'A agressão não pode ser um ato de fé', diz Francisco

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Por Andrés Beltramo Álvarez
A Argentina tem não apenas um papa, o primeiro da sua história, mas vive também um momento de turbulência religiosa. O que foi demonstrado na semana passada, quando um grupo de jovens interrompeu uma liturgia inter-religiosa celebrada na catedral de Buenos Aires. O episódio se converteu em um escândalo nacional e Francisco interviu, de maneira reservada, mas com uma frase simbólica: “a agressão não pode ser um ato de fé".

Na tarde de 12 de novembro, estava previsto um ato para comemorar o 75º aniversário da Noite dos Cristais Quebrados, o ataque contra casas e templos judeus que deu início ao Holocausto. A cerimônia foi encabeçada pelo arcebispo da capital argentina, Mario Poli.

No ano passado, este lugar foi ocupado por Jorge Mario Bergoglio. A tradição de recordar aquele momento histórico começou há 15 anos. Nas primeiras ocasiões, o encontro foi feito em diferentes templos católicos e logo se transferiu para a catedral. Mas, em 2013, as coisas foram diferentes.

Pouco antes de começar a celebração, um grupo com cerca de 40 pessoas, a maioria adolescentes, adentrou o templo e se pôs a rezar o rosário em voz alta. Alguns rapazes distribuíram panfletos nos quais se podia ler: “Fora adoradores de deuses falsos do templo santo”. Enquanto um homem, com uma boina vermelha, pegou o microfone para pedir que se terminasse com o ato. Tudo perante o olhar estupefato de vários líderes religiosos presentes.

Rapidamente a situação piorou. Os queixosos não deixavam de rezam, enquanto vários dos presentes começavam a se retirar. A tensão era evidente. À distância, o núncio apostólico na Argentina, Emil Paul Tscerrig, observava a cena desconcertado.

Os autores da ação não se identificaram. Não disseram nada àqueles que gritavam para que fossem embora e também não responderam as provocações, como a do deputado Eduardo Amadeo que não deixava de tirar fotos com seu celular e, furioso, os chamava de: "miseráveis nazistas". Eles apenas continuavam rezando o rosário, quase gritando, liderados por um sacerdote.

Ao final da oração, levantaram-se e se foram. A liturgia pôde continuar. O arcebispo Poli pediu desculpas e assegurou aos “amigos judeus” que “sempre serão bem-vindos” na catedral.

Naquela noite, a polêmica chegou à imprensa. Os meios de comunicação qualificaram os jovens de “ultracatólicos”, “lefebvristas” e “radicais”. Ninguém pôde estabelecer exatamente sua filiação ou pertencimento, talvez por isto apontaram que se tratava de membros da Fraternidade de São Pio X, o grupo cismático fundado por Marcel Lefebvre.

Dos meios de comunicação, a controvérsia foi para a rede, com acalorados debates nas redes sociais e no blog www.pagina-catolica.blogspot.com, de onde partiu a iniciativa que foi considerada como um alívio frente à profanação.

O episódio não passou despercebido, superou as fronteiras argentinas e chegou até o Vaticano. Foi tema de conversa, nesta terça-feira, entre Francisco e seis membros do Comitê Latino-Americano de Líderes Religiosos pela Paz.

Entre eles estava o diretor executivo do Congresso Judaico Latino-Americano (CJL), Claudio Epelman, que após cumprimentar o Papa disse-lhe que a “pregação da intolerância é uma forma de militância que deve ser superada”. "A agressão não pode ser um ato de fé", respondeu Bergoglio.

"Com este encontro, o papa manifestou, mais uma vez, seu firme compromisso pessoal para a construção de pontes entre as religiões e para trabalhar junto a todos nós para assegurar a paz", apontou Epelman.
Vatican Insider, 20-11-2013.

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