferecer-lhe mais um pouco de tempo, dizendo-nos que tem paciência para conosco, mas que está ao nosso lado, querendo ver a nossa utilidade e os bons frutos (cf. Lc 13, 6-9).
O Papa Francisco, na Praça de São Pedro, no horário do meio-dia (28/02/2016), diante de milhares de fiéis, asseverou: "Deus não manda desgraças para nos castigar; Ele nos convida a mudar o coração, a dar uma guinada no caminho de nossas vidas, a deixar de lado os compromissos com o mal e as hipocrisias e a percorrer com decisão o caminho do Evangelho. Nunca é tarde demais para se converter. É urgente, é hora!". Deus nos dê a graça de mais e melhor compreendermos o insondável mistério do qual somos chamados a participar, inspirados no Sumo Pontífice, sem jamais nos esquecermos de nos colocar solidários ao pé da Cruz, identificados com Maria, mãe solícita e generosa servidora.
Nossa tarefa é a de perceber o quanto é urgente a conversão do coração, dentro do contexto dos três anos da eleição do Papa Francisco; como ele tem sido exaustivo nos exemplos e atitudes, indicando que nós cristãos – discípulos do Senhor – somos convidados a assumir também uma postura de humildade, no serviço e no despojamento, colocando-nos ao lado do povo aflito, frágil e sofredor: os pobres, os doentes, os fracos, os presos. Também os que sobram e são excluídos e mesmo nem visto são, em uma sociedade hedonista e consumista que se diz cristã. A humanidade precisa ter clareza e colocar bem diante dos olhos e no coração a lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Nova Lei: "Que vos ameis uns aos outros como eu vos amei" (cf. Jo 13, 34).
Contamos com a enorme empreitada, dentro da proposta salvífica do Filho de Deus, na clareza da doação generosa, a partir do mistério da cruz do Filho de Deus. Ela é imprescindível e decisiva para a realização da humanidade, mesmo consciente da resistência de não aceitação e mesmo não se admitir a cruz como redentora e libertadora. Que o grande sonho de Deus Pai, a nós ofertado no Evangelho de Jesus, seja aquele de sempre mais termos diante dos olhos, na mente e no coração, a possibilidade de realização da criatura humana, já aqui neste mundo e no mundo futuro, a esperança de vermos novas todas as coisas. Assim seja!
*Pároco de Santo Afonso e vice-presidente da Previdência Sacerdotal, integra a Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza - geovanesaraiva@gmail.com
03/03/2016  |  domtotal.com

Ler Mais

O carinho de Deus em nossas feridas

O que cancela nossos pecados é o perdão de Deus e Sua misericórdia é o modo como nos perdoa.
Por Clarissa de Oliveira
Muitas vezes nos encontramos em nossos sepulcros interiores, em nossa pobreza e sujeitos a amargura. Existe em nós um apego às fraquezas, a um modo de vida habituado e fechado no pecado. É tempo de sair deste espaço, de deslocar-se e avançar, começando uma nova vida.

Apenas Cristo pode nos ajudar a sair do sepulcro de uma vida no pecado, de áreas mortas existentes em nossos corações. Como fez com Lázaro. Ele, do lado de fora do sepulcro, gritava: “Lázaro, vem para fora” (Jo 11,43). Lázaro, do lado de dentro, envolvido em panos, com mãos e pés amarrados. Quanto esforço para sair daquele buraco, buscar a luz, ir ao encontro de Jesus. Assim vivemos também em nossas lutas, deixando de lado aquilo que “já cheira mal” (Jo 11, 39), que nos leva a morte. Jesus, porém, continua a nos convidar: “vem para fora”.

A atitude é de sair da necrose espiritual, “e quando eu abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair delas, sabereis que eu sou o Senhor” (Ez 37, 13). Conhecer Aquele que realmente nos quer felizes, novos e libertos. Ninguém nos condena, Ele não nos condena. Ao contrário, está conosco sem nos criticar, ou acusar, nos espera com sua misericórdia infinita.
O que cancela nossos pecados é o perdão de Deus e Sua misericórdia é o modo como nos perdoa. Ele ultrapassa qualquer lei, qualquer impasse ou bloqueio humano. Ele nos traz a paz. ...

Que tenhamos a coragem de escutar a voz daquele que nos diz “vem para fora”, como fez Jesus com Lázaro, de nos deixarmos envolver pela misericórdia daquele olhar que não condena, como fez com a mulher adúltera, pois “a misericórdia divina é uma grande luz de amor e ternura, é o carinho de Deus nas feridas dos nossos pecados”, disse o Papa Francisco. Deixemos de lado os sepulcros, deixemo-nos encontrar com Jesus Cristo, Aquele que nos liberta e nos leva para a luz. “O melhor lugar para nos encontrarmos com o Senhor é a nossa própria fraqueza. Encontramos bem Jesus nos nossos pecados, nas nossas culpas, nos nossos erros”, afirma o papa.
Agência Aleteia
19/04/2014  |  domtotal.com
Ler Mais

MEDITAÇÃO: Ó admirável poder da cruz! Ó inefável glória da Paixão!

Dos Sermões de São Leão Magno, papa
(Sermo 8, De passione Domini, 6-8: PL 54,340-342)
(Séc.V)

A cruz de Cristo é fonte de todas as bênçãos
e origem de todas as graças
Que a nossa inteligência, iluminada pelo Espírito da Verdade, acolha com o coração puro e liberto, a glória da cruz que se irradia pelo céu e a terra; e perscrute, com o olhar interior, o sentido destas palavras do Senhor, ao falar da iminência de sua paixão:Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado (Jo 12,23). E em seguida:Agora sinto-me angustiado. E que direi? “Pai, livra-me desta hora!”? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu Filho! (Jo 12,27). E tendo vindo do céu a voz do Pai que dizia: Eu o glorifiquei e o glorificarei de novo! (Jo 12,28), Jesus continuou, dirigindo-se aos presentes: Esta voz que ouvistes não foi por causa de mim, mas por causa de vós. É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe deste mundo vai ser expulso, e eu, quando for elevado da terra, atrairei tudo a mim (Jo 12,30-32).
Ó admirável poder da cruz! Ó inefável glória da Paixão! Nela se encontra o tribunal do Senhor, o julgamento do mundo, o poder do Crucificado!
Atraístes tudo a vós, Senhor, para que o culto divino fosse celebrado, não mais em sombra e figura, mas num sacramento perfeito e solene, não mais no templo da Judéia, mas em toda parte e por todos os povos da terra.
Agora, com efeito, é mais ilustre a ordem dos levitas, maior a dignidade dos sacerdotes e mais santa a unção dos pontífices. Porque vossa cruz é fonte de todas as bênçãos e origem de todas as graças. Por ela, os que creem recebem na sua fraqueza a força, na humilhação, a glória, na morte, a vida. Agora, abolida a multiplicidade dos sacrifícios antigos, toda a variedade das vítimas carnais é consumada na oferenda única do vosso corpo e do vosso sangue, porque sois o verdadeiro Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo (Jo 1,29). E assim realizais em vós todos os mistérios, para que todos os povos formem um só reino, assim como todas as vítimas são substituídas por um só sacrifício.
Proclamemos, portanto, amados filhos, o que o santo doutor das nações, o apóstolo Paulo, proclamou solenemente: Segura e digna de ser acolhida por todos é esta palavra: Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores (1Tm1,15).
E é ainda mais admirável a misericórdia de Deus para conosco porque Cristo não morreu pelos justos, nem pelos santos, mas pelos pecadores e pelos ímpios. E como a natureza divina não estava sujeita ao suplício da morte, ele assumiu, nascendo de nós, o que poderia oferecer por nós.
Outrora ele ameaçava nossa morte com o poder de sua morte, dizendo pelo profeta Oséias: Ó morte, eu serei a tua morte; inferno, eu serei a tua ruína (cf. Os 13,14). Na verdade, morrendo, ele se submeteu às leis do túmulo, mas destruiu-as, ressuscitando. Rompeu a perpetuidade da morte, transformando-a de eterna em temporal. Pois, como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão (1Cor 15,2).

Responsório                 Cl 2,14-15; Jo 8,28a

R. Jesus Cristo destruiu o título de dívida
que havia contra nós,
cujas leis nos condenavam, pregando-o na cruz.
* Despojou os principados e também as potestades
e os expôs como espetáculo em seu cortejo triunfal.
V. Quando tiverdes levantado,
numa cruz, o Filho do Homem,
sabereis que “Eu sou”. *Despojou.
Oração
Concedei-nos, ó Deus, perseverar no vosso serviço para que, em nossos dias, cresça em número e santidade o povo que vos serve. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
Conclusão da Hora
V. Bendigamos ao Senhor.
R. Graças a Deus.
Ler Mais

O Batismo: Vida Nova

Roteiro Homilético
A proposta de reflexão da liturgia dominical é de autoria do jesuíta Johan Konings SJ, preparada pelo Pe. Jaldemir Vitório SJ, Reitor e Professor da FAJE.
Confira a íntegra do Roteiro Homilético.

Que é “vida nova”? Para os materialistas, o sucesso depois do aperto. Para os espíritas, reencarnação... Nos dois casos, é apenas uma reedição melhorada daquilo que já se viveu... Jesus traz uma vida verdadeiramente nova, de outra ordem.
A liturgia nos convida a voltar às nossas origens como povo de Deus, lá no antigo Israel. Israel estava no exílio, na Babilônia: um povo morto. Então, Ezequiel viu os ossos mortos recobrarem a vida pelo “espírito” (o sopro) de Deus. E Deus explica: seu espírito fará reviver o povo de Israel, que vai voltar para a sua terra (1ª leitura).
No Novo Testamento, Paulo diz que vivemos uma vida nova, pelo espírito de Cristo que habita em nós, o Espírito que fez Cristo ressuscitar (2ª leitura). O batizado já não vive somente a vida natural, mas, pela fé, está ligado ao “corpo de Cristo” (a comunidade eclesial) e recebe o Espírito-Sopro de Cristo, que transforma sua vida. Quem foi batizado criança, talvez nem chegue a pensar nisso. Mas então está na hora de assumir isso como adulto. Para isso servem a Crisma e a renovação do compromisso da fé na noite pascal.
No evangelho de hoje, Jesus diz: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25). Em sinal disso, faz voltar Lázaro à vida. Sinal da vida nova que Jesus comunica e que ele é, em pessoa! Como discípulo e amigo de Jesus, Lázaro já tinha recebido, em sua vida mortal, a vida espiritual e eterna da união com Cristo e o Pai. Por isso, morrendo, ele não morre, mas vive, definitivamente... Para significar isso, Jesus o chama corporalmente do sepulcro. Isso não teria sido necessário, porque pela fé Lázaro já estava vivendo a vida eterna. Mas Jesus quis dar um sinal dessa vida eterna que a fé produz em todos aqueles que forem, como Lázaro, fiéis à palavra de vida que Jesus manifesta em sua pessoa e em todo o seu agir.
Podemos dizer que o batismo dá esta vida nova? Sim, porque ele nos dá como princípio vital a fé e a adesão a Cristo e à sua vida. O batizado vive uma vida realmente nova, animada pelo espírito de Cristo. Mas sem a fé, traduzida em obras, o batismo fica morto. A vida da fé batismal se verifica, por exemplo, quando ela transforma uma sociedade de morte (fome, opressão, exclusão) numa comunidade de vida, fraternidade, comunhão.
03/04/2014  |  domtotal.com
Ler Mais

Envergonhar-se e alargar o coração

Por Dom Anuar Battisti*
O perdão se torna cada vez mais uma experiência para místicos e santos do presente e do passado. Como é difícil perdoar, e como faz bem sentir-se perdoado.

O papa Francisco, nesta semana, recordou que para pecar não temos vergonha, mas temos vergonha de confessar o nosso pecado. "É verdade que nenhum de nós matou ninguém, mas tantas pequenas coisas, tantos pecados cotidianos, de todos os dias... E quando pensamos: ´Mas que coisa, que coração pequenino: eu fiz isto ao Senhor!’ E envergonhar-se! Envergonhar-se perante Deus e esta vergonha é uma graça: é a graça de ser pecador. ‘Eu sou pecador e envergonho-me perante Deus e peço perdão.’ É simples, mas é tão difícil dizer: Eu pequei".

Quando queremos agredir alguém, chamando-no de sem vergonha, safado, etc… Deus nunca agiu assim diante dos nossos pecados. Diante de Deus todos nós deveríamos sentir vergonha sim, de nossas malandragens e tirar as máscaras da nossa consciência e voltar ao amor misericordioso do Pai Deus numa vida nova, transparente, iluminada.

Deus ama o pecador, mas odeia o pecado. Pecador sim, corrupto não. A corrupção não deixa ver o pecado. Tudo é lícito e justificável.

Quarta feira, na audiência pública, o papa Francisco dizia: “A Quaresma é um tempo para "arrumar a vida" nos aproximando de nosso Senhor. Ele "nos quer perto de si" e nos garante que "nos espera para nos perdoar", mas quer "uma aproximação sincera" e nos avisa do perigo da hipocrisia: "O que os hipócritas fazem? Eles se maquiam de bonzinhos: fazem cara de propaganda, rezam olhando para o céu, se mostram, se consideram mais justos do que os outros, desprezam os outros. ‘Mas eu sou muito católico’, dizem eles, ‘porque o meu tio foi um grande benfeitor, a minha família é esta e eu sou... eu aprendi... eu conheci tal bispo, tal cardeal, tal padre. Eles se consideram melhores do que os outros. Esta é a hipocrisia. Nosso Senhor nos diz: ´Não, isso não´. Ninguém é justo por si mesmo. Todos nós temos a necessidade de ser justificados. E o único que nos justifica é Jesus Cristo.”

Na sua mensagem o papa reafirmava: “Temos que nos aproximar do Senhor ‘para não ser cristãos disfarçados, que, por trás das aparências, na realidade, não são cristãos’. Como, então, não ser hipócritas e aproximar-se de Deus? A resposta vem do próprio Deus na primeira leitura: ‘Lavai-vos, purificai-vos, afastai dos meus olhos o mal das vossas ações, deixai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem’”. Este é o convite.

Mas Francisco pergunta: "Qual é o sinal de que estamos no bom caminho?" Envergonhar-se e alargar o coração. Que o Senhor nos dê esta graça. ‘Socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva’. Ocupar-se do próximo: do doente, do pobre, de quem tem necessidade, do ignorante. Os hipócritas não sabem fazer isto, não podem, porque são tão cheios de si que estão cegos para olhar para os outros. Quando caminhamos um pouco e nos aproximamos de nosso Senhor, a luz do Senhor nos faz ver essas coisas e a ajudar os nossos irmãos. Esse é o sinal, este é o sinal da conversão.”

Desejo a você e a sua família uma abençoada semana.
CNBB, 25-03-2014.
*Dom Anuar Battisti é arcebispo de Maringá (PR).
Ler Mais

MEDITAÇÃO: figura da Igreja, ainda não justificada, mas já a caminho da justificação

Dos Tratados sobre o Evangelho de São João, de Santo Agostinho, bispo 
(Tract.15,10-12.16-17:CCL 36,154-156)            (Séc.V)

Veio uma mulher da Samaria para tirar água
Veio uma mulher. Esta mulher é figura da Igreja, ainda não justificada, mas já a caminho da justificação. É disso que iremos tratar.
A mulher veio sem saber o que ali a esperava; encontrou Jesus, e Jesus dirigiu-lhe a palavra. Vejamos o fato e a razão por que veio uma mulher da Samaria para tirar água (Jo 4,7). Os samaritanos não pertenciam ao povo judeu; não eram do povo escolhido. Faz parte do simbolismo da narração que esta mulher, figura da Igreja, tenha vindo de um povo estrangeiro; porque a Igreja viria dos pagãos, dos que não pertenciam à raça judaica.
Ouçamos, portanto, a nós mesmos nas palavras desta mulher, reconheçamo-nos nela e nela demos graças a Deus por nós. Ela era uma figura, não a realidade; começou por ser figura, e tornou-se realidade. Pois acreditou naquele que queria torná-la uma figura de nós mesmos. Veio para tirar água. Viera simplesmente para tirar água, como costumam fazer os homens e as mulheres.
Jesus lhe disse: “Dá-me de beber”. Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. A mulher samaritana disse então a Jesus: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?” De fato os judeus não se dão com os samaritanos (Jo 4,7-9.)
Estais vendo que são estrangeiros. Os judeus de modo algum se serviam dos cântaros dos samaritanos. Como a mulher trazia consigo um cântaro para tirar água, admirou-se que um judeu lhe pedisse de beber, pois os judeus não costumavam fazer isso. Mas aquele que pedia de beber tinha sede da fé daquela mulher.
Escuta agora quem pede de beber. Respondeu-lhe Jesus? “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva (Jo 4,10).
Pede de beber e promete dar de beber. Apresenta-se como necessitado que espera receber, mas possui em abundância para saciar os outros. Se tu conhecesses o dom de Deus, diz ele. O dom de Deus é o Espírito Santo. Jesus fala ainda veladamente à mulher, mas pouco a pouco entra em seu coração, e vai lhe ensinando. Que haverá de mais suave e bondoso que esta exortação? Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’,tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva.
Que água lhe daria ele, senão aquela da qual está escrito: Em vós está a fonte da vida? (Sl 35,10). Pois como podem ter sede os que vêm saciar-se na abundância de vossa morada? (Sl 35,9).
O Senhor prometia à mulher um alimento forte, prometia saciá-la com o Espírito Santo. Mas ela ainda não compreendia. E, na sua incompreensão, que respondeu? Disse-lhe então a mulher: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la” (Jo 4,15). A necessidade a obrigava a trabalhar, mas sua fraqueza recusava o trabalho. Se ao menos ela tivesse ouvido aquelas palavras: Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos e eu vos darei descanso! (Mt 11,28). Jesus dizia-lhe tudo aquilo para que não se cansasse mais; ela, porém, ainda não compreendia.

Responsório             Cf. Jo 7,37-39; 4,14

R. Estando em pé, Jesus clamava em alta voz:
Quem tem sede venha a mim, venha beber;
e torrentes de água viva jorrarão
do mais íntimo de quem tem fé em mim.
* Jesus dizia isto do Espírito
que devia receber quem nele cresse.
V. Quem beber daquela água que eu lhe der,
nunca mais sentirá sede, diz Jesus. * Jesus dizia.

Oração  
Ó Deus, fonte de toda misericórdia e de toda bondade, vós nos indicastes o jejum, a esmola e a oração como remédio contra o pecado. Acolhei esta confissão da nossa fraqueza para que, humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela vossa misericórdia. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
Conclusão da Hora

V. Bendigamos ao Senhor.
R. Graças a Deus.

Ler Mais
Cidade do Vaticano, 22 mar (SIR) – Frei Raniero Cantalamessa, pregador oficial da Casa Pontifícia, fez, na manhã desta sexta-feira (21), na Capela “Redemptoris Mater”, no Vaticano, sua segunda pregação de quaresma ao Papa e aos seus colaboradores da Cúria Romana. O Capuchinho baseou toda a sua reflexão sobre a figura de Santo Agostinho, Bispo de Hipona, para explicar a natureza da Igreja, composta de pessoas, reunidas na caridade, que é o próprio Espírito Santo. É ele que a une e a anima. Segundo Santo Agostinho, quando nos referimos à Igreja é preciso fazer uma distinção: a Igreja, presente ou terrena, é formada de bons e maus, santos e pecadores; a Igreja, futura ou celeste, é formada de todos e de santos.

E Cantalamessa explicou: “A plena pertença à Igreja exige duas coisas: a comunhão visível dos sinais sacramentais e a comunhão invisível da graça. A teologia agostiniana pode nos ajudar a superar os acontecimentos seculares, como as discórdias e as divisões... hoje, devemos passar da comunhão espiritual da caridade rumo à plena comunhão, mediante os Sacramentos e, sobretudo, a Eucaristia”.

Frei Cantalamessa exorta a não dar maior importância à comunhão institucional, mas àquela espiritual. E se pergunta: “Como católicos, podemos nos sentir em comunhão com aqueles batizados, que não se importam de Cristo e da sua Igreja e dela falam mal? Ou devemos estar mais em comunhão com aquela multidão que, mesmo pertencendo a outras confissões religiosas, acreditam nas verdades fundamentais, amam a Jesus, difundem o Evangelho e demonstram os sinais interiores do Espírito Santo?”

E o Capuchinho esclareceu: “Os passos mais concretos para a unidade não são aqueles que se fazem em torno a uma mesa ou em declarações conjuntas, embora sejam muito úteis e indispensáveis; são aqueles, quando os fiéis de diversas confissões, fazem ao proclamar juntos, de comum e fraterno acordo, a pessoa de Jesus Cristo, compartilhando dos próprios carismas, reconhecendo-se como irmãos, na plena lealdade e obediência às diretrizes da Igreja”.

O pregador da Casa Pontifícia concluiu sua longa meditação de sexta-feira de quaresma, perguntando: “Qual o ensinamento final que podemos colher sobre a natureza da Igreja?” E responde: é aquele que Santo Agostinho utiliza quando fala, em seus tantos discursos sobre a própria Igreja: “Se vocês quiserem realmente viver no Espírito Santo, mantenham a caridade, amem a verdade e atingirão a eternidade!”.
SIR
Ler Mais

A pobreza do outro e os novos tempos da Igreja

‘Se tenho fome, o problema é biológico. Se meu irmão tem fome, o problema é teológico’.
Por Maria Clara Bingemer*
A Igreja respira encantada com o papa Francisco e o movimento que inaugurou e mantém de volta ao Concílio Vaticano II e sua renovação. Seu pontificado vem marcado por essa retomada do espírito de liberdade e abertura daquele inesquecível evento eclesial que aconteceu há 50 anos.

Na América Latina, a recepção deste Concílio se deu em uma direção bem marcada de fidelidade ao contexto do continente, feito de pobreza, injustiça e opressão. Toda a Igreja do continente releu o grande evento do Vaticano II com uma atenção qualificada àquelas grandes maiorias que se encontravam mais necessitadas, mais fragilizadas e mais empobrecidas. A chamada opção preferencial pelos pobres foi o nome cunhado para "batizar" essa escolha evangélica feita pela comunidade eclesial naquele momento histórico.

Após um tempo longo que já foi chamado por grandes teólogos e pessoas da Igreja de "inverno eclesial", onde parecia que – entre outras a primordialidade dos pobres havia ficado na sombra, eis que foi lançado recentemente em Roma o livro do prefeito para a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Müller: Ao lado dos pobres. Trata-se da mais alta autoridade em termos de doutrina da Igreja Católica e, portanto, guardião da indiscutível legitimidade do conteúdo do livro.

Mas há mais: Müller não escreveu o livro sozinho. Acompanhou-o outro teólogo: o pai da Teologia da Libertação, o sacerdote peruano da Ordem dos Pregadores, Gustavo Gutiérrez. No prefácio, Joseph Sayer, presidente da Obra Assistencial Misereor, identifica o teólogo peruano como uma pessoa apaixonada.  E como não haveria de sê-lo quem passou a vida servindo os pobres, vivendo junto a eles e lidando apaixonadamente com a pergunta: “Como se pode falar do amor de Deus perante a miséria dos pobres e a injustiça do mundo?"

Ou seja, o alerta lançado por Hans Jonas após a Segunda Grande Guerra e o Holocausto nazista — "Como falar de Deus depois de Auschwitz"? — ecoa novamente diante de outro genocídio: aquele cotidiano que mata continuamente milhares e mesmo milhões de pessoas em todo o planeta. Gustavo Gutiérrez  descobriu, vivendo perto dos pobres, que toda teologia deve fazer-se esta pergunta e deixar-se atingir por ela, para então construir seu discurso sobre Deus.  Pois, concordando com a frase de Berdiaev, se eu tenho fome, é um problema biológico. Se o meu irmão tem fome, é um problema teológico”.

E foi justamente a pobreza do outro a interpelar com pungente insistência a fé que levou Gutiérrez a criar a corrente chamada Teologia da Libertação, que posteriormente ganhou muitos adeptos não apenas na América Latina mas também no Hemisfério Norte e no mundo inteiro.  Essa teologia e seus protagonistas também conheceram dificuldades e conflitos devido à opção de fazer teologia ao lado dos pobres e a partir de suas interpelações.  Foram convocadas a testemunhar e provar sua pertença eclesial e sua ortodoxia.

A teologia de Gustavo Gutiérrez ofereceu essa prova em suas obras, nas quais o compromisso inarredável com os pobres se alia indissoluvelmente à mais profunda espiritualidade cristã e à mais profunda fidelidade à Igreja.  Ela ajudou a Igreja a redescobrir o compromisso com a justiça e o anúncio da boa-nova aos pobres como um de seus imperativos centrais.

O papa Francisco, em prólogo feito ao livro, agradece profundamente aos autores que chamam assim a atenção para este tema fulcral na Igreja: a pobreza do outro, que é critério de verificação da confissão de fé cristã.  Afirma sua esperança de que os leitores terão o coração tocado pela exigência de uma conversão a esses que, maltratados pela sociedade injusta, são os prediletos de Deus. E diz literalmente: ´´E bem saibam, amigos leitores, que nesta exigência e nesta via me encontram desde agora com vocês, como irmão e sincero companheiro de caminho´´.

O cardeal Müller, o teólogo Gutiérrez e o papa Francisco querem dizer que enquanto a pobreza empalidecer no rosto do outro o fulgor de sua imagem e semelhança com Deus, a Igreja não pode descansar.  O que importa nem é tanto tal ou qual corrente teológica.  Importa, sim, a realidade vital dos pobres.  Enquanto esta for uma interpelação dolorosa e cruel lançada à consciência da humanidade, as preocupações e a reflexão da Teologia da Libertação estarão mais do que vivas.
SIR/Jornal do Brasil
* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros, como "Deus amor: Graça que habita em nós" (Editora Paulinas) e "O mistério e o mundo – Paixão por Deus em tempo de descrença" (Editora Rocco).
Ler Mais

Batismo: "Água Viva"

Roteiro Homilético
A proposta de reflexão da liturgia dominical é de autoria do Pe. Johan Konings SJ, preparada pelo Pe. Jaldemir Vitório SJ, Reitor e Professor da FAJE.
Confira a íntegra do Roteiro Homilético.
A água é tão vital que sua escassez até poderá provocar uma terceira guerra mundial. Sem água não há vida. Quando os hebreus no deserto desafiaram Deus exigindo água, Deus lhes deu água física (1ª leitura). No evangelho, Jesus conscientiza a mulher samaritana de sua sede bem mais profunda, não por água material, mas por “espírito e verdade”. Esta sede é aliviada pelo dom de Jesus Cristo. Ele é a “água viva”, que acaba definitivamente com a sede e faz o mundo viver para Deus. Paulo, na 2ª leitura, evoca o simbolismo da água para falar do “amor de Deus, derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. O batismo é a efusão do Espírito sobre os fiéis.
Esse dom de Deus é gratuito. Os hebreus, no deserto, desconfiaram de Deus e acharam que deviam desafiá-lo. Mas o dom do Espírito, trazido por Cristo, que dá sua vida por nós, é pura graça. Nem sequer conseguimos pedi-lo como convém, porque ultrapassa o que pedimos. Por isso, devemos deixar Deus converter e educar o nosso desejo, para que nosso desejo material nos leve ao desejo da vida no Espírito.
Por outro lado, a consciência do dom espiritual (= divino) não leva a desprezar o desejo material justo daqueles que realmente estão necessitados. O desejo fundamental conforme a vontade de Deus orienta também a busca dos bens materiais necessárias e sua justa distribuição.
Precisamos de verdadeira “educação do desejo”. Nossa sociedade consumista não “cultiva” o desejo, mas exacerba-o e o torna desenfreado... Em vez disso, devemos aprofundar nosso desejo, para que ele reconheça a sua meta verdadeira: a “água viva”, Cristo, o dom de Deus na comunhão com os nossos irmãos... O desejo da água natural significa o desejo de viver. Aliviada a sede, o desejo continua. Qual é seu fim? O desejo não é pecado: é bom, é vital, mas deve ser orientado, através das criaturas, para seu verdadeiro fim, o Criador.
A Quaresma é, na tradição da Igreja, o tempo da preparação para o batismo. A água do batismo significa uma realidade invisível, aponta para a satisfação de nosso grande desejo: a vida que Cristo nos dá, o Espírito de Deus, derramado em nossos corações. A “educação” de nosso desejo pode ser a preparação da renovação do nosso compromisso batismal. E a melhor pedagogia para isso é: começar a não mais satisfazer qualquer desejo mesquinho e egoísta, mas concentrar nossa vida em torno do desejo profundo – material e espiritual – de nós mesmos e dos nossos irmãos.

Ler Mais

O encontro de Jesus com a samaritana

Por Dom José Alberto Moura*
O encontro de Jesus com a samaritana frente ao poço de Jacó traz-nos sobejo alimento para nossa preparação à celebração da Páscoa. Jesus pede a água material para saciar sua sede física. Ele prova ter natureza humana. Ao mesmo tempo ele promete à mulher a água viva que sacia a sede de infinito, trazida da fonte do amor de Deus. O conhecimento manifestado pelo Mestre sobre a história da vida da samaritana a faz vislumbrar-se e anunciar a todos a presença do Messias (Cf. João 4,5-42). Na vida desregrada dela podemos contemplar as dificuldades e os entraves da convivência humana nem sempre acertada com os ditames da proposta divina.

No poço humano de nossa caminhada encontramos a variedade de situações angustiantes. Não por menos, tratamos na Quaresma sobre o porquê da vida no seguimento a Jesus Cristo. No colóquio com Ele vamos percebendo a dimensão do humano entrecruzado com o divino. O desejo da água viva do Messias nos faz pessoas com vontade de crescimento. Precisamos da água e de tudo o que é material. Mas devemos saber usá-los na perspectiva da vida de sentido. Na realidade das injunções humanas e desumanas encontramos todo tipo de convivência, inclusive à do tráfico de pessoas. Aí acontece a exploração dos mais frágeis pelos inescrupulosos, tirando vantagem econômica dos feitos escravos, comercializados, agredidos física, sexual e moralmente. Crianças, jovens, mulheres são usados como meio de ganho, crianças usadas como fontes de extração de órgãos para serem transplantados em outras pessoas de outros lugares. Há mão de obra escrava, discriminações e desrespeito à dignidade humana.
Tudo isso se nos é apresentado à consideração na Campanha da Fraternidade para o colocarmos no encaminhamento da fé transformadora, levando-nos a assumir a água viva do Cristo que nos faz ressuscitar para uma vida de verdadeira justiça e fraternidade. Sem compromisso com a promoção da vida humana digna e justa não há celebração da Páscoa! Ele se dá na conversão para vivermos da água viva do amor de Deus, que nos faz solidários e comprometidos em também darmos aos outros a vida que Jesus nos trouxe.

Somos convidados a participar do encontro de Jesus com a samaritana junto ao poço de Jacó. Talvez sejamos como aquela mulher, necessitada da mudança de vida, sendo alimentados com a água viva do Salvador. Com ela vamos chamar as pessoas para escutarem e seguirem a Jesus. Precisamos de descruzar os braços para implantarmos em nosso convívio os valores do Senhor. A cidadania é desrespeitada demais. As famílias são esfaceladas com a mentalidade consumista e hedonista. A juventude precisa de quem lhe dê um norte diferente da droga, da corrupção política, do descompromisso com os valores da justiça, da promoção da formação e educação na fé para assumirmos os valores éticos e da convivência fraterna. Isto se faz na doação de si, na busca de um ideal de promoção da vida digna para todos, a partir dos mais deixados de lado e descriminados.

A formação da fé nos leva a seguirmos os passos do Mestre e obtemos a paz, tão necessária no convívio humano, como lembra Paulo: “Irmãos, justificados pela fé, estamos em paz com Deus” (Romanos 5,1).
CNBB, 19-03-2014.
*Dom José Alberto Moura é arcebispo de Montes Claros (MS).
Ler Mais

MEDITAÇÃO: Deu ainda o mandamento do amor de Deus, e ensinou a justiça para com o próximo

Do Tratado contra as heresias, de Santo Irineu, bispo
(Lib. 4,16,2-5: SCh 100, 564-572)             (Séc.II)

A aliança do Senhor
No Deuteronômio, Moisés disse o seguinte ao povo: O Senhor teu Deus firmou uma aliança no Horeb. Não foi com vossos pais que o Senhor firmou esta aliança, mas convosco (Dt 5,2-3).
Por que não firmou a aliança com seus pais? Porque a lei não foi feita para o justo (1Tm1,9). Ora, seus pais eram justos; tinham o conteúdo do Decálogo gravado em seus corações e em suas almas, pois amavam a Deus que os criara e abstinham-se de toda injustiça para com o próximo. Não precisavam da advertência de uma lei escrita, porque tinham em si mesmos a justiça da Lei.
Mas, quando essa justiça e esse amor para com Deus caíram no esquecimento e se extinguiram no Egito, tornou-se necessário que Deus, em sua grande bondade para com os homens, se manifestasse de viva voz.
Com seu poder fez sair seu povo do Egito, para que o homem voltasse a ser discípulo e seguidor de Deus; e castigou os desobedientes, a fim de que o povo não desprezasse o seu Criador.
Alimentou-o com o maná, para que recebesse um alimento espiritual, conforme disse também Moisés no Deuteronômio: Ele te alimentou com o maná, que nem tu nem teus pais conheciam, para te mostrar que nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca do Senhor (Dt 8,3).
Deu ainda o mandamento do amor de Deus, e ensinou a justiça para com o próximo, a fim de que o homem não fosse injusto nem indigno de Deus. Assim, por meio do Decálogo, Deus preparava o homem para a sua amizade e para a concórdia com o próximo. Era o homem que tirava proveito de tudo isso, uma vez que Deus não tinha nenhuma necessidade do homem.
Efetivamente,tudo isso contribuía para a glória do homem, dando o que lhe faltava, isto é, a amizade de Deus. Porém, isto nada acrescentava a Deus, pois ele não tinha necessidade do amor do homem.
O homem é que precisava da glória de Deus, a qual de modo algum poderia obter senão servindo a Deus. Por isso, Moisés lhe disse de novo: Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes, amando ao Senhor teu Deus, obedecendo à sua voz e apegando-te a ele – pois é a tua vida e prolonga os teus dias (Dt 30,19-20).
A fim de preparar o homem para esta vida, o Senhor proclamou por si mesmo as palavras do Decálogo, para todos sem exceção; por isso elas não foram abolidas por ocasião da sua vinda segundo a carne, mas permanecem em vigor entre nós, desenvolvidas e amplificadas.
Quanto aos preceitos próprios da servidão, Deus prescreveu-os separadamente ao povo, por intermédio de Moisés, adaptados à sua educação e formação, conforme disse o próprio Moisés: Naquele tempo, vos ensinei leis e decretos conforme o Senhor Deus me ordenou (cf. Dt 4,5). Por isso, os preceitos, que implicavam a servidão e tinham o caráter de sinais, foram abolidos pelo Senhor na Nova Aliança da liberdade. Mas os preceitos naturais, que convêm a homens livres e são comuns a todos, foram completados e aperfeiçoados, concedendo generosamente aos homens o dom de conhecer a Deus como Pai adotivo, amá-lo de todo o coração e seguir seu Verbo sem se desviarem.

Responsório

R. Moisés, servo de Deus, jejuou quarenta dias,
jejuou quarenta noites,
Para poder, condignamente, receber a lei de Deus.
V. Moisés foi ao Senhor, subindo o monte do Sinai;
ali passou quarenta dias e também quarenta noites.
* Para poder.

Oração 
Concedei-nos, ó Deus todo-poderoso, que, purificados pelo esforço da penitência, cheguemos de coração sincero às festas da Páscoa que se aproximam. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
Conclusão da Hora
V. Bendigamos ao Senhor.
R. Graças a Deus.
Ler Mais

Tráfico Humano: culpados e inocentes

O tráfico humano é perverso porque coloca estruturas sociais a serviço da exploração humana.
Por Dom Demétrio Valentini*
A Campanha da Fraternidade está nos ajudando a compreender a complexa realidade do tráfico humano. Ela implica um emaranhado muito grande de ingredientes, que convém destrinchar.

O tráfico humano é particularmente perverso porque se vale das estruturas, seja do Estado como da sociedade, e as usa com aparência legal mas as coloca a serviço dos seus intentos de exploração humana.

O sistema viário, por exemplo, é de evidente utilidade pública. Mas é usado pelo tráfico humano, como se ele existisse para isto.

Como crime organizado, envolve um conjunto de cúmplices: os que o exploram diretamente, os aliciadores, os transportadores, os prestadores de assistência jurídica, que garantem documentos falsos ou defesa judicial para os envolvidos. Ele se vale, se necessário, dos “paraísos fiscais” para a lavagem do dinheiro obtido, para ser usado novamente como legal.

Este crime faz com que as vítimas sintam vergonha de terem sido enganadas, a indignação de serem vítimas, de terem perdido a liberdade. Elas se vêm impelidas a fazerem o que esperavam. Ficam cada vez mais isoladas da família, como presas em verdadeiro cativeiro, com dívidas sem fim a pagar, mantidas sob a ameaça de morte.

Muitas delas são tentadas à fuga, o que lhes acarreta novos sofrimentos, com represálias e castigos até a morte. E quando isto acontece, a morte não é notificada, é atribuída a acidentes, e servem de alerta para outras vítimas não tentarem o mesmo caminho.

Essa é uma triste realidade, que muitas vezes passa desapercebida. A Campanha da Fraternidade nos anima a enfrentá-la de maneira solidária, animados pelo exemplo de Cristo, que nos libertou para sermos livres e vivermos com a dignidade dos filhos de Deus.
A12, 17-03-2014.
*Dom Demétrio Valentini é bispo de Jales.
Ler Mais

Um convite para a penitência quaresmal

Por Dom Aloísio Roque Oppermann
O perdão de nossos pecados é uma necessidade espiritual. Mas também psicológica. Nada melhor do que o pecador se sentir perdoado. “Feliz aquele cuja iniquidade foi perdoada” (Sl 31, 1). Isso é benéfico para nós. Restaura nossa autoestima. Sentir-se perdoado significa ter a sensação segura de ser amado.

Trata-se de uma grande experiência interior, portadora da paz e do equilíbrio psicológico. Faz levantar a cabeça. Mas como se pode obter a misericórdia divina em nosso favor? Que possibilidades de perdão o Pai Justo (Jo 17, 25) nos oferece para a purificação de nossas consciências? Cito alguns caminhos, uns mais largos e outros mais estreitos. Entre eles lembro o amor profundo e total para com Deus. “A caridade é o vínculo da perfeição" (Col 3, 14).

É bem difícil, mas muitos alcançam essa graça. Cito, sobretudo, a prática da caridade para com o próximo. "A caridade apaga uma multidão de pecados" (1 Pd 4, 8). Esse é um caminho bastante seguro, ao alcance de nossas mãos. Também, vinculadas ao poder legítimo da Igreja, estão as indulgências, cujo poder de perdão provem dos tesouros de santidade dos filhos da esposa de Cristo.

Mas um caminho proposto por Jesus, e aberto pela bondade do Salvador, é o Sacramento da Penitência, também chamado de Confissão. É um caminho seguro para a misericórdia divina, contanto que nos arrependamos e nos ponhamos na senda da mudança interior. Nós acreditamos no poder que Jesus deu à sua Igreja de perdoar, em nome de Deus, os pecados do povo. "Somos embaixadores da reconciliação...Em nome de Cristo vos pedimos: deixai-vos reconciliar com Deus" (2 Cor 5, 19-20). Esse sacramento não só perdoa os pecados, - por mais graves que sejam, - mas nos dá forças para praticar o bem.

O papa Francisco sugere que todas as Paróquias do mundo facilitem, nesta quaresma, a aproximação dos Fiéis, a este sacramento. O sacramento é tão humano, que até a psicologia adotou a "confissão" como um método de terapia. Só existe uma diferença: após o relato diante de psicólogo, este pode orientar o paciente e mostrar o caminho da recuperação. Mas o Sacerdote pode perdoar, em nome de Deus. E isso é uma segurança para nós. "Se o mau renunciar à sua malícia e praticar o bem, ele viverá" (Ez 33, 19).
*Dom Aloísio Roque Oppermann é arcebispo emérito de Uberaba (MG).
Ler Mais

Papa ataca 'hipócritas que se disfarçam de bons católicos'

A Quaresma é um tempo para “ajustar a vida”, “para aproximar-se do Senhor”. As palavras são do papa Francisco e ditas em sua homilia matutina, na missa celebrada na Capela da Casa Santa Marta. O Santo Padre fez uma advertência para não se sentir “melhor que os outros”. E disse que os hipócritas “se disfarçam de bons” e não compreendem que “ninguém é justo por si mesmo”, posto que todos “temos necessidade de ser justificados”.
Com a palavra conversão, o papa Francisco começou sua homilia, destacando que se trata da palavra chave da Quaresma, tempo propício “para aproximar-se” de Jesus. E comentando a primeira leitura, tomada do Livro de Isaías, observou que o Senhor chama à conversão duas “cidades pecadoras” como Sodoma e Gomorra. O que evidencia que todos “temos necessidade de mudar a nossa vida”, olhar “bem para a nossa alma” onde sempre encontraremos algo. A Quaresma, acrescentou, é precisamente isto, “ajustar a vida”, aproximar-se do Senhor. Porque Ele, disse o Papa, “nos quer próximos” e nos assegura que “nos espera perdoando-nos”. Contudo, acrescentou, o Senhor quer “uma aproximação sincera” e nos previne para não sermos hipócritas.

“O que fazem os hipócritas? Disfarçam-se, disfarçam-se de bons: fazem cara de santinhos, rezam olhando para o céu, fazendo-se ver, sentem-se mais justos que os outros, desprezam os outros. ‘Mas – dizem –, eu sou muito católico, porque meu tio é um grande benfeitor, minha família é esta, e eu sou... aprendi... conheci este bispo, aquele cardeal, este outro padre... Eu sou...’. Sentem-se melhores que os outros. Isto é hipocrisia. O Senhor disse: ‘Não, isso não’. Ninguém é justo por si mesmo. Todos temos necessidade de ser justificados. E o único que nos justifica é Jesus Cristo”.

Por esta razão, acrescentou o papa, devemos aproximar-nos do Senhor: “Para não sermos cristãos disfarçados, que quando passa esta aparência, vê-se a realidade, isto é, que não são cristãos”. Diante da pergunta de como fazer para não ser hipócritas e nos aproximarmos do Senhor, Francisco disse que quem nos dá a resposta é o próprio Senhor na primeira leitura, quando diz: “Lavem-se, purifiquem-se, afastem dos meus olhos o mal das suas ações, deixem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem”. Este é o convite. E ao perguntar qual é o sinal que indica que estamos no caminho certo, o Papa disse:

“Socorram o oprimido, façam justiça ao órfão, defendam a causa da viúva. Cuidar do próximo: do doente, do pobre, do necessitado, do ignorante. Esta é a medida de comparação. Os hipócritas não sabem fazer isso, não podem, porque estão tão preocupados consigo mesmos que estão cegos para olhar para os outros. Quando alguém caminha um pouco e se aproxima do Senhor, a luz do Senhor o faz ver essas coisas e vai ajudar os irmãos. Este é o sinal, este é o sinal da conversão".

O papa observou que certamente “não é toda a conversão”, isso é, com efeito, “o encontro com Jesus Cristo”, mas “o sinal de que nós estamos com Jesus Cristo é este: socorrer os irmãos, os pobres, os oprimidos, como o Senhor nos ensina” e como lemos no capítulo 25 do Evangelho de Mateus:

"A Quaresma é para ajustar a vida, arrumá-la, mudar de vida para aproximar-se do Senhor. O sinal de que estamos distantes do Senhor é a hipocrisia. O hipócrita não necessita do Senhor, pensa que se salva sozinho, e se fantasia de santo. O sinal de que nós nos aproximamos do Senhor com a penitência, pedindo perdão, é que nós cuidamos dos irmãos necessitados. Que o Senhor dê a todos luz e coragem: luz para conhecer o que acontece dentro de nós e coragem para nos converter, para nos aproximar do Senhor. É belo estar próximo do Senhor.”
Rádio Vaticano, 18-03-2014.
Ler Mais

O que a Igreja nos recomenda na Quaresma?

Por João Antônio Johas Leão
Quando caminhamos com um destino não nos perdemos. Se nos desviamos do caminho e nossa consciência nos alerta, é justamente porque conhecemos nosso destino e sabemos que por esse novo caminho não vamos chegar lá. Mas saber o destino não significa que o caminho vai ser fácil. E nossa mente confusa, muitas vezes se esquece do destino final, gerando um risco real de se perder.

Qual é o destino da Quaresma? A Ressurreição de Jesus. A Igreja, com sua liturgia, não nos deixa esquecer disso e nos ajuda a ter sempre presente algumas atitudes que podemos ter nessa tempo para viver de acordo com o espírito quaresmal e caminhar sempre até Jesus ressuscitado. Em todas as missas, os textos nos lembram constantemente como viver bem esse período de preparação para a Páscoa. Por isso é tão importante participar com atenção nas celebrações eucarísticas, especialmente nos Domingos.

Que atitudes nos recomenda a Igreja nesse tempo?

Nunca podemos nos esquecer dos três grandes meios propostos. Oração, Jejum e caridade. Esses três meios vistos em conjunto nos convidam a uma atitude, em geral, mais sóbria, austera, recolhida, meditativa. Não significa estar triste, porque um cristão não pode ser triste, mas voltar a pensar no essencial das nossas vidas. Como está o meu caminho de conformação com o Senhor Jesus, em outras palavras, estou mais parecido com Ele do que no ano passado? Como posso me assemelhar mais nesse tempo?

Mas não devemos nos perguntar isso com uma atitude pessimista, como se estivéssemos pensando: “Estou muito mal, Deus vai me castigar se eu não melhorar”, mas com um horizonte positivo, fundamentado no amor, como se pensássemos: “Amo tanto a Jesus que me dói não ser mais parecido com Ele, como posso amá-lo mais?” A vida cristã é uma vida de amor, não de temor. Quantas vezes escutamos Jesus dizendo nos Evangelhos: “Não tenham medo”. Não tenhamos medo, nos lancemos, nessa quaresma, nessa aventura do amor que nunca acaba.

Na Missa do primeiro Domingo da Quaresma escutamos o sacerdote pedir, na oração coleta, “que possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a seu amor por uma vida santa.” Essa é uma atitude que não nos deixa desviar do caminho. Buscar conhecer mais a Jesus por exemplo pela oração mais intensa ou pelo estudo do catecismo, nos fará arder de amor por Ele, porque quanto mais conhecemos, mais amamos Àquele que é todo amor. Com esse ardor vivo em nossos corações vamos acender o coração de muitas outras pessoas que estão sentindo o frio da falta de Deus.

A Igreja sempre nos conduz pelo Caminho que é o próprio Jesus. Progredindo no tempo da Quaresma, vemos que esse caminho realmente nos conduz a Glória de Deus quando Jesus é transfigurado no segundo Domingo da Quaresma. Nesse dia somos chamados a ter uma atitude alegre porque Deus já nos está recompensando, com a visão da Glória, os esforços que estamos fazendo por nossa conversão.

Em todo o tempo quaresmal, somos uma e outra vez convidados a olhar para o nosso interior e perceber, ao meu ver, duas coisas. A primeira delas é a nossa grande pobreza, fruto dos nossos pecados pessoais, que nos afastam de Deus e nos levam a uma vida sem sentido, triste. A outra é a grandeza (infinitamente maior que a primeira) do amor de Deus, que se aproxima de nós, fazendo-se pobre como nós para enriquecer-nos com sua riqueza, como nos diz São Paulo em sua primeira carta aos Coríntios, passagem que também serviu de base para o Papa Francisco em sua mensagem para essa quaresma.

Devemos que reconhecer que somos pobres enriquecidos! Com essa consciência elevamos nosso olhar outra vez a Deus e lhe pedimos: “Acolhei esta confissão da nossa fraqueza para que, humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela vossa misericórdia.” (Oração coleta do terceiro Domingo da Quaresma) Somente assim seremos transparentes ao Amor de Deus e permitiremos que muitas outras pessoas vejam por meio de nós o brilho de sua riqueza.

No fundo, as atitudes que devemos buscar ter na Quaresma são as atitudes que devemos buscar ter em toda a vida cristã, com um especial cuidado nesse tempo. E qual é a atitude mais básica do Cristão? É a que acontece na hora do batizado, quando morremos para os nossos pecados e ressurgimos para a Vida nova, a vida de Cristo, a vida cristã. Toda a vida do cristão é um morrer ao pecado, ao homem velho, para viver para a Graça, para o homem novo, que é Jesus.

Todos os meios que colocamos na Quaresma, as atitudes que tomamos, devem encher o nosso coração do amor de Deus e acender em nós “tal desejo do céu, que possamos chegar purificados à festa da luz eterna” (Oração de benção do fogo, na Vigília Pascual).

Para isso, Maria nos ensina, com sua vida, as melhores atitudes para esse tempo. Tão silenciosa e recolhida, atenta a Palavra de Deus, meditando-as sempre em seu coração, buscando levar Jesus aos corações de todos os seus filhos, nossa Mãe é a escola perfeita onde aprendemos a dispor o nosso coração para a alegria eterna à qual somos todos chamados. Pedindo que Ela nos guie e proteja podemos ter a certeza de que não nos desviaremos do caminho de Jesus.
A12, 15-03-2014.
17/03/2014  |  domtotal.com
Ler Mais

'Levem com vocês um pequeno Evangelho'

Cidade do Vaticano – “Vão fazê-lo. Domingo que vem me direis se o fizera...” Um Papa Francisco com “gás total” apareceu ao meio-dia de hoje para a reza do Ângelus após a semana de oração, descanso e reflexão em Ariccia, quando participou com 82 integrantes da Cúria romana dos exercícios espirituais. O Santo Padre interpelou duas vezes a praça lotada de São Pedro (perto de 100 mil pessoas) e deu conselhos para viver melhor esta Quaresma. O Papa Francisco comentou o Evangelho deste domingo, o da Transfiguração, que descreve a oração de Jesus na montanha junto com Pedro, Tiago e João. 
Do alto ressoa a voz do Pai que proclama Jesus seu “Filho predileto”, afirmando: “Ouvi-o!” “É muito importante este convite do Pai –comentou Francisco – Nós, discípulos de Jesus somos chamados a ser pessoas que escutam sua voz e assumem seriamente suas palavras”. “Isto é importante – afirmou deixando de lado o texto escrito -: o nosso Pai disse a estes apóstolos e anos: ‘Escutai Jesus!’ Tenhamos estas palavras na cabema e no coração: Ouvir Jesus! E isto não o diz o Papa, eh!, o diz Deus Pai...” Para ouvir Jesus, prosseguiu, é preciso “segui-lo, como faziam as multidões do Evangelho que o procuravam pelas estradas da Palestina. Jesus não tinha uma cátedra ou um púlpito fixos, mas era um mestre itinerante, que apresentava seu ensino pelas estradas, trilhando caminhos nem sempre previsíveis e às vezes pouco fáceis”.

“Escutemos Jesus também em sua palavra escrita – afirmou ainda o Papa improvisando – isto é no Evangelho. Lhe faço uma pergunta: leem todos os dias um trecho do Evangelho?... Alguns sim, alguns não? É algo bom ter um pequeno evangelho e levá-lo conosco no bolso e ler algum trecho em qualquer momento do dia: é ai que Jesus nos fala. Pensem, ... é fácil, nem é necessário que sejam todos os Evangelho, é suficiente um...”.

E Francisco continuou lembrando os “dois elementos significativos” no texto de Evangelho de hoje, sintetizando-os em duas palavras “subida e descida”. Nós temos necessidade “de ir à parte, de subir a montanha num espaço de silêncio, para encontrar a nós mesmos e perceber melhor a voz do Senhor. Mas não podemos continuar aí! O encontro com Deus na oração nos leva novamente a “descer do monte” e voltar para baixo, na planície, onde encontramos tantos irmãos e irmãs, cansados e angustiados pelas injustiças, pobreza material e espiritual. A estes nossos irmãos que passam por dificuldades, somos chamados a levar os frutos da experiência que fizemos com Deus, partilhando com eles os tesouros de graça recebidos”.

“Quando nós percebemos e escutamos a palavra de Jesus – disse ainda Papa Francisco improvisando – e o temos no coração, aquela palavra cresce. Sabem como? Doando-a ao outro. É a missão de todos os batizados: ouvir Jesus e oferecê-lo aos outros”. “Se não estivemos com Deus – concluiu -, se o nosso coração não foi consolado, como podemos consolar? Esta missão diz respeito a toda a Igreja, e é responsabilidade, em primeiro lugar, dos pastores – os bispos, os sacerdotes – chamados a se jogar em meio às necessidades do povo de Deus, aproximando-se com afeto e ternura, especialmente, em relação aos mais fracos e pequenos, aos últimos”.

Após a oração mariana do Ângelus, o Papa citou entre as saudações ao presentes na praça a Comunidade João XXIII, fundada pelo sacerdote Oreste Benzi e seu trabalho em favor das “mulheres vítimas de tráfico”: “São corajosos estes!”, acrescentou Francisco. Não faltou o pedido de orações, em particular, pelos passageiros e a tripulação do avião da Malásia desaparecido nesses dias, e pelos seus familiares: “Estamos próximos deles neste difícil momento”. Por fim, saudando as bandas e escolas presentes, dirigiu uma saudação especial à escola católica de “Mar Qardakh” di Erbil, no Curdistão iraquiano.
SIR
Ler Mais

Precisamos de um retorno à interioridade

Cidade do Vaticano - Encontrar tempos para o silêncio, praticar o jejum não somente do alimento, mas também dos excessos do bem-estar, vencer aquilo que desvia da vontade de Deus. A Quaresma do cristão deve ser feita disso, disse o frade capuchinho, Pe. Raniero Cantalamessa, na primeira das meditações propostas à Cúria Romana. O pregador da Casa Pontifícia ofereceu na manhã desta sexta-feira, na Capela Redemptoris Mater do Palácio Apostólico, uma reflexão sobre o sentido dos quarenta dias que precedem a Páscoa. Nas próximas sextas-feiras, na presença do Papa, desenvolverá as grandes verdades da fé recorrendo aos ensinamentos dos Padres da Igreja Latina. 

Do Evangelho à vida de cada um de nós: se Jesus apartou-se no deserto durante 40 dias, jejuou e ali foi também tentado, o que cabe a nós fazer para imitá-lo? O religioso franciscano fez a transposição dos gestos de Cristo para o nosso hoje; assim, para nós, ir para o deserto é escolher tempos de silêncio, encontrar espaços para nós mesmos, reencontrar a parte mais verdadeira de si colocando-se diante de Deus. Em suma, é o apelo do retorno ao coração, lançado por Santo Agostinho.

"Portanto, voltar ao coração significa voltar àquilo que há de mais pessoal e mais íntimo em nós. Infelizmente, a interioridade é um valor em crise... existem causas remotas, por assim dizer, para essa nossa dificuldade de reentrar em nós mesmos e a mais universal é o fato que nós somos compostos de alma e corpo, de espírito e matéria e, portanto, somos como um plano inclinado, mas inclinado para baixo, não para o alto, ou seja, inclinado para o exterior, para o multíplice, o visível..., sobretudo nós, clero e vida consagrada, precisamos de um retorno à interioridade."

E então é preciso abandonar o fragor, as distrações, as diferentes formas da cultura moderna, os instrumentos da tecnologia e, portanto, revistas, livros, tv, internet e dispositivos digitais que invadem a intimidade do coração, dissipam as nossas energias. Esse se torna o jejum a ser praticado hoje. Jesus privou-se do alimento, nossa época requer um jejum diferente.

"Hoje, o jejum mais significativo se chama… sobriedade… privar-se voluntariamente de pequenas ou grandes comodidades, daquilo que é inútil e por vezes danoso à saúde. Esse jejum é solidariedade com os pobres... um tal jejum é contestação a uma mentalidade consumista, num mundo que fez da comodidade, do usar, do uso, do comprar, a sua finalidade, o mecanismo que mantém de pé todo o sistema. Privar-se de algo não estritamente necessário, do objeto de maior luxo, é mais eficaz, talvez, que infligir-se penitências escolhidas por si mesmo."

O pregador da Casa Pontifícia recomenda, sobretudo, o jejum das imagens, daquelas que veiculam violência, sensualidade, que investem nos instintos mais baixos e que dão uma falsa ideia da vida, porque ilustram um mundo bonito, sadio e perfeito, rico de coisas a ponto de induzir à rebelião aqueles que não têm o que é insistentemente mostrado.

"Outro jejum alternativo é o jejum das palavras nocivas. Não são somente blasfêmias, naturalmente, nem mesmo somente palavrões; são as palavras pungentes, negativas, que evidenciam sempre o aspecto mais frágil do irmão, que geram desconfiança ou alimentam desconfiança e, portanto, semeiam discórdia."

Deve-se, então, evitar aquilo que pode gerar descontentamento, frustração e ressentimento, ou neutralizar o efeito das palavras que ferem pedindo desculpas. Por fim, Frei Cantalamessa recordou que também nós sofremos as tentações de Satanás, propriamente como Jesus no deserto. Inteligência perversa e geradora de perversão, o Diabo usa coisas boas como instrumentos para separar o homem de Deus.

Então o dinheiro é uma coisa boa, se usado corretamente, e a sexualidade é um dom de Deus, mas se levados ao excesso se transformam em ídolos e se tornam destrutivos. Então ir para o deserto é buscar um diálogo profundo com Deus separando-se de tudo, explicou Pe. Cantalamessa. "Deus quis em Cristo assumir um rosto humano, um coração humano, para ajudar-nos a amá-lo como nós sabemos amar – concluiu o pregador da Casa Pontifícia –; o Espírito Santo que impeliu Jesus para o deserto, hoje nos impele também a nós para o deserto, para reencontrar-nos com Deus."
SIR
Ler Mais
 
São Francisco da Penitência OFS Cabo Frio | by TNB ©2010